Nervos à Flor da Pele

   O poeta alemão Bertolt Brecht (1898-19560, disse: ''nós vos pedimos com insistência, não digam nunca: isso é natural! Diante dos acontecimentos de cada dia, numa época em que reina a confusão, em que corre sangue, em que a humanidade se desumaniza, não digam nunca: isso é natural! Para que nada passe a ser imutável''.
   O apelo acima é forte. Porém, não foi somente ele o único a reclamar desse emaranhado de altos e baixos da humanidade. Aqui nos trópicos, outra voz se fez ecoar nesse sentido. Foi a do poeta amazonense Farias de Carvalho (1930-1997), no poema DESABAFO:
   
   ''Hoje eu queria escrever um poema diferente, 
     sem o chique das formas elegantes e a rotina
     das velhas tradições (...)
     um poema duro, pegajoso, com os músculos o
     e suor dos que constroem os séculos e carregam
     todo o peso do mundo sobre os ombros (...)
     plantar nele um jardim de cores tristes,
     onde rebentem como camélias pálidas as caras
     magras das crianças sujas, que andam estendendo
     as mãos pelas esquinas (...)
     depois, borrá-lo com o vermelho vivo do sangue
     odiento dos que vivem como cães abandonados,
     vomitando os pulmões pelas sarjetas (...)
     crucificar Jesus mais uma vez, para acordar 
     o grande sacrifício no coração dos homens 
     que esqueceram (...)
     zurzir, não sei quantas mil vezes, a consciência
     feudal dos potentados, que hão de ler, por certo,
     com desprezo, durante a sesta, depois da bóia gorda,
     onde engolem (...) a vida triste dos que empurram
     o mundo (...) e depois de toda um existência, de
     sangue, suor, pranto e escravidão, viram chocalhos
     de ossos e terminam de mãos magras e estendidas 
     a pedir pão.
     Quero montar meu poema como um louco e 
      sair galopando mundo afora (...) beijando a mão
      ressequida do camponês que anda enchendo a
      terra de sementes, de dor e de esperanças (...)
      cantar o heroísmo anônimo e gigante das mulheres
      que nunca foram santas, e andam parindo nas
      estrebarias, pobres crianças que ninguém adora
      porque já nasceram implacavelmente pregadas à cruz
      de sacrifícios infindáveis, lembrando em seu destino
      trágico e sem luz, o heroico sacrifício de Jesus.
      Quero escrever um poema diferente. Para escutá-lo (...)
       basta jogar o ouvido pelo mundo,
      e ouvir meu poema repetido (...) no lamento 
      da negras chaminés, no roncar dos estômagos 
      vazios (...) e senti-lo, mas vivo e cortante,
      na voz daquela operária buchuda, que está
      enganando o menino de olhos fundos: 'dorme, 
      filhinho, dorme, teu pai vai trazer pão...'
      Hoje eu queria escrever um poema diferente...''

   Ainda hesitei em ler o livro: Mudanças e Contextos: de Jesus Cristo a Bill Gates, de Júnior de' Carli   
     
Tecnologia do Blogger.