O Brasil da era Lava Jato

    Eu tinha um colega de faculdade, no início dos anos 1990, que vez ou outra fala em Italo calvino. A princípio, eu não valorizei muito o que ele dizia, pois achava tratar-se de um monge enclausurado num mosteiro, ou, até mesmo, ser um cardeal católico. Assim, terminamos nossos estudos e cada um seguiu sua vida, sua profissão.
    Porém, certo dia, já em meados de 2000, um ex-aluno meu enviou-me um texto intitulado: "A ovelha negra", de Italo Calvino, acompanhado de uma carta com algumas perguntas como: A narrativa retrata a realidade do lugar? O país sobre o qual o autor fala no texto, é o Brasil? É possível tantas pessoas desonestas assim, numa sociedade? Li, entendi, não respondi. Não conhecia o autor, logo não podia fazer juízo de valor. Fui pesquisar. Agora encontre algumas daquelas anotações.
    Italo Calvino (1923-1985), jornalista e escritor, teria nascido em Cuba (há queom diga que nasceu em San Remo, Itália) e falecido em Siena, Itália, quando faltava 1 mês para completar 52 anos. Ainda adolescente foi morar naquela Península. e antes de completar os estudos universitários em Literatura, foi lutar contra o fascismo de Mussolini, durante a Segunda Guerra Mundial. Dessa experiência, em 1947, ainda muito jovem, com menos de 25 anos de idade, publicou sua primeira obra, "O caminho para os ninhos de aranha" , a mais importante de sua carreira, e de tendência realista.
    Depois vieram outros livros como, por exemplo, a trilogia narrativa de inspiração filosófica "Nossos antepassados", composta pelos volumes: O visconde partido ao meio; O Barão rompante; e O Cavaleiro Inexistente entre 1952 a 1960, a qual lhe proporcionou fama mundial. No entanto, ele não parou por aí. Paralelamente as suas preocupações sociais refletiam-se em romances satíricos  sobre a realidade italiana, como a A especulação imobiliária (1957). E continuou alternando  diversas FACETAS em suas obras, como a denúncia de O dia de um mesário eleitoral (1952).
    Seja como jornalista, seja como escritor, seu trabalho de 30 anos pode ser resumido como: um misto de realismo, fantasia e reflexão social, o qual exerceu poderosa influência na cultura italiana do século XX, deixando, no todo, uma marca de profundo humanismo.
    Voltemos, portanto, ao texto que dei início ao presente comentário, agora abaixo ilustrado, encontrado em Um general na biblioteca. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

                                       A OVELHA NEGRA

    " Havia um país onde todos eram ladrões.
     À noite cada habitante saía, com a gazua e a lanterna, e ia arrombar a casa do vizinho. Voltava de madrugada, carregado e encontrava a sua casa roubada.
     E assim todos viviam em paz e sem prejuízo, pois um roubava o outro, e este, um terceiro, e assim por diante, até que se chegava ao último que rouba o primeiro. O comércio naquele país só era praticado como trapaça, tanto por quem vendia como por quem comprava. O governo era uma associação de delinquentes vivendo à custa dos súditos, e os súditos por sua vez só se preocupavam em fraudar o governo. Assim a vida prosseguia sem tropeços, e não havia  ricos nem pobres.
     Ora, não se sabe como. ocorre que no país apareceu um homem honesto. À noite, em vez de sair com o saco e a lanterna, ficava em casa fumando e lendo romances.
     Vinham os ladrões, viam a luz acessa e não subiam. 
     Essa situação durou algum tempo: depois foi preciso fazê-lo compreender que, se quisesse viver sem fazer nada, não era esse uma boa razão para não deixar os outros fazerem. Cada noite que ele passava em casa era uma família que não comia no dia seguinte. 
     Diante desses argumentos, o homem honesto não tinha o que objetar. Também começou a sair de noite para voltar de madrugada, mas não ia roubar. Era honesto, não havia nada a fazer. Andava até a ponte e ficava vendo a água passar embaixo. Voltava para casa e a
encontrava roubada.
      Em menos de uma semana o homem honesto ficou sem um tostão, sem o que comer, com a casa vazia. Mas até aí tudo bem, porque era culpa sua; O problema era que seu comportamento criava uma grande confusão. Ele deixava que lhe roubassem tudo e ao mesmo tempo, não roubava ninguém; Assim, sempre havia alguém que, voltando para casa de madrugada, achava a casa intacta: a casa que o homem honesto devia ter roubado. O fato é que, pouco depois, os que não eram roubados acabaram ficando mais ricos que os outros e passaram a não querer mais roubar. E, além disso, os que vinham para roubar a casa do homem honesto, sempre a encontravam vazia; Assim iam ficando pobres.
    Enquanto isso, os que tinham se tornado ricos pegaram o costume, eles também, de ir de noite até a ponte, para ver a água que passava embaixo. Isso aumentou a confusão, pois muitos outros ficaram ricos e muitos outros ficaram pobres.
    Ora, os ricos perceberam que, indo de noite até a ponte, mais tarde ficaram pobres. E pensaram: ''paguemos aos pobres para ir roubar para nós.'' Fizeram-se os contratos, estabeleceram-se os salários, as percentagens: naturalmente, continuavam a ser ladrões e procuravam enganar-se uns aos outros. Mas, como acontece, os ricos tornavam-se cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres.
    Havia ricos tão ricos que não precisavam mais roubar e que mandavam roubar para continuarem a ser ricos. Mas, se paravam de rouba, ficavam pobres porque os pobres os roubavam. Então pagaram aos mais pobres dos pobres para defenderem as suas coisas contra os outros pobres, e assim instituíram a polícia e constituíram as prisões,
    Dessa forma, já poucos anos depois do episódio do homem honesto, não se falava mais de roubar ou de ser roubado, mas só de ricos ou de pobres; e no entanto todos continuavam a ser pobres.
    Honesto só tinha havido aquele sujeito, e morrera logo, de fome".

    Assim, entendi que: aquele universitário andava lendo Calvino; o meu aluno estudou  Calvino; eu pesquisei Calvino e o Brasil precisa refletir sobre as palavras de Calvino. Por sinal, elas estão mais vivas do que antes. Principalmente num certo país da era Lava Jato.

Referências:
1. Português de olho no mundo do trabalho: vol.único/ Ernani Terra, José de Nicola - SP: Scipione, 2005, pp. 83 e 84.
2. Dicionário Biográfico Universal Três, vol.2, SP, 1984, P. 279.
3. Nova Barsa, vol.3. SP - 1999, pp. 321 e 322.
      

      
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