O Quinze

    Ele chama-se Raimundo Fagner Cândido Lopes, nasceu em Orós, Ceará, em 19550. Cantor e compositor, é conhecido pelo público brasileiro como Raimundo Fagner ou simplesmente Fagner. Em 1971, ainda muito jovem, lançou o seu nome como intérprete de Mucuripi, dele e Belchior, e desde então é um dos nomes mais importantes da música brasileira. Seu trabalho combina a tradicional música nordestina com outros ritmos brasileiros, e de outros países latino-americanos.
     Sua obra sempre esteve repleta de canções feitas em parcerias com outros compositores, como também já fez dueto com muitos artistas nacionais como Roberto Carlos, Luiz Gonzaga, Roberta Miranda, Chico Buarque, Zeca Baleiro, etc, e internacionais como Joan Manuel Serrat, Mercedes Sosa, Manzanita, Cameron de La Isla, Pablo Milanés, etc.
     Quem acompanha o trabalho artístico de Fagner e curte as suas músicas - independente de ser músico ou crítico de música -, sabe que desde o início de sua carreira, ele insere nos seus discos, poemas (musicados por ele ou não), de autores que nem sempre estão vinculados diretamente ao universo musical. Foi assim com as poetisas carioca Cecília Meireles e a portuguesa Florbela Espanca, o poeta paulista Mário de Andrade e vários outros.
       Exemplifico aqui alguns deles:

     1. O Quinze, título do seu disco (LP), de 1989, em que faz homenagem a escritora cearense Rachel de Queiroz, sua conterrânea, cuja obra mais importante da carreira dela foi O Quinze.

       2. A Doce Canção de Caetana, da escritora  Nélida Pinõn, em versos ela diz:
                        "Canta que canta a vida
                          Luta  a  morte  vivida".

       3. Semente,  de Mário de Andrade, no qual ele registrou:
                         "Os teus olhos distribuem
                           O que não existe nos meus
                           As luzes que os meus possuem
                           São as migalhas dos teus".

      4. Fanatismo, da poetisa  (ou da poeta, como manada a norma oficial) portuguesa Florbela Espanca (1898-1935), num poema que reúne palavras tão singelas, mas quando entrelaçadas em versos, fazem brilhar nossos olhos e encantar nossas almas. Co esta estrofe:
                         "Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida
                           Meus olhos andam cegos de te ver  
                            Não és sequer a razão do meu viver,
                            Pois que tu és já toda a minha vida!"

       5. Vaca Estrela Boi Fubá, do mestre da sabedoria popular Patativa do Assaré, o qual dispensa comentários, principalmente qual rima:
                           "Seu dotô me da licença
                             Pra minha história contá
                             Hoje eu tô na terra estranha
                             E é bem triste o meu pená".

        6. La Leyenda del Tiempo,  de Garcia Lorca, no qual o genial poeta espanhol sentencia:
                            "Y si el sueño finge muros
                              En la ilanura del tiempo
                              El tiempo la hace creer
                              Que nace em aqual momento...
                         
                              El sueño va sobre el tiempo..."

                                         OU SEJA,

                             "Se o sonho finge muros
                               Sobre a planura do tempo 
                               O tempo é quem faz crer
                               Que nasce naquele momento...
           
                               El sueño va sobre el tiempo..."

      7. Canteiros, da poetisa Cecília Meireles, que foi musicado por Fagner, e desde a década de 1970 até hoje, segundo o próprio artista, e a música mais pedida nos shows. Sinta a beleza destes versos:
                             "Quando penso em você
                               Fecho os olhos de saudade
                               Tenho tido muita coisa
                                Menos a felicidade" 
                   
       8. Contigo; Rainha da Vida; Borbulhas de Amor (versão), do poeta maranhense Ferreira Gullar, são poemas que musicados por Fagner tornaram-se um primor litomusical. Porém, quero reportar-me, principalmente sobre o poema  TRADUZIR-SE (também de Ferreira Gullar), gravado por Fagner no disco "RAIMUNDO" ou TRADUCIR SE (em espanhol), de 1979, cujo texto na íntegra é este:
      
                                 TRADUZIR-SE
     
       "Uma parte de mim é todo mundo
                  Outra parte é ninguém, fundo sem fundo
         Uma parte de mim é multidçao
                  Outra parte estranheza e solidão
         Uma parte de mim pensa, pondera
                  Outra parte delira
         Uma parte de mim almoça e janta
                  Outra parte se espanta
         Uma parte de mim é permanente
                  Outra parte se sabe de repente
         Uma parte de mim é só vertigem
                  Outra parte linguagem
           
                                TRADUZIR UMA  PARTE  NA  OUTRA PARTE
                                 QUE É UMA QUESTÃO DE VIDA OU MORTE
                                                        Será Arte?
 
       É isso aí meus amigos leitores que me prestigiam lendo estes registros. Imaginem que, enquanto concluía esta pesquisa, ouvi estas e outras canções deste artista tão original. Faça como pede Gullar: TRADUZA-SE. Traduza-se no negócios, nas atitudes, na maneira de agir. Traduza-se nos sentimentos, no lidar com as outras pessoas. Traduza-se no amor, na vida. Se tudo está certinho, parabéns! 
       Amanhã, dia 13, faça alguma coisa em prol da solidez da d e m o c r a c i a brasileira, a qual está carente de boas ações.      
     
      
Referências
Foram analisados vários discos (LPs), datados entre 79 e 89, lançados pela CBS e RCA, de Raimundo Fagner.
 
              

               
             
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