Três canções enigmáticas - parte III

    No dia 08.08.2015, quando a minha filha resolveu adequar este espaço, para nele, serem registradas algumas curiosidades musicais, biografias, criações artística e literária, de escritores. atores, cantores, compositores, etc, nasceu a ideia do primeiro homenageado ser o cantor e compositor Geraldo Vandré, que no mês seguinte - 12 de setembro - completaria 80 anos de vida. 
    Agora, quase um ano depois, o nome dele ganha um novo espaço aqui, um novo artigo, com novas considerações. é claro. Não para repetir fatos ligados diretamente à sua arte ou à sua vida particular. Mas, para ilustrar a belíssima canção Disparada, de autoria dele e de Theo de Barros.
    Vandré é um daqueles artistas que toda sociedade que reconhece (não quer dizer aceitar) o talento deles, tem o seu. Assim como Bob Dylan, nos EUA; Mercedes Sosa, na Argentina; Edith Piaf, na França; Bob Marley, na Jamaica; Pablo Milanês, em Cuba e muitos outros. Portanto, Vandré é necessário. Assim como foi e será à nossa música.
    O jornalista Mylton Severiano da Silva (Myltainho), ao reportar-se sobre Vandré, disse: 'Fica  mal com Deus quem não sabe amar; somos todos iguais e quem sabe faz a hora, não espera acontecer, e acredita nas flores vencendo o canhão'. A forma lírica como Vandré comunica a vida e denuncia a insensatez do militarismo o torna - ao lado de outros amordaçados, perseguidos. renegados, imolados como John Lennon, Joan Baez, Violeta Parra, Victor Jarra, Mercedes Sosa - fonte permanente onde bebemos fé na criatura humana".
    Desde muito cedo queria ser artista, mas sua mãe, dizia não. "Você ser um advogado". Assim o fez. Foi estudar Direito. Li há algum tempo, não lembro a fonte, que após se bacharelar, teria dito a mãe: "aqui está o meu diploma para ser posto sobre a geladeira. Devolva, portanto, p meu violão".
    E com a posse do seu instrumento, tornou-se um mito da nossa música - muito embora esse rótulo de mito o incomode muito. Até hoje. Porém, veio aquela noite história de 29.09.1968, quando da realização do Festival Internacional da Canção (FIC), promovido pela Rede Globo, que segundo Vitor Nuzzi, "Foi um Festival com Tom Jobim vaiado e uma música que irritou os quartéis. E ficou para sempre no imaginário nacional". Ele está se referindo "a mais cantada música da noite": Pra não Dizer Que não Falei de Flores (Caminhando), cujos versos dizem Quem sabe faz a hora/Não espera acontecer, desclassifica por Sabiá, de Tom Jobim e Chico Buarque. Daí, as vaias sobre Tom.
     Vandré já era um conhecido participante dos Festivais. Por exemplo, em 1966, a Rede Record realizou o II Festival de Música Popular Brasileira. Nele, Disparada  foi um sucesso na voz de Jair Rodrigues, acompanhado do Trio Maraiá e do Trio Novo. A canção pertence ao rol das raras belezas do nosso cancioneiro. E também é uma das mais enigmáticas das enigmáticas. Se é linda na voz de Jair Rodrigues, é belíssima na voz Adulto Santos. Leia a íntegra desse poema.

                 DISPARADA 

PREPARE O SEU CORAÇÃO/PRAS COISAS QUE EU VOU CONTAR
EU VENHO LÁ DO SERTÃO/EU VENHO LÁ DO SERTÃO
EU VENHO LÁ DO SERTÃO/E POSSO NÃO LHE AGRADAR
    APRENDI A DIZER NÃO/VER A MORTE SEM CHORAR
     E A MORTE, O DESTINO, TUDO/A MORTE, O DESTINO, TUDO
     ESTAVA FORA DE LUGAR/EU VIVO PRA CONSERTAR

NA BOIADA JÁ FUI BOI,/MAS UM DIA ME MONTEI
NÃO POR UM MOTIVO MEU/OU DE QUEM COMIGO HOUVESSE
QUE QUALQUER QUERER TIVESSE/PORÉM POR NECESSIDADE
DO DONO DE UMA BOIADA/CUJO VAQUEIRO MORREU

    BOIADEIRO MUITO TEMPO/LAÇO FIRME, BRAÇO FORTE
    MUITO GADO, MUITA GENTE/PELA VIDA SEGUREI 
    SEGUIA COMO NUM SONHO/E BOIADEIRO ERA UM REI

MAS O MUNDO FOI RODANDO/NAS PATAS DO MEU CAVALO
NOS SONHOS QUE FUI SONHANDO/AS VISÕES SE CLAREANDO
AS VISÕES SE CLAREANDO/ATÉ QUE UM DIA ACORDEI

    ENTÃO NÃO PUDE SEGUIR/VALENTE LUGAR-TENENTE
    DE DONO, DE GADO E GENTE/PORQUE GADO A GENTE MATA
    TANGE, FERRA, ENGORDA E MATA/MAS COM GENTE É DIFERENTE

SE VOCÊ N~SO CONCORDAR/NÃO POSSO ME DESCULPAR
NÃO CANTO PRA ENGANAR/VOU PEGAR MINHA VIOLA
VOU DEIXAR VOCÊ DE LADO/VOU CANTAR NOUTRO LUGAR

     NA BOIADA JÁ FUI BOI/BOIADEIRO JÁ FOI REI
     NÃO POR MIM NEM POR NINGUÉM/QUE JUNTO COMIGO HOUVESSE
     QUE QUISESSES, QUE PUDESSE/POR QUALQUER COISA DE SEU
     POR QUALQUER COISA DE SEU/QUERER IR MAIS LONGE QUE EU

MAS O MUNDO FOI RODANDO/NAS PATAS DO MEU CAVALO
E JÁ QUE UM DIA MONTEI/AGORA SOU CAVALEIRO
LAÇO FIRME, BRAÇO FORTE/DO REINO QUE NÃO TEM REI

     O recado foi dado. Hoje, 50 anos depois daquele Festival de Música, este poema de 9 estrofes, sendo 7 de seis versos cada  e 2 de oito versos cada, 
permanece atual, vivo, real. Mesmo que "um enorme abismo separe o Geraldo Vandré atual da figura combativa dos festivais dos anos 60. O compositor é hoje um homem atormentado pelo mito que se criou em torno dele, lutando pelo direito ao esquecimento. Alguém que sofre por sentir que a batalha travada já está perdida: pois, apesar de se recusar a gravar e a lançar novas músicas, Vandré não consegue para de compor. Pequenos tesouros particulares, compartilhados com poucos amigos. E, por mais que se esforce, sabe que não poderá apagar da memória coletiva a força e o lirismo das antigas canções que criou ( Fica Mal com Deus, Caminhando, Ventania, Canção Nordestina, Quem Quiser Encontrar o Amor, Canção da Despedida - a única em parceria com Geraldo Azevedo, etc, etc, etc), Nem a censura, nem a vontade de Vandré, agora, podem calar a beleza de sua poesia, o canto ainda presente nas vozes anônimas do povo".
     Nos dois últimos versos da quinta estrofe, os autores de Disparada grafam:
                        
                             "As visões se clareando/Até que um dia acordei".

     E nós, acordamos? O Brasil de hoje, no contexto econômico, religioso, político partidário, ético, moral, honestidade, intelectual, cultural, político-social e outros setores, mudou? Ou apenas "A lição  sabemos de cor/Só nos resta aprender", nas palavras dos cantores  e compositores Ronaldo Bastos e  Beto Guedes, in Sol de Primavera?



    Referências
    1. Coleção MPB Compositores, vol. 31, Ed. Globo, p. 1997
    2. Geraldo Vandré, CD MPB Compositores, n. 31, faixa 11, p. 1997
    3. Redebrasilatual. com. br
    4. Revista do Brasil, n. 88, outubro/2013
    5. Museudacancao. blogspot. com. br
    6. Leonardo canta grandes sucessos, vol. 2, faixa 12, Sony/BMG 
   

   

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