Borges: o "escritor intelectual"

     Jorge Luis Borges (1899-1986), escritor e poeta argentino, nasceu em Buenos Aires e morreu em Genebra, Suíça. Filho de família rica, desde de cedo estudava livros e mais livros na biblioteca de casa. Aprendeu inglês antes do espanhol. Aos 15 anos, mudou-se para Genebra, onde se bacharelou e aprendeu francês e alemão. Aos 20 anos fez uma viagem para Madri, Espanha, com a família, onde passou algum tempo. Aos 22 anos retornou à Argentina, onde iniciou a coletânea dos poemas para seu primeiro livro, o qual foi lançado quando ele tinha 24 anos, sob o título Fervor de Buenos Aires. Até completar 30 anos, lançou mais 2 livros de poesias. Depois vieram alguns ensaios, como Inquisiciones .
      A partir da década de 1930, inicia a segunda fase da sua carreira, com uma série de histórias  fantásticas, onde se mostrou insuperável em obras como Ficciones. "Os poemas e contos fantásticos de Borges, que expressam em primorosa forma literária os grandes temas universais, sobretudo a questão do tempo, asseguram a seu autor um lugar entre os grandes clássicos da literatura do século XX".
      Em 1955, aos 56 anos de idade, ano em que passa a fazer parte da Academia Argentina de Letras, teve sua visão acometida pela cegueira, doença, que a partir de então, o obrigou a ditar as suas futuras obras, como os contos de El libro de arena  (O livro de areia), inspirado na tradição escandinava, e de El hacedor (O fazedor). A partir de 1970, escreveu outras obras primorosas, quer como prosa quer como poéticas, como El informe de Brodie e La rosa profunda, respectivamente,
      Sua capacidade de transcender os gêneros literários era incrível. Seus Temas favoritos -- a realidade como labirinto, o tempo e o infinito, o jogo de espelhos -- converteram-se em patrimônio da literatura universal. O seu prestígio viria a ser decisivo para a aceitação mundial do "realismo mágico" hispano-americano. Com isso, de forma justa e merecida, vieram-lhe as premiações. Em 1961, o Prêmio Internacional de Editores; em 1970, o Prêmio Internacional de Literatura; em 1980, o Prêmio Miguel de Cervantes, o mais importante da Espanha.
       Em 1999, a Editora Globo publicou Obras completas de Jorge Luis Borges. São quase 30 livros, reunidos em 4 volumes: I (1923-1949); II ((1952-1972); III (1975-1985); e IV ( 1975-1988). Todos totalizam mais de 2.500 páginas. O volume I, por exemplo, traz o primeiro livro do escritor, aqui já citado, de 1923, Fervor de Buenos Aires, cujo oferecimento a Leonor Acevedo de Borges, ele inicia com estas palavras:
"Quero deixar escrito uma confissão, que a um tempo será íntima e geral,
 já que as coisas que ocorrem a um homem ocorrem a todos (...). Tua 
fresca ancianidade, teu amor a Dickens e a Eça de Queiroz, Mãe, tu mesma.
Aqui estamos falando os dois, et tout le reste est littérature, como escreveu,
com excelente literatura, Verlaine".
    Li, de acordo com as minhas possibilidades, quase todos os livros desse escritor, Cada um mais instigante que o outro. Em cada frase, uma meditação; em cada capítulo, uma extensão da "vida" da personagem central, na vida do leitor. Confesso que ia terminar esse humilde comentário com o poema Instantes, apesar de suas controvérsias autorais, mas diante de tanta beleza poética, mudei de ideia, findo com Evaristo Carriego (1930), digo, o livro que leva esse título, no qual o próprio Borges admite isto:
" Penso que o nome Evaristo Carriego pertencerá à eclesia visibilis de nossas
letras, cujas instituições piedosas -- cursos de oratória, antologias da 
literatura nacional -- contarão definitivamente com ele".
     Na tradução de Vera Mascarenhas, Jorge Schwartz, Maria Carolina de Araújo e Victória Rébori, o poema abaixo ilustrado é realmente fantástico:

                                  Has vuelto 
                      
                                  Voltaste, realejo. Na calçada
                                  há risos. Voltaste chorão e cansado 
                                  como antes.
                                                                O cego te espera 
                                  no mais das noites sentado
                                  à porta. Cala e escuta. Apagadas
                                  memórias de coisas distantes
                                  evoca em silêncio, de coisas
                                  de quando seus olhos tinham manhãs,
                                  de quando era jovem... a noiva... quem sabe!

     E o próprio poeta conclui: "O verso que amina a estrofe não é o final, é o anterior, ou seja, (de quando seus olhos tinham manhãs), e acredito que Evaristo Corriego o colocou assim para evitar ênfase". Lindo, lindo, lindo.
      Ironicamente, Borges viveu cego por 31 anos de sua vida. É a vida imitando a arte. A arte de Carriego. O que mais dizer. Aqui o meu silêncio. O silêncio poético que atinge a alma.

Referências.
1. Obras completas de Jorge Luis Borges, vol.1. SP, Globo, 1999, pp.7, 105 e 143.
2. Dicionário Biográfico Universal Três, vol.2. SP, Três, 1984, pp. 224/225.
3. Nova Enciclopédia Barsa, vol.3. SP, EBBP, 1999, P.54.

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