EU TAMBÉM VOU RECLAMAR

     O título acima, eu emprestei do genial cantor e compositor baiano Raul Seixas (1945 - 1989), uma das faixas do LP Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás, lançado em 1976, com essa canção já questionava alguns paradoxos sociais, existentes no Brasil e no resto do mundo. O poema, em si, tem uma estrutura de linguagem simples, corriqueira, mas a mensagem central leva qualquer pessoa sensata refletir sobre esse ou aquele assunto - no caso em questão,  a educação - e perceber que "alguma coisa está fora da ordem".
     Neste contexto, extrai duas estrofes nas quais o poeta diz o seguinte:
    
      Olho os livros
            Na minha estante
                  Que nada dizem
                         De importante
                               Servem só prá quem
                                     Não   sabem   ler 
               
                                     (...)

      E todo mundo explica tudo
           Como a luz acende
                   Como o avião pode voar
                           Ao meu lado um dicionário
                                 Cheio de palavras 
                                        Que eu sei que nunca vou usar

      É  assim que pensa a grande maioria dos nossos governantes: para que serve a educação de qualidade? Para que investir no estudo da ciência? Por que ganhar um Nobel?, etc. A verdade é esta. Sobre esse tema eu já havia reunido um bom material para publicá-lo em alguns artigos sobre o nível da educação brasileira, e, em especial a educação praticada no Estado do Amazonas, em relação ao que vi, senti e vivi (e vivo) na sala de aula como professor do ensino médio das redes particular e pública, há 28 anos.
      Porém, na semana passada, chegou ao meu conhecimento, por meio do professor de artes visuais,  Félix Aranha Jaqtinon, da rede estadual de ensino, lotado na Zona Leste de Manaus,  o conteúdo da carta-resposta  enviada à redação da revista Veja, pela professora Vanessa Storrer, da rede municipal de Curitiba (PR), na qual ela manifesta a sua indignação sobre o teor da reportagem "Aula Cronometrada", veiculada naquela revista. A íntegra da missiva é a seguinte:

      "Sou professora do Estado do Paraná e fiquei indignada com a reportagem da jornalista Roberta de Abreu Lima na revista Veja, "aula Cronometrada".
      É com grande pesar que vejo quão distante estão seus argumentos sobre as causas do mau desempenho escolar com as VERDADEIRAS razões que geram este panorama desalentador.
      Não não há necessidade de cronômetros, nem de especialistas para diagnosticar as falhas da educação. Há necessidade que todos  pensam que: "os professores é que são incapazes de atrair a atenção de alunos repletos de estímulos e inseridos na era digital". Entrem numa sala de aula e observem a realidade brasileira.
     Que alunos são esses "repletos de estímulos" que muitas vezes não têm o que comer em suas casas, quanto mais inseridos na era digital? Em que pais de famílias oriundas da pobreza trabalham tanto que não têm como acompanhar os filhos em suas atividades escolares, e pior, em orientá-los para  a vida?
      Isso sem falar nas famílias impregnadas pelas drogas e destruídas pela ignorância e violência, causas essas que infelizmente são trazidas para dentro da maioria das escolas brasileiras. Está na hora dos professores se rebelarem contra acusações que lhes são impostas. Problemas da sociedade deverão ser resolvidos pela sociedade e não somente pela escola.
     Não gosto de comparar épocas, mas quando penso na minha infância, onde pai e mãe, tios e avós estavam presentes e onde era inadmissível faltar com respeito aos mais velhos, quanto mais aos professores, e não cumprir as obrigações fossem escolares ou simplesmente caseiras. Faço comparação com os alunos de hoje "repletos de estímulos". Estímulos de quê? De passar o dia na rua, não fazer as tarefas, ficar em frente ao computador, alguns até altas horas da noite (quando o têm), brincando no Facebook, ou, o que é ainda pior, envolvidos nas drogas. Sem disciplina seguem perdidos na vida. 
      Realmente, nada está bom. Porque o que essas crianças e jovens procuram é amor, atenção, orientação e disciplina. 
      Rememorando, o que tínhamos nós, os mais velhos, há uns anos atrás de estímulos? Simplesmente: responsabilidade, esperança, alegria. Esperança que se estudássemos teríamos uma profissão, seríamos realizados na vida. Hoje os jovens constatam que se venderem drogas vão ganhar mais. Para quê o estudo?
      Por que numa época com tantos estímulos não vemos os olhos brilhantes nos jovens? Quem, dos mais velhos, não lembra a emoção de somente brincar com os amigos, de ir aos piqueniques, subir em árvores? E, nas aulas, respeito, amor pela Pátria. Cantávamos o Hino Nacional diariamente. Tínhamos aulas "chatas" só na lousa e sabíamos ler, escrever e fazer contas com fluência. Se não soubéssemos não iríamos para a Série. Precisávamos passar pelo terrível, mas eficiente, exame de admissão. E tínhamos motivação para isso.
       Hoje, professores "incapazes" dão aula na lousa, levam filmes, trabalham com tecnologia, trazem livros de literatura juvenil para leitura em sala de aula  (o que às vezes resulta em uma revolução), levam alunos à biblioteca e a outros locais educativos (benta, Deus, só os mais corajosos)  e, algumas escolas públicas onde a renda dos pais comporta, até a "passeios interessantes", planejados minuciosamente, como ir ao Beto Carreiro.  E, mesmo assim, a indisciplina está presente, nada está bom.
        Além disso, esses mesmos professores "incapazes", elaboram atividades escolares como provas, planejamentos, correções nos fins de semana, tudo sem remuneração. Todos os profissionais têm direito a um intervalo que não é cronometrado quando estão cansados. Professores têm 10 minutos de intervalo, quando têm de escolher entre ir ao banheiro de tomar, as pressas, o cafezinho.
       Todos os profissionais têm direito ao vale alimentação, professor tem que se sujeitar a um lanchinho, pago do próprio bolso, mesmo que trabalhe 40 h semanais.
       E a saúde? É a única profissão que conheço que embora apresente atestado médico tem de repor as aulas. Plano de saúde? Muito precário. Há de se pensar, então, que são bem remunerados... Mera ilusão!
       Por isso, cada vez vemos menos profissionais nessa área, só permanecem os que realmente gostam de ensinar, os que estão perplexos com as mudanças havidas no ensino nos últimos tempos e os que aguardam uma chance de "cair fora". Todos devem vocação para Madre Teresa de Calcutá, porque por mais que se esforcem  em ministra boas aulas, ainda ouvem alunos chamá-los de "vaca", "puta", "gordos", "velhos", entre outras coisas.  
       Como isso é motivamento... e temos ainda que ter forças para motivar. Temos notícias, dia a dia, até de agressões a professores por alunos. Futuramente esses mesmos alunos, talvez agridam seus país e familiares.
        Lembro de um artigo lido, na revista Veja, de Cláudio de Moura Castro, que dizia que um país sucumbe quando o grau de incivilidade de seus cidadãos ultrapassa um certo limite. E acho que esse grau já ultrapassou. Chega de passar alunos que não merecem. 
        Assim, nunca não saber  porque devem estudar e comportar-se na sala de aula; se passam sem estudar mesmo, diante de tantas chances, e com indisciplina... E isso é um crime!
         Vão passando série após série, e não sabem escrever nem fazer contas simples. Depois a sociedade os exclui, porque não passa a mão na cabeça. Ela é cruel e eles já são adultos.
          Por que os alunos do Japão estudam? Por que há cronômetros? Os professores são mais capacitados? Talvez, mas o mais importante é porque há disciplina. E é isso que precisamos e não de cronômetros. Lembrando: o professor estadual só percorre sua íngreme carreira mediante cursos, capacitação que são realizadas, preferencialmente aos sábados. 
         Portanto, a grande maioria dos professores está constantemente estudando e aprimorando-se. Em vez de cronômetros, precisamos de carteiras escolares, livros, materiais, quadras esportivas cobertas (um luxo para a grande maioria de nossas escolas), e de lousas, sim,  em melhores condições e em maior quantidade...    
         Existem muitos colégios nesse Brasil afora que nem cadeiras possuem para os alunos se sentarem. E é essa a nossa realidade! E, precisamos, também urgentemente de educação para que tudo que for fornecido ao aluno não seja destruído por ele mesmo. 
        Em plena era digital, os professores ainda são obrigados a preencher os tais livros de chamadas, à mão: sem erros, nem borrões (ô coisa arcaica!), e ainda assim se ouve falar em cronômetros. Francamente!!!
       Passou da hora de todos abrirem os olhos e fazerem algo para evitar uma calamidade no país, futuramente. Os professores não são culpados de uma sociedade incivilizada e de banditismo, e finalmente, se os professores até agora não responderam a todos as acusações de serem despreparados e "incapazes" de prender a atenção do aluno com aulas motivadoras é porque não tiveram TEMPO.
       Responder a essa reportagem custou-me metade do meu domingo, e duas provas sem as mesmas corrigidas.
       Vamos começar uma corrente nacional que pelo menos dê aos professores respaldo legal quando um aluno o xinga, o agride...chega de ECA que não resolve nada, chega de Conselho Tutelar que só vai a favor da criança e adolescente (capazes, às vezes, de matar, roubar e coisas piores), chega de salário baixo, todas as profissões e pessoas passam por professores, deveria ser a carreira mais bem paga do país, afinal os deputados que ganham 67% de aumento tiveram professores, até mesmo os "alfabetizados funcionais".
        Pelo amor de Deus somos uma classe com força!!! Somos politizados, somos cultos, não precisamos fechar escolas, fazer greves, vamos apresentar m projeto de Lei que nos ampare e valorize a profissão. 
        Vamos fazer uma corrente via INTERNET, repasse a todos os seus! Grata.
         No Japão, o único profissional que não precisa fazer reverência ao imperador é o professor. Segundo os japoneses numa terra que não há professores, não pode haver imperadores.
        Tente mover o mundo - o primeiro passo será mover a si mesmo (Platão)" . 
      
         Estas são as palavras da professora Vanessa Storrer. São as nossas palavras. De norte a Sul. São fortes. São sinceras. São reais. Ontem mesmo os professores do Paraná fizeram um movimento reivindicatório junto ao governo daquele Estado. Há alguns meses o mesmo ocorreu no Rio de Janeiro, em Pernambuco, no Amazonas, e por aí vai.
        As mazelas no setor educacional que grassam em todo Brasil, não residem apenas nos gabinetes dos que governam, mas também nas famílias de muitos estudantes. São famílias sem princípios básicos necessários em qualquer lugar do planeta. Um mínimo de religiosidade, de disciplina, de ética, de moral, de esforço, de orientação. Eu pago para ver os alunos rigorosamente levarem os livros para a sala de aula. Muitos alunos inventam vários subterfúgios para não estudarem. Vive-se uma época em que o governo distribui livros (os mesmos autores, as mesmas editoras da rede Particular), mas a maioria dos que se travestem de estudantes, prefere mochilas de marcas, tênis de marcas, celulares modernos e uma cabeça vazia de conhecimentos. 
       Em 1984 ou 85, via um cartaz (desses que embrulham pacotes de revistas, jornais) na parede de uma Banca de revistas, no centro de Manaus, e nele a seguinte frase: "A EDUCAÇÃO É A ÚNICA FORMA QUE PERMITE AO INDIVÍDUO CRESCER EM TODOS OS ASPECTOS". Não vi o nome do autor. Contestar o quê? Acrescentar o quê? Ou nos uniremos em torno desse causa e salvarmos o que ainda resta, ou A PÁTRIA EDUCADORA sucumbirá. A proposta da professora aqui copiada é exatamente salvarmos o processo educativo brasileiro, senão, num futuro próximo, a maioria irá achar que os livros, que os dicionários e, principalmente seus autores, para nada servirão.  
       Amanhã, 1 de maio é louvado como o Dia Trabalhador. Que cada trabalhador, em qualquer lugar do mundo seja, no mínimo respeitado. Principalmente aquele que milita com o conhecimento, em qualquer que seja o nível, O PROFESSOR. Amanhã também a mestra Winnie G. da Silva e doutoranda da UFPE faz aniversário. Que seja uma grande professora. Que tenha convicções claras e firme sobre a educação. Isso não quer dizer ser revolucionário, ser radical. Quer dizer sim: motivar nos seus acadêmicos a certeza de que o conhecimento humano pode mais do que todas as convenções sociais, políticas, econômicas ou territoriais até  aqui firmadas mundo afora, com intenções que não são compatíveis com os reais progressos da humanidade. 

Referências 
Revista Veja, edição 2170, ano 43, número 25, 23 de junho de 2010, página 122;
LP Eu Nasci a Dez Mil Atrás, 1976, Raul Seixas.


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