Três canções enigmáticas

   Foi a partir do início da década de 1980, com a música Êxtase, de 1979, que passei a acompanhar (e gostar) muito do repertório do cantor Guilherme Arantes. Daí em diante procurei e  adquiri praticamente tudo que por ele era lançado. A princípio, em LP (vinil), depois em CD.
   Nascido em São Paulo, no dia 28 de junho de l953, Guilherme Arantes Lima, é um cantor e compositor muito conhecido em todo o Brasil, com 40 anos de carreira voltados para a música. Nesse ínterim já foi tachado, ora de romântico, ora de pop, ora de brega. Mas, ele sempre foi avesso a todos os rótulos, haja vista nunca ter ficado preso a nenhum movimento estético.
   Seu pai era médico, mas gostava muito de música e de instrumentos musicais. Ainda na juventude fora excelente violonista. Por isso, manteve viva sua paixão por essa arte. Ainda criança, Guilherme, aprendeu com o pai a tocar violão, cavaquinho e bandolim. Aos 8 anos, passou a estudar piano, com professores particulares. O resultado não foi satisfatório. "Era um estudo sem objetivo", garante o artista. Nenhum dos professores percebia a modernidade de estar trabalhando com um compositor nato.
   Era uma criança habilidosa com a música. Mas seus professores queriam reprimir o que ele tivesse de talento para tal. Desestimulado, abandonou as aulas de música e tornou-se, a partir daí, autodidata. E passou, portanto, a receber várias influências musicais como da Bossa Nova à Jovem Guarda; do Samba-Canção ao Baião; do Rock ao Tropicalismo; de Ray Charles à Elton John e outras vertentes.
   Em 1972, entrava para o curso de arquitetura da Universidade de São Paulo. Porém, a sua vocação para a música falava mais alto dentro de si. Dois anos depois montou o conjunto de rock progressivo Moto Perpétuo, influenciado pelo rock pesado de Pink Floyd e Janis Joplin. A banda não durou um ano. Mas o tempo foi o suficiente para o jovem Guilherme decidir a  viver apenas de música. Ele não só contava com a contrariedade dos pois. Pois não percebera, até então, é que a música, para sua família, era estimulada como passatempo, nunca como profissão. Porém, seguiu em frente.
   Sem formação musical e acadêmica, resolveu buscar inspiração em Tom Jobim, Taiguara e Ivan Lins, uma vez que precisava aperfeiçoar-se e muito para ser um ótimo músico, compositor e cantor. Depois dos 35 anos de idade, passou a ler poesias, principalmente de grandes nomes da literatura francesa como Rimbaud, Verlaine, Mallarmé, Baudelaire, uma vez que achava-se "mais musical do que literário".
   O esforço foi árduo. No entanto, rendeu-lhe bons brutos. Por exemplo, em 1976 sua música Meu Mundo e Nada Mais, foi parar na trilha sonora da novela Anjo Mau, da TV Globo. O sucesso foi estrondoso. Depois veio Baile de Máscaras, na trilha de outra novela global, Espelho Mágico. Sucesso maior ainda.  E assim seu nome foi se firmando entre os grandes artistas. Em 1980, a Elis Regina gravou Aprendendo a Jogar. Em 1981, no festival MPB Shell, foi a vez de Planeta Água, com Lucinha Lins, ambas de Arantes. Na mesma época ela lançava Deixa Chover, hit da novela Baila Comigo.
   Só  uma observação: Guilherme Arantes e Djavan, são os cantores que mais emplacaram sucessos nas trilhas sonoras das telenovelas brasileiras, entre outros. 
   O tempo foi passando e com ele foram surgindo vários intérpretes para as canções desse artista como Roberto Carlos, Jessé, Luiz Ayrão, Leila Pinheiro, Caetano Veloso, Baby Consuelo, MPB-4, Fafá de Belém, Emílio Santiago, entre outros. Com eles e com o próprio autor foram surgindo os grandes sucessos como Cuide-se Bem, Pedacinhos, Êxtase, Amanhã, Coisas do Brasil, Aconteceu Você, Meu Mundo e Nada Mais, Cheia de Charme, Fã Número Um, Xixi nas Estrelas, etc.
   O Nando Reis (ex-Titãs) assegura que Lindo Balão Azul, é uma das melhores músicas de Guilherme Arantes. E acrescenta: "Fazer música é um dom difícil e raro. Embora pareça simples, ser simples é quase sempre mais complicado. Como achar a palavra exata, a melodia mais certa para dizer o que o óbvio com frequência nos esconde? Como conseguir com aquela palavra, já usada infinitas vezes, novamente se carregue de sentido inédito e único para fazer sentido a quem  a ouve? A música popular brasileira é um pomar cheio das mais variadas árvores. A música de Guilherme Arantes produz uma de suas frutas mais doces. É um enorme prazer ser contemporâneo desse extraordinário compositor que, em muitos momentos, encheu minha vida de alegria".
   No ano passado, quando dava uma entrevista para o apresentador da Rádio Senado, Alcebíades Muniz Neto, no Programa Escala Brasileira, Guilherme Arantes fez uma resumo de toda sua vida musical, desde o anonimato até ser conhecido do grande público brasileiro. Nesse contexto, declarou que a canção Amanhã, do início de sua carreira é enigmática, mas não entrou no mérito da questão do porquê da composição. 
    Confira comigo, a letra na íntegra. Por favor ouça este lindo poema.

                                          AMANHà (1977)

Amanhã será um lindo dia da mais louca alegria
Que se possa imaginar
Amanhã, redobrada força pra cima que não cessa
Há de vingar
    
Amanhã, mais nenhum mistério, acima do ilusório,
O astro-rei vai brilhar
Amanhã a luminosidade, alheia a qualquer vontade,
Há de imperar, há de imperar

Amanhã, está toda a esperança, por menor que pareça,
Existe e é pra vicejar
Amanhã, apesar de hoje, será a estrada que surge
Pra se trilhar

Amanhã, mesmo que uns não queiram
Será de outros que esperam 
Ver o dia raiar
Amanhã, ódios aplacados,
Temores abrandados, será pleno   

   Meu  nobre leitor, minha nobre leitora, tire as suas próprias conclusões. A esperança tem muitos motivos para ser alimentada e, até alcançada. Hoje, quase 40 anos depois da divulgação desta bela canção, precisamos mais do que nunca de um amanhã pleno.   

Referências 
1. Encarte da coleção MPB Compositores, Editora Globo/RGE Discos, 1997, nº 38.
2. CD nº 38, coleção do mesmo nome/letras.
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