Tenório Telles: talento e humlidade

      Finalzinho da década de 1980, era eu professor do então segundo grau no Colégio Álvaro Botelho Maia -- considerado de ótima qualidade por seus cursos técnicos no ensino privado. Outro destaque era o permanente e definido quadro de professores, ou seja, o professor uma vez contratado, permanecia por lá muitos anos.
      Porém, certa feita, a professora de Língua Portuguesa e literatura, deixou as suas funções por recomendações médicas. Para preencher o cargo, foi contratado um jovem professor para ministrar as mesmas disciplinas. Seu nome: Tenório Telles.
      Alguns dias depois, os alunos começaram a comentar pelos corredores, sobre a metodologia por ele aplicada na sala de aula. O método até então era desconhecido pelo estudantes.
       Qual era a novidade? Era um projeto educativo simples, mas eficaz no aprendizado, o qual funcionava assim: 1° passo: o professor levava para a sala de aula, um rádio-gravador, algumas fitas K7 e textos mimeografados (estou me reportando a alguns recursos didáticos da época). Todos ouviam cações, poemas, leitura de textos, entrevistas e comentários, nas vozes de Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, Thiago de Mello, Manuel Bandeira, Cecilia Meireles, Aníbal Bessa, Torrinho (hoje Zeca Torres), Aldísio Filgueiras e outros, em verso e prosa; 2° passo:  ele ensinava as regras gramaticais, estilos poéticos do trecho, do texto e do contexto de cada autor trabalhado, após a leitura, com o uso do texto mimeografado. Os alunos adoravam, era uma festa; era um show à parte.
      Passados alguns meses, o vice diretor reuniu-se com alguns professores ( os mais antigos) para lhes participar que o contrato da escola com o professor Tenório Telles seria rescindido, porque o colégio precisava de um professor e não de um professor-cantor.
      De imediato, eu e o professor Evandro Marinho, questionamos a decisão escolar. Pois, o nosso ponto de vista, era favorável pela permanência do professor, haja vista que a metodologia dele era viável e necessária , fugindo assim, do tradicionalismo. Não resolveu. Alguns dias depois, o professor fora demitido, para o espanto geral da comunidade escolar. 
      Mas, o Tenório não se deixou abater. Humilde, mas talentoso, já que é caboclo do interior, lá de Beruri, banhado pelo rio Purus, continuou buscando na literatura, seu espaço, a sua fonte do saber. Formado em Letras pela Universidade Federam do Amazonas, quis mais: se bacharelou em Direito pela mesma Universidade, no final da década de 1990. Ainda naquela década reuniu, estudou e publicou a síntese de dezenas de obras de alguns poetas e escritores amazonenses, no Jornal A CRÍTICA.
      assim, o seu nome passa a ser uma nova referência nos meios acadêmicos, editoriais e literários locais, enquanto seguia trabalhando muito nos seus projetos profissionais. Foi nessa época, que veio 
a Manaus, uma vez que já morava em Roraima, onde exercia o cargo de Vice Reitor da Universidade, o professor Francisco Felício. Aquele que outrora demitira o Tenório por ser "professor-cantor". E num encontro que tive com, lembrei-lhe o fato. Ele falou exatamente isto: "Foi uma decisão equivocada. Se ele tivesse permanecido, agora, a escola tinha dois patronos".
      Mas "tudo passa". Atualmente, aos 52 anos de idade, o mestre Tenório Nunes Telles de Menezes, e professor universitário de Literatura Brasileira, já publicou mais de uma dezenas de obras, algumas com coautores notáveis, é coordenador editorial de uma das melhores editoras de livros e revistas de Manaus, na qual já foram publicadas dezenas de obras até então ineditas e outras dezenas reeditadas, de diferentes autores e gêneros literários.
       Por tudo isso, atesto: humildade não se compra com vil metal; é um bem inestimável. Cabe bem, portanto a seguinte citação: "Tenório é uma figura humana tão extraordinária que, se dedicando incansavelmente à promoção do livro e da leitura, pouco cuida quanto da publicação de seus próprios textos"(Donaldo Mello, março/2006, in www.antoniomiranda.com.br). Assim é o poeta, o escritor, o editorialista, o professor, o ser humano.
      Pense numa figura realmente extraordinária. Por exemplo, Estava eu numa faixa de pedestres da antiga rua Paraíba (Adrianópolis), quando ouvi alguém chamar pelo meu nome. Era o Tenório que entregou-me um envelope. Já caminhando do outro lado da rua verifiquei o conteúdo: era o convite  da sua posse como membro da Academia Amazonense de Letras, duas semanas a diante. Gesto assim não tem valor material que pague. 
      Pelas minhas convicções, o "professor-cantor" nunca soube o porquê da sua demissão da escola antes citada. Aliás, poucos souberam. Eu sabia, mas mantive a ética. Lamentavelmente sabia. E sei que ainda persiste no Brasil a mediocridade na formação educacional de grande parcela da juventude, praticada por horrendos administradores da res publica. 
      No entanto, a voz do poeta TT se revigora em Canção da Esperança quando canta assim, estes versos:
                                                NESTE TEMPO DESOLADO
                                                DE SONHOS SUBTRAÍDOS
                                                E UTOPIAS AMORTALHADOS 
                                                - ERGO ESTE CANTO PARA CELEBRAR
                                                A ESPERANÇA ENTRESSONHADA. 
                          
      
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