Vinicius vs Drummund

    Em 1981, a Editora Abril fez circular, em todo o Brasil, a coleção "LITERATURA COMENTADA", a qual reunia os principais nomes da prosa, poesia e música brasileiros e alguns portugueses, como: Chico Buarque, José de Alencar, Luís Vaz de Camões, Millôr Fernandes, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, etc. A pessoa interessada que adquirisse a coleção, composta por 23 ou 25 livros, ganhava um disco (LP, vinil) de brinde.
    Adquiri e não me arrependi. O disco é uma verdadeira obra de arte pelo conteúdo que apresenta, é óbvio: LADO 1, Vinicius de Moraes recitando, cantando ou conversando, 11 dos seus poemas com participações para lá de especiais de: Edu Lobo e Toquinho, no violão; Tom Jobim, no piano; e Jorginho, na flauta. Poemas como: Rosário, Soneto de Separação, Soneto do Amor Total, Balada da Moça do Miramar, Poema dos Olhos da Amada, entre outros. LADO 2, Carlos Drummond de Andrade, recitando 16 poemas, como: Infância, No Meio do Caminho, José, Procura da Poesia, Morte do Leiteiro, Caso do Vestido (um espetáculo à parte), Os Ombros Suportam o Mundo, entre outros,
     Ouvi-los, juntos num mesmo trabalho, é um caso raro na literatura brasileira. O Vinicius (1913-1980), era carioca e como ele mesmo se autodefiniu , "o preto mais branco do Brasil". O Drummond (1902-1987), era mineiro de Itabira, e se sentia "o mais carioca dos cariocas". Assim, a Abril Cultural, junto, sem dúvida, o útil ao agradável e lançou esse trabalho em caráter educacional. As gravações ficaram prontas poucos meses antes da morte do Poetinha, em julho de 1980. 
    Oportunamente, publico aqui e agora um poema de cada um deles, em homenagem aos meus seletos leitores, haja vista que os poetas nunca morrem. Rejuvenescem, mudam a página. Por isso, são "as antenas do mundo". Nós sim, precisamos ouvi-los para tentarmos nos manter quase rejuvenescidos, haja vista, sermos mortais. Confira, a seguir: Primeiro SONETO DE SEPARAÇÃO, de Vinicius e depois, OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO, de Drummond.


       SONETO DE SEPARAÇÃO 

     De repente do riso fez-se o pranto.
     Silencioso e branco como a bruma. 
     E das bocas unidas fez-se a espuma.
     E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

          De repente da calma fez-se o vento
          Que dos olhos desfez a última chama
          E da paixão fez-se o pressentimento
          E do momento imóvel fez-se o drama.

               De repente, não mais que de repente
               Fez-se de triste o que se fez amante
               E de sozinho o que se fez contente.

                     Fez-se do amigo próximo e distante
                     Fez-se da vida uma aventura errante.
                     De repente, não mais que de repente.  
 

         OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO
   
        Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
        Tempo de absoluta depuração.
        Tempo em que não se diz mais: meu amor.
        Porque o amor resultou inútil.
        E os olhos não choram.
        E as mãos tecem apenas o rude trabalho. 
        E o coração está seco.
              
        Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
        Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
        mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
        És toda certeza, já não sabes sofrer.
        E nada esperas de teus amigos.

        Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
        Teus ombros suportam o mundo
        e ele não pesa mais que a mão de uma criança,
        As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
        provam apenas que a vida prossegue
        e nem todos se libertaram ainda.
        Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
        prefeririam (os delicados) morrer.
        Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
        A vida apenas, sem mistificação.

    É isso aí, amigos. É a poesia viva batendo na nossa porta. É a vida seguindo o seu curso... Se você ficou interessado, procura esse LP na internet. Se não conseguir, entra em contato comigo (gomes3100@gmail.com).
 
       

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