A verdade manchada

    Na semana passada fiz uso do título do livro Que País É Este? do poeta Affonso Romano de Sant'ana, para publicar o Fragmento 1, do poema A implosão da mentira, também de sua autoria. Por não suportar mais, como milhões de brasileiros como eu, com o elevado grau da mentira e sua desfaçatez que insiste em se apropriar de instituições públicas e privadas; de camadas da sociedade civil ou não; de entidades religiosas; de academias universitárias, etc.
    Hoje, quero contrapor a tudo isso, ilustrando este espaço com o indispensável poema VERDADE, do também mineiro, o poeta  Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), publicado em Poesia completa, pela Nova Aguilar, em 2002. Leia-o: 
 
                                                            Verdade

                   A porta da verdade estava aberta,
                  mas só deixava passar
                  meia pessoa de cada vez.
                            Assim não era possível atingir toda a verdade,
                           porque a meia pessoa que entrava
                          só trazia o perfil da meia verdade.
                   E sua segunda metade
                  voltava igualmente com meio perfil.
                 E os dois meios perfis não coincidiam.
                         Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
                        Chegaram a um lugar luminoso
                        onde a verdade esplendia seus fogos.
                        Era dividida em duas metades,
                       diferentes uma da outra.
                Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
                Nenhuma das duas era totalmente bela.
               Mas carecia optar. Cada um optou conforme
               seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

    
   Observando-se assim o Brasil como atual '' país da mentira'', fica difícil implantar a verdade mesmo que pela metade. Isso me faz lembrar de uma frase grafitada num muro que dava acesso ao antigo prédio da Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas, localizada no centro histórico de Manaus, em plena campanha pelas Diretas Já, em 1984: ''Por causa da mentira, a verdade é a última que aparece; e quando surge é capenga''.

   

                        
                                     
  
                  
Tecnologia do Blogger.