Lady Lourdes: A Poetisa Negra

      Em 2003, fui presenteado com o livro: "Coletânea Entrelinhas", pelo então Diretor-Presidente do Sest/Senat/AM, jornalista e escritor Carlos Costa, um dos autores da obra. Organizado por Rozelia Scheifler Rasia, de Cruz Alta-RS, 2002. O livro reúne poesia, contos, crônicas e artigos de vários  autores, de diferentes lugares do país, sendo a maioria do Rio Grande do Sul. Segundo esse escritor, no Centro-Sul do Brasil, é muito comum publicação de livros com esse tipo de conteúdo, onde são reunidos trabalhos literários de autores leigos e anônimos, como professores, jornalistas, advogados, médicos, pesquisadores e outros, que resulta na publicação de coletâneas.
      Aqui em Manaus (AM), iniciativa desse tipo ainda é muito modesta, salvo engano, quem já faz isso é a Editora da Ufam e a Editora Valer. É necessário, portanto, que haja mais investimentos nesse setor, pois deve existir um exército de pessoas com material literário pronto para ser enviado à gráfica. Assim, a nossa cultura, além de tornar-se mais diversificada, revelaria novos nomes na prosa, na poesia, no teatro, na música e outros ramos.
   É sobre esse assunto que quero me reportar, ou seja, sobre a poeta anônima, ou melhor, a poetisa. Descobri no magistério uma poetisa pronta, com material pronto para publicar seu 1º livro de poesias. É só encontrar o editor e/ou o patrocinador. Trata-se da professora e pedagoga Leidevane Lourenço da Silva, nascida em 1959 em Itambé - PR, filha mais velha dos 11filhos que teve o casal de camponeses José Pedro Lourenço (1927-2008) e Maria de Lourdes Lourenço (hoje com quase 82 anos de idade), a qual perdeu a visão logo após a morte do marido em 2008. Ele cearense de Brejo Santo, ela paulista de Presidente Venceslau e se casaram no Paraná, em 1957.
   Apesar da vida difícil o pai reuniu esforços e tempo para alfabetizar a filha. Daí vieram as primeiras letras, as primeiras frases, as primeiras leituras. Por exemplo, é dessa época a leitura do cordel ''Cancão de Fogo''. Hoje: esposa, mãe, filha obediente, linda mulher, e maravilhosamente negra. excelente profissional e autora de belos versos que compõem poemas como ''A Tua Rosa'', dedicado à D. Lourdes quando a mesma completara 63 anos de existência: ''O perfume da tua rosa/ enebria a tua vida./ Todas exalam perfumes,/ mas, a tua é preferida.''
     Seguia-se a vida e com ela a infância. Aos 6 anos de idade, escreveu a primeira carta endereçada à avó paterna; aos 10 iniciou os estudos primários em Murici - AL, onde ficou até o inicio da 3ª série. Mudou de escola e já iniciava a 4ª na capital alagoana, quando a família migrou para a Amazônia. Agora era vez da adolescência. Estava com 13 anos de idade e morando em Altamira - PA, ''onde dei por encerrada minha vida escolar'', pensava. 
       Em 1979, no auge da juventude, com apenas 20 anos de idade, resolveu casar e construir uma família, é óbvio. No entanto, após o nascimento do 6º filho, voltou à escola. Porém, antes de concluir a 6ª série, enfrentou sérios problemas de saúde na família, inclusive uma gravidez de risco. Contudo, reuniu forças e em 1993, com mais de 30 anos de idade, conseguiu terminar o 2º grau (atual ensino médio), no município de São Sebastião do Uatumã - AM, época em que ingressou no magistério do Estado por meio de concurso público da Seduc, e desde lá é professora.
        Como gosta do que faz, não parou mais de aprimorar os seus conhecimentos profissionais. Em 1994 fez um curso adicional de ciência e matemática; em 1995 foi aprovada no vestibular da Ufam, para pedagogia, concluindo-o em 1999. Em 2000 foi aprovada no vestibular para biologia e continuou a desenvolver as suas funções no Uatumã onde ficou até 2003; em 2004, foi removida para Manaus, vindo trabalhar na Escola Estadual Roderik Castelo Branco. Nessa fase participou de vários cursos de formação, entre eles, o de pós-graduação em Gestão Escolar e Orientação Educacional; em 2007 passou a trabalhar na Escola Estadual Daisaku Ikeda, como pedagoga auxiliar e professora, preferindo a última. Permanecendo lá até hoje. Foi lá que teve a oportunidade de concluir a segunda licenciatura em ciências biológicas.
        E a poetisa? Bem lembrado, caro internauta. Ela, a quem estou atribuindo o pseudônimo no título de Lady Lourdes, merece esse humilde, mas digno, resumo de sua vida. Ela convive, desde cedo, como poeta, como a poetisa, com as letras em versos, com as rimas, com as lembranças... Isso se confirma quando diz: ''meu sonho, desde criança era fazer versos. A literatura de cordel era minha inspiração.'' E num desses momentos que só os grandes poetas falam, como declamando os versos de outro poeta, completa: ''escrevi muitos versos que se perderam no tempo, junto com minhas frustrações.'' Isso se confirma no poema ''Marcas do Passado'', quando o eu-poeta contemplativamente reflete: ''Quando olho o infinito do ontem/ do ontem que hoje ainda existe./ Vejo as sombras do que não viu./ Na existência de um lamento triste''.
          Em 1997, quando era acadêmica de pedagogia, voltou a escrever seus poemas trazendo a vida para linha do horizonte, para a frente, como desafio número um. E numa sentença curta mas de efeito secular, diz: ''Coloquei em versos a minha história.'' E que história. A história de menininha que leu ''Cancão de Fogo'' e somente aos 10 anos de vida pisava pela primeira vez num solo escolar, que foi na escola municipal ''Professor Loureiro'', lá no Município alagoano de Murici. Agora (1997), com quase 40 anos de idade, dentro de uma Universidade, via sua história fragmentada em poemas ser bem aceita por professores, por universitários; via seus alunos venceram concursos da Pastoral da Juventude e assim foi crescendo. A princípio, eram manuscritos num caderninho, depois datilografados em papel ofício (A4), hoje são salvos no notebook da era informacional.
         ''Além das Palavras'' é uma brochura com mais de 100 poemas. Todos inéditos. Segundo a autora vai deixar esse valioso trabalho para os filhos, longe do público leitor. Eu que vi o material, espero que mude de ideia e revele seu talento para os amantes da poesia. Por exemplo, destaco também o poema ''Vida Nova'', o qual foi concebido pela experiência que a poetisa adquiriu quando participava com amigos e demais professores, para realizar atividades acadêmicas, nos encontros dos AA. Apesar do tom imperativo, as palavras possibilitam ao recuperando do alcoolismo, tomar a decisão da mudança assim: ''De uma vez para sempre./ Vou pôr minha vida à prova./ Tomando essa decisão./ Vou desfrutar vida nova.''
        O poema ''Magistério'', retrata sua vivência como educadora, é claro. No entanto, é na sutileza dos versos e na versatilidade do bom manuseio do lápis no poema ''Entre os Dedos'', que encerro esta justa homenagem:

                                 Deslizando no papel.
                                 Vai fazendo tantos traços.
                                 Sempre firme entre os dedos.                             
                                 Não rompe com eles os laços.

                                 Esses dedos que te guiam.
                                 Nessa aventura arredia.
                                 De traçar nesse papel.
                                 Uma simples poesia.

                                 Nem sei quem é o poeta.
                                 Se é você ou quem te guia.
                                 Sem os dedos, com certeza.
                                 Não sei escrever poesia.

                                  Você junto aos belos dedos.
                                  Fazem a união completa.
                                  Vocês traçam no papel.
                                  A inspiração do poeta.
                                                                                                                                                                                   
        Aqui poderá está nascendo essa poetisa que acho que deve sê-la. Se com o nome artístico ou com sua própria identidade, não importa. O que importa é a sua contribuição para a arte, para a cultura.
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