Três canções enigmáticas - Parte II


   Você sabe quem foi Paulo Emílio Vanzolini? Foi ele mesmo, ou seja, o notável médico-zoólogo e compositor paulista, nascido em 1924 e falecido em 2013, três dias após completar 89 anos de vida. Considerado um dos grandes expoentes do samba paulista, ao lado de Adoniran Barbosa.
    Apesar de ser autor de mais de 70 composições, entre elas clássicos como Ronda, Praça Clóvis, Volta Por Cima, Samba Erudito, Samba Abstrato, Boca da Noite, Mente e outros, ele preferia ser reconhecido pelo seu trabalho como Zoólogo.
    Ainda na adolescência, começou a frequentar as rodas de boêmios (ou rodas de malandragem, como eram chamados à época os "homens da noite"). Porém, jamais deixou a boemia afastá-lo de outra grande paixão, os estudos. Já interessado por Zoologia de vertebrados, aos 18 anos entrou para a Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, onde se diplomou em 1947, aos 23 anos.
    A dedicação pelos estudos era marca registrada em sua vida. Filho de Engenheiro, morou 4 anos no Rio de Janeiro, depois retornou para São Paulo. Cursou o primário no Instituto Rio Branco e o ginásio numa escola pública estadual. Procurou fazer tudo que um jovem responsável deve fazer para cumprir com as suas obrigações. Entre 1944/945, aos 20 anos foi servir o Exército, na cavalaria do Quartel de Ibirapuera. E, quando de lá saiu, foi ser professor no Colégio Bandeirantes.
    Sua juventude também foi marcada por cirurgias para tratar de um problema ósseo, que deixaram cicatrizes numa perna. Incomodado com a fama de menino doente que tinha na família, ele decidiu ganhar a vida com o próprio sustento, saiu da dos pais e foi morar no Edifício Martinelli, no centro de São Paulo. A mudança o aproximou ainda mais da boemia, já que no prédio havia um "táxi-dancing". Ele e os  amigo, porém, frequentavam o lugar de graça devido à amizade com os músicos e com as dançarinas.
    Em meados dos anos 40, seu primo Henrique Lobo, foi ser locutor da Rádio América e o convidou para trabalhar no programa Consultório Sentimental, apresentado pela atriz Cacilda Becker, de quem tornou-se amigo. No programa, falando como "Doutor Edson Gama" Vanzolini dava receitas de emagrecimento.
    Ainda não havia terminado o curso de Medicina, deixou de ser professor no Bandeirantes, e ingressou como pesquisador no Museu de Zoologia, da USP, onde viria a exercer o cargo de diretor daquela instituição mais ou menos 20 anos depois.
    Após o casamento com Ilze, com quem teve 5 filhos, então secretária da Reitoria da USP, foram para os EUA, onde ele se tornou Doutor em Zoologia pela Universidade de Harvard. O período em que lá esteve não dedicou-se apenas à vida acadêmica. Ele conviveu com músicos de jazz em Nova Orleans - além disso, suas principais letras teriam sido compostas nessa época.
    De volta ao Brasil, o Doutor Vanzolini foi trabalhar como diretor do Museu de Zoologia da USP, que conhecia bem, onde outrora foi pesquisador. E, ao todo lá ficou por mais de 50 anos. Sua produção científica é bastante conhecida (e reconhecida) nos meios acadêmicos. Entre 1963 e l993, tornou-se um dos cientistas, nesse ramo, mais respeitados pela comunidade científica internacional. Como pesquisador, ele escreveu mais de 150 artigos científicos.
    Apesar de aposentado compulsoriamente, continuou a desenvolver suas pesquisas naquele Museu, trabalhando de segunda-feira à sábado (em média de 15 horas por dia), onde organizou uma das maiores coleções de répteis do mundo, Como médico, formulou a teoria sobre a influência do clima na formação de ecossistemas isolados da Amazônia.
    Sempre reuniu livros na área que atuava e ciências afins. Em 2008, doou ao Museu o acervo de sua biblioteca particular de 25 mil obras, na qual constava, inclusive, livros raros, periódicos e mapas. Segundo o governo de São Paulo, esse conjunto foi avaliado em 600 mil reais, Porém, de valor inestimável, cientificamente falando.
    Vanzolini nunca estudo música e nem pensou em abandonar a Biologia para ser compositor profissional. As músicas eram um hobby para ele: As composições eram feitas nas horas vagas ou para matar as saudades. Ele mesmo confirmou essa verdade, em entrevista à Folha, em 1997, como lidava com a musica: "Não tenho carreira de compositor. Música, para mim, é um hobby. Trabalho 15 horas por dia como Zoólogo, adoro minha profissão. Não sei cantar, nem a diferença entre tom maior e menor" . Em 2002, ele confirmou a mesma afirmativa em entrevista à revista "Scientific American  Brazil": "É a única coisa de que eu gosto, a única coisa que sei fazer (...). Um dia eu nasci e já era Zoólogo". Mas é inegável sua importância para a musica brasileira e, principalmente, para o samba paulista.
    '' Compositor bissexto, de músicas que chegavam a demorar um ano para ficar prontas, Vanzolini não tocava nenhum instrumento (para escrever as canções, entoava-as a amigos músicos) e tinha, assumidamente, um ''grande problema com afinação'' (como disse em entrevista ao ''Jornal do Brasil'', em 1970), mas se firmou como um grande compositor de samba''.
      A sua primeira composição, Ronda, é de 1951, quando o autor então era um jovem de 27 anos. Nesse mesmo ano, publicou o livro de poemas "Lira". No entanto, a canção só foi gravada em 1953, pela cantora Inizete Barroso. Depois vieram outros grandes intérpretes. Outro clássico de sua autoria é Volta Por Cima, de 1957, Mas só ficou conhecida em todo Brasil, em 1963, na voz do cantor Noite Ilustrada. Também foi um sucesso na interpretação ímpar de Jair Rodrigues.
     Desde o final dos anos 90, não compunha mais. Sua última composição foi Quando Eu For Eu Vou Sem Pena, gravada por Chico Buarque em 1997. Isso não quer dizer que o compositor havia perdido a paixão pela música e pelos versos das canções.
    Em 2009, o cineasta Ricardo Dias, lançou o documentário Um Homem de Moral , que permite conhecer o universo musical de Vanzolini. O filme mostra também a vida profissional dele como Zoólogo. Pelo reconhecimento de sua valiosa produção científica, em 2012, ganhou 300 mil reais da Fundação Conrado Wessel.
    É questão de mérito. Não é comum a ciência e a arte se juntarem para completar a sabedoria de uma mesma pessoa, Com Vanzolini essa simbiose aconteceu. Digo, a Medicina e a Música tornaram-no um reconhecido pesquisador e admirado compositor. Vejamos que beleza, só para citar duas facetas: l. Em Nova York, foi premiado pela famosa Fundação Guggenheim, pelo conjunto de sua obra científica. 2, Em São Paulo, recebeu o Prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) pelo conjunto de sua obra musical .
     Uma das canções mais emblemáticas do cancioneiro brasileiro é de autoria desse mestre do samba. E isso fica mais caracterizado ainda quando o próprio autor, em tom de modéstia, a considerava um fracasso ''porque ninguém entendeu que o importante não é dar a volta por cima, é reconhecer a queda''. Leia, a seguir, a íntegra da letra dessa canção. Todos os cantores que a interpretaram,  fizeram com maestria :
 VOLTA POR CIMA
Chorei, não procurei esconder
Todos viram, fingiram
Pena de mim, não precisava
Ali onde eu chorei
Qualquer um chorava
Dar a volta por cima que eu dei
Quero ver quem dava
Um homem de moral não fica no chão
Nem quer que mulher
Venha lhe dar a mão
Reconhecer a queda e não desanima
Levanta, sacode a poeira
E dá a volta por cima
    Resta provando que Vanzolini era um estudante brilhante. O resultado fê-lo um pesquisador respeitado por seus pares. Apaixonado por música desde os 4 anos de idade quando ouvia canções  pelo rádio do pai engenheiro. Além do mais, dominava bem o idioma português. É só observar a estrutura gramatical de suas composições.
    Se não estou enganado, as pessoas que dominam bem mais de um ramo do conhecimento humano, são estudadas pela  Psicologia, como detentoras  de autos habilidades/superdotação, ou ainda de  inteligências múltiplas. Li em algum lugar, que o físico alemão Albert Einstein, se enquadrada nessa tese, pois além de ser um dos maiores físicos/matemáticos do mundo, era fascinado por música clássica e tocava violino muito bem. 
    Que sirva  então, para todos nós, o exemplo da genialidade de Paulo Emílio Vanzolini.
Referências
1. Veja. Abril. Com/notícias.
2. Dicionário MPB.com.br.
3. Nova Enciclopédia Barsa, micropédia, vol II, 1999, p.486.
4. Folha de São Paulo, ilustrado, 29/04/13;
5. Letras.com.br (letra envidada por anônimo em 12/05/08.
                                         
Tecnologia do Blogger.