Cenas do Cotidiano

    A palavra, a escrita e o ato de escrever estão sempre juntos. Porém, quero falar de escrever, propriamente dito. Segundo o poeta chileno Pablo Neruda (1904-1973), "Escrever é fácil: você começa com uma letra Maiúscula e termina com um ponto final". Já o poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) disse que "Lutar com palavras é a luta mais vã/ Entanto lutamos mal rompe a manhã".
     Para a  jornalista Eunice Menegassi, de Cruz Alta, Rio Grande do Sul, in Escrever Entrelinhas (introdução), "As pessoas sempre marcaram sua presença no planeta através de sinais. Antes da escrita, elas registraram suas emoções através de desenhos que até hoje ornamentam cavernas, muralhas por onde passaram. Escreveu-se em pedras, pergaminhos, cera".
    "Escrever é uma forma de registrar ideias, de influenciar outros e, assim, oferecer mudanças. Victor Hugo já dizia: "Não são as máquinas que arrastam o mundo, mas as ideias"'.
    É sobre a forma de escrever, ou melhor, "de registrar ideias", que quero abordar hoje. Cada autor tem a sua forma, obviamente.  Há obras de conteúdos complexos que são geniais. Exemplificando, temos: Ulisses, de James Joyce; Dom Quixote, de Miguel de Cervantes; Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa; Os Sertões, de Euclides da Cunha.. Há obras de conteúdos simples, que são super geniais, como: Vidas Secas, de Graciliano Ramos; Canaã, de Graça Aranha; Lolita, de Vladimir Nabokov, entre outras, que as li.  
    Estou fazendo estas observações, para justificar que realmente, "As palavras guardam o segredo do seu significado", do mestre Miguel Reale (1910-2006). Praticamente todos os seres humanos são movidos por palavras. O que varia é a maneira como elas são ditas por cada pessoa, em cada momento, em cada lugar. Mesmo nesta era do acelerado avanço dos meios de comunicação, da tecnologia. Era essa que quase não se fala mais em papel, mas em tela. Em WhatsApp, em vez de carta. Em digitar, no lugar de escrever. No lugar de envelopar, veio deletar. Dizia-se: quero ver... Agora, diz-se: Quero visualizar, e por aí vai.     
    Leiamos a seguir, a fantástica crônica do notável pastor da Assembleia de Deus, João Almeida de Souza Filho, que reuniu palavras simples, porém, precisas para ilustrar uma cena do cotidianos, a qual estava guardada em meu arquivo desde da sua publicação (vide referências).

                                             DE MANSINHO...

"Ela chegou de mansinho...
  Não pediu licença.
  Há algum tempo vinha avisando, mas não disse a hora e o dia.
  Todo mundo previa. Alguns telefonavam para ver
  quando chegaria. 
  Mas ninguém sabia. A qualquer hora, diziam os sábios.
  Assim, ninguém podia fazer planos para sair de casa, 
  já que a visitante poderia chegar... e a turma não está preparada.  
  Não seria muito bem recebida por alguns, mas sua presença
  seria inevitável.
  Se chegasse, teria que ser recebida, acolhida, acomodada e todos 
  os vizinhos saberiam de sua presença.
  Não avisou. Nosso sabiá cantou tristes canções, mas não disse nada.
  O cardeal na gaiola continuava sua rotina, mas também
  não disse nada.
  Por fim chegou!
  Ninguém a percebeu se início, já que era noite.
  Ela chegou e se instalou.
  Foi na noite de sexta para sábado que ouvimos sua batida
  em nossa casa.
  Até os vizinhos a ouviram.
  Ninguém, contudo, abriu-lhe a porta. E ela, insistentemente 
  começou a bater, até que de tristeza começou a chorar.
  Pela manhã todo mundo a viu. Pobres e ricos, pretos e brancos.
  Vimos suas lágrimas. Ela as havia derramado sobre as árvores
  e juntas choravam. Ela de tristeza... as árvores de alegria.
  Trouxe alegria para uns e nostalgia aos poetas.
   E todos... ficaram o fim de semana em casa.
  Em nossa casa ela assentou-se conosco junto ao fogão à lenha
  tão quentinho e ficou tomando café com bolinho que a vovó fez
  fez com tanta alegria.
  Depois esteve em nossa reunião de oração, e minha filha
  estava insistente e impaciente com a sua presença.
  Ela passou muito tempo nas bibliotecas das ricas casas e foi
  também aceita nas salas humildes.
  Enfim, todos se acostumaram com sua presença e
  tiveram que aceitá-la.
  Riam todos. Alguns reclamaram, e ela muito polidamente,
  segunda-feira pela manhã, alçou sua voz melancólica e .
  foi para o norte.
  Foi levar calor e amor para outras famílias de nosso Brasil. 
  A chuva".

    Que legal! Aqui em Manaus. capital do Amazonas, ela está nos visitando diariamente. Sem marcar a hora de chegar e muito menos, de voltar para o Atlântico. 
    Assim, termino citando novamente Eunice Menegassi: "Nem sempre se diz tudo, mas escreve-se para dizer muito mais. Escrever é uma forma de dizer
                                                                                                                         te amo,
                                                                                                               te odeio,
                                                                                         estou magoada, 
                                                                         estou triste,
                                                           estou feliz,       
                            deploro tuas atitudes,
                 concordo,
 discordo de ti".
    
    "Quanta gente deixou de cometer um crime depois que registrou sua dor, sua raiva. O papel (a tela) tem a magia de aceitar sem reclamar, sem recriminar, sem julgar" 
    "Quanta gente juntou palavras como meio de juntar suas almas".





Referências
1. Revista JOVEM Cristão, ano I, n. Zero, out/dez/1978, CPAD, p. 28
2. Coletânea Entrelinhas, apresentação de Eunice M. Brum Menegassi, Alcance, 2002, p. 11.



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