Madame Loisel ou pobre Matilde?

     Segundo Henry Thomas e Dana Lee Thomas, in VIDAS DE GRANDES ROMANCISTAS, com tradução de James Amado, o escritor francês Guy de Maupassant (1850-1893), foi um dos grandes romancistas de sua época. É de autoria dele, por exemplo, o livro Bola de Sebo, no qual consta o conto O COLAR, cuja síntese transcrevo abaixo.
    Esse fato ocorreu na França com uma mulher que nascera bela, mas pobre. Sonhava com príncipes, mas casou com um modesto funcionário público. Almejava palácios, mas vivia numa casa de cômodos. "Não tinha perfumes nem joias, e eram estas coisas que ele mais desejava".
    Contudo, tinha uma amiga, ex-colega do convento, que era rica. Porém, nunca ia visita-la por sentir-se pobre diante da outra, o que a fazia sofrer por isso.
    Uma noite seu marido chegou radiante. Havia sido convidado para ir com a esposa participar de uma festa oferecida pelo Ministro da Instrução Pública.
    - Mas eu não tenho como ir - Disse Madame Loisel.
    Ele comprou-lhe um vestido. Ela continuou insatisfeita.
    - Não tenho joias.
    - Por que não procura aquela sua amiga rica, e as empresta dela?
    Madame saltou de alegria e disse: É mesmo. Eu não tinha pensado nisso!
    Foi, então, à casa da Senhora Forestier e obteve um belo colar de diamantes, e, na festa, foi a mais bela entres as belas. Voltou para casa toda contente. Ao despir-se diante do espelho soltou um grito:
    - Perdi o colar da minha amiga!
    A joia foi procurada por toda Paris, mais todo o esforço foi em vão.
    - Precisamos devolver o colar, admitiam os dois. O que fazer, então? Foram à joalheria e encontraram um colar similar por 40 mil francos, mas com o desconto, poderia ser vendido por 36 mil.
    O casal saiu a procurar amigos, banqueiros, agiotas e usuários, e conseguiram o dinheiro e o colar foi finalmente devolvido à proprietária.
    No entanto, marido e mulher se submeteram à escravidão do trabalho para pagar a dívida contraída. Ambos chegaram a prejudicar a própria saúde, trabalhando dia e noite, durante uma década, até que conseguiram liquidar o empréstimo, inclusive os juros.
    O tempo passou e num domingo, Madame Loisel, agora uma mulher envelhecida e cansada, caminhava pelas praças parisienses, quando avistou uma jovem senhora, formosa e elegante, que caminhava na direção oposta. Era a amiga rica que outrora emprestara-lhe o colar.
    - Bom dia.
    Madame Forestier fitou-a de cima para baixo, sem no entanto, reconhecê-la.
    - Sou Matilde Loisel.
    - Oh! Minha pobre Matilde, como estás mudada!
    - Tive muitos trabalhos nos últimos 10 anos. E tudo por tua causa, ou melhor, por causa do teu colar que perdi. E passei todo esse tempo a pagá-lo.
    Profundamente emocionada, a Madame rica tomou entre as suas mãos, as mãos ásperas de Matilde, exclamando:
     - "Oh! Minha pobre Matilde! Mas o meu colar era falso.Valia, no máximo 500 francos".
     MORAL DA HISTÓRIA
     O autor mostra sua ironia e seu menosprezo pela estupidez humana. Em varias de suas outras histórias, contudo, seu menosprezo converte-se em compaixão. É o que se constata no presente conto, cujas personagens são as duas madames.
     Agora digo eu: qualquer semelhança com algumas classes sociais brasileiras, não é mera coincidência. Aliás, por aqui, o livro de Maupassant teria o seguinte título: "Brasil de Sebo".
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