Há Sempre um Nome de Mulher

      O Título acima eu o emprestei do álbum duplo (dois discos de vinil; dois LPs), lançado em 1987, pelo Banco do Brasil, numa iniciativa de apoio ao Programa de Aleitamento Materno, coordenado pela  LBA/Pronave, ou seja, uma campanha do governo federal.
       Como aqui, quero fazer uma singela homenagem a todas as mulheres, achei oportuníssimo esse título. Mas, antes faço um pequeno resumo de como cheguei ao poema abaixo. Era início de março de 1992, eu era professor do primeiro grau do turno noturno de uma pequena (mas bem estruturada e organizada) escola estadual, daqui mesmo da periferia de Manaus-AM,
       Nessa escola quase todos os servidores lotados eram do sexo feminino: diretora, encarregada da cantina, encarregada da limpeza, professoras, secretária, com exceção dos vigilantes e alguns professores. Nós éramos uns 14, pelo menos 2/3  eram professoras. 
       Certa noite fui procurado pelo senhor Coordenador Educacional da Seduc, dessa e outras escolas adjacentes, cujo nome prefiro na citar, muito embora não há nada de errado neste relato, avisando que, quando da passagem do dia 8 de março, ele iria promover uma homenagem a todas as mulheres que ali trabalhavam. De mim, ele precisava de duas coisas: preparar uma pequena mensagem para ser lida ou declamada na solenidade e manter sigilo.
       Tudo fora combinado com os demais professores e vigilantes no mais absoluto segredo. Era a vontade do chefe sobre uma justa homenagem, por isso, ele queria surpreende-las. "Qualquer vacilo uma delas desconfia. São muito espertas", dizia o mestre.
        Muito bem. Chegado o dia,   tudo foi preparado no pequeno auditório da escola e a tática foi a seguinte:  o Coordenador reuniria os professores nos dois primeiros tempos de aulas. Depois viriam os demais servidores, ou seja, as mulheres. Assim foi feito. Surpresa geral. Estava tudo impecável. Salgados, presentes, o pastor, o pároco. Um documentário sobre as principais conquistas das mulheres mas últimas décadas (estou falando do vídeo-cassette, da fita VHS e da TV do "chuvisco"). O contentamento era geral. O Coordenador passou a palavra para a Diretora a qual lamentou que as mulheres não puderam "melhorar o visual", haja vista. terem sido surpreendidas.
      Foi então que fui chamado para leitura da encomendada mensagem. Veja abaixo.
       
                           DES(CULPA)  

                           Para o coração                  
                           de  quem  ama
                           - Pétalas.
                           Para o  ataúde 
                           de quem parte 
                           - Pétalas.
                           Para  a  carta 
                           de quem ilude 
                           - Pétalas.
                           Para  a  mão 
                           de  quem bate
                           - Pétalas.

                                                  Há uma pétala
                                                                que  sai
                                                      Há uma pétala
                                                                   que  vai
                                                          Há uma pétala
                                                                       que trai 
                                                              Há uma pétala
                                                                            que cai. 

       Aplausos.  Pedi, para em poucas palavras, explicar o porquê do texto, o qual pode ser interpretado em quatro momentos, nas duas estrofes: l. Quando nasce o amor, amizade, tudo é muito bonito, manda-se flores. 2. Quando se perde um ente querido, ou até um inimigo, no caso das máfias, manda-se flores. 3. Quando se ilude alguém, pede-se perdão, manda-se carta acompanhada de flores. 4. Quando bate numa mulher o agressor se diz arrependido, pede para voltar, para se reconciliar, manda flores. 5. Moral da história: Se se retirar o prefixo da DES(CULPA), o termo virá,  sempre, cercado de uma culpa. Porém, o seu grau de culpabilidade vai variar de acordo com a ação do seu infrator.
      Elas riam, apertavam as mãos, uma das outras. Aplaudiam-se. Entenderam a mensagem Eles, por sua vez, não. Não aceitavam a mensagem. Estampavam uma expressão sisuda. O Coordenador ficou logo de cara amarrada. 
       Agradeci e sai. O Professor-Coordenador veio até e disse: "Assim você acaba com a moral dos homens. Sou um cearense tradicional e conheço a mulher brasileira como ninguém. Eles gostam mesmo é de serem endeusadas. Portanto, o texto deveria ser cheio de encantamentos, não de críticas contras os homens". Encontrei essas anotações e o texto original e narro aqui o que ocorreu naquele 8 de março de 1992. E me pergunto: "A homenagem era realmente para valorizar a mulher ou banaliza-la? Será que a mulher gosta de ser 'endeusada' e sofrer todo tipo de violência, senhor Coordenador?  Mas não aceita mesmo. Espero que tenha o senhor mudado de ideia sobre elas. 
      "Eu que faço parta da rotina de" três delas, sei que elas querem mesmo é ser respeitadas em todos os aspectos. Assim, sou grato a D. Angelina Gomes, que este mês está completando 80 anos de vida.
E do meu coração, sai para todas as mulheres do mundo, que tenham paz, alívio, resignação e força nesse 8 de março de 2016 e nos que virão. Cada nome aqui escrito una-se a outros milhões  e mudem esse cenário horrendo de violência: Ângela, Angeline, Araci, Alzira, Beatriz, Bianca, Bia,  Brenda, Carla, Caroline, Conceição, Creuza, Deusdina, Diná, Diva, Dalva, Ester, Eduarda, Eugênia, Ediene, Fernanda, Flávia. Francielly, Filomena. Gláucia, Glenda, Glaura, Gabriella, Honorina, Hortência, Hyandria, Helena, Inácia, Idalina, Irenilce, Irlânia, Josiane, Jaqueline, Jamile, Jovelina, Kelly, Klínia, Kamilla, Klívia, Laura, Lietta, Larissa, Leidevene, Maria Celestina, Maria da Glória, Maria de Lourdes, Maria do Rosário, Maria da..., Maria de..., Maria do..., Maria, Maria, Maria, Núbia, Natália, Natércia, Nonata, Otacília, Otávia, Olinda, Ondina, Paula,  Pietra, Preta, Priscila, Quitéria, Quênia, Rayssa, Randda, Raimunda, Renata, Sílvia. Sabrina, Sabatha, Solange, Thalina, Ticiana, Tarbanni, Tuca, Urielle, Úrsula, Utianna, Uparcat, Verônica, Vángela, Valquíria, Valéria, Winnie,  Walmira, Wanda, Waldívia, Xerphan, Xauanna,  Xyrlian  Xenta,Yolanda, Yaismini, Yara, Ydayanna, Zafira, Zenttani, Zara, Zezé .
       Que sejam todas felizes e bem amadas.
    
        
    
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