Antenas da raça

    Em 2001, foi lançado o livro OS CEM MELHORES POEMAS BRASILEIROS DO SÉCULO, cujas organização, introdução e referências bibliográficas, foram feitas pelo professor, doutor em Letras, Ítalo Moriconi. A obra está dividida em quatro partes: Abaixo os puristas, Educação sentimental, O cânone brasileiro e Fragmentos de um discurso vertiginoso.
    Já na introdução, o autor questiona: "Quem não gosta de fazer listas de preferidos?"  Ele refere-se sobre o desafio em fazer "uma de textos do século 20", que tem por objetivo a poesia. Essa seleção resultou numa obra interessante e necessária àqueles que gostam da poesia.
    Cita, por exemplo, o grande poeta Mário de Andrade, o qual "chegou mesmo a dizer certa vez que a mais original contribuição artística do brasileiro estava na música popular. Todos sabem que a poesia de livro e a canção popular várias vezes se cruzam e continuam se cruzando em nossa cultura, produzindo resultados fantásticos".
    EM TEMPO: Foi exatamente isso que eu quis dizer, há duas semanas, quando publiquei o artigo O QUINZE, sobre esses "dois mundos", que se cruzam na carreira artística do cantor cearense Raimundo Fagner.
    O próprio Moriconi explica o tipo de critério utilizado para essa obra: "Parti para o trabalho buscando satisfazer em primeiro lugar o marciano que existe dentro de mim, o marciano ou marciana que existem dentro de todo leitor de poesia. Ler poesia é ato de inauguração pessoal, pisar novo chão, uma outra aterrissagem, possibilidade de transmigrar de planeta mental, emocional. Fenômeno que acontece mesmo quando estamos relendo pela enêsima vez um poema que já conhecemos até de cor.
    Ler novamente um poema que amamos é como lavar o rosto pela manhã".
    Confesso que adquiri o livro porque fiquei intrigado com o título. E incrédulo, indagava a mim mesmo: "Como escolher 100 poemas num lapso de tempo de 100 anos? Se foi exatamente no século XX que mais pipocou a poesia no Brasil, com centenas de novos poetas e como milhares de novos poemas publicados? Porém, a minha surpresa só aumentou quando me deparei com poemas de cinco versos como

                                                   FILOSOFIA ( 1939)
                                                   Ascenso        Ferreira  
                             (A José Pereira de Araújo - "Doutorzinho de Escada")


" Hora de comer - comer!
           Hora de dormir - dormir!
 Hora de vadiar - vadiar !

 Hora de trabalhar?
 - Pernas pro ar que ninguém é de ferro!"

ou mais surpreendentemente ainda, de apenas dois versos como


                                               POEMA DO BECO  (1936) 
                                               Manuel       Bandeira 


"Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?
- O que eu vejo é o beco!"


mas o livro contém também poemas longos como A MESA (1951), de Carlos Drummond de Andrade, com mais de 340 versos, ou ainda POEMA SUJO (trechos) (1976), de Ferreira Gullar, com mais de 600 versos. 
    No entanto, tudo foi cuidadosamente estudado, como o organizador diz: "Estabelecidos os parâmetros, o critério básico de escolha dos poemas foi seu caráter de essencialidade. Diante da quantidade avassaladora de poemas excelentes produzidos por um número sempre crescente de poetas, como fazer para restringir-me a cem? Digo sempre crescente,porque quando mais estendia a pesquisa, mas descobria, redescobria e sobretudo revalorizava poetas."       
    Assim, as minhas dúvidas foram. pouco a pouco, sendo sanadas. E por fim, totalmente superadas, quando o autor explica o seguinte: "Entende-se por essencialidade a capacidade de um poema ser exemplar dentro do seu  gênero específico. Existem poemas curtos e poemas longo, poemas-piadas e poemas filosóficos, poemas sentimentais e poemas cômicos, poemas descritivos e poemas metafóricos, poemas genericamente neutros (aqueles que poderiam ter sido escritos tanto por homem quanto por mulher) e poemas marcados pelo feminino (...). Existem poemas populares e poemas eruditos, poemas simples e poemas complexos. Diga-se de passagem que "popular" em poesia pode ter duas acepções: Pode referir-se ao poema efetivamente popular, ligado a uma cultura folclórica, como no caso do cordel,  e pode referir-se ao poema literário que se tornou conhecido e amado, como a "Canção do exílio" de Gonçalves Dias no século 19 e, no século 20,   para dar dois exemplos, o  "Soneto da felicidade", de Vinicius, "Tecendo a manhã", de João Cabral de Melo Neto". 
    Para mim, uma verdadeira aula.      
    Tem mais. Na contracapa, o mestre acrescenta: "Cem poemas essenciais, incontornáveis, inesquecíveis. Textos que marcaram gerações e nos ajudam a decifrar enigmas - os mais íntimos, pessoais e intransferíveis, e também os coletivos, aqueles que dizem respeito ao nosso jeito de ser e reagir, ao nosso sentido de brasilidade.
    Esta antologia reúne poemas rurais e urbano, eruditos e populares, românticos, ácidos, vibrantes, iconoclastas. São peças de grandes mestres da literatura brasileira, textos que se consagraram como faróis e guias da nossa educação sentimental."       
    Findo, portanto, reproduzindo  estas palavras do professor em questão, o qual diz  que parodiou a frase do célebre do poeta americano Ezra Pound:
                               "Mais do que nunca, 
                                o leitor e a leitora da poesia  são
                                antenas da raça". 


Referência                
 Moriconi, Ítalo (organizador).
  Os cem melhores poemas brasileiros do século, - Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
                                   
   
          
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