O uso do palavrão no cotidiano brasileiro

    Mário Souto Maior (1920-2001), foi um escritor, folclorista e pesquisador pernambucano. Por exemplo, é dele a pesquisa que resultou na publicação da obra Dicionário do Palavrão e Termos Afins. O único do gênero da língua portuguesa. 
     O autor percorreu várias regiões do país, onde distribuiu 8 mil formulários "para ajudar o brasileiro a entender a origem dos vocabulários impróprios. A consulta foi feita com pessoas de diferentes níveis intelectuais, das mais variadas idades e condições econômicas". 
     O estudo durou 5 anos, e identificou mais de 3 mil verbetes, considerados como chulos. Foram entrevistadas várias fontes e lidos mais de 200 romances para que o livro fosse finalizado.
     O trabalho foi concluído em 1974, mas por imposição do governo militar, somente foi liberado em 1979, e o compêndio lançado nos anos 1980, quando a primeira edição esgotou rapidamente. O prefácio, de maio de 79, é do escritor Gilberto Freyre (1900-1987), cuja síntese das 4 páginas é: "O autor do Dicionário evita a pornografia pela pornografia, embora não pretenda estrangular o que é erótico na língua portuguesa do Brasil". 
     "O romancista baiano Jorge Amado (212-2001) é um dos mais usavam palavrão em sua vasta obra literária". A Livraria da Folha selecionou alguns palavrões dos romances de Amado: Dar a maricotinha; Zebedeu (em Tocaia Grande); Fechar a cancela (em Capitães de Areia); Levanta cacete (em Teresa Batista Cansada de Guerra); Papar (em Os Velhos Marinheiros). Porém, subtrai os significados por considerá-los inoportunos. No entanto, ele nao é o único. José Lins do Rego (1901-1957), Gilberto Freyre (1900-1987) e Oswald de Andrade (1890-1954), também figuram entre os "bocas-sujas" da literatura brasileira. 
     À época, a pesquisa revelou que muitos brasileiros achavam que Amado usava o palavrão no momento certo, sem abusar. "Merda", por exemplo, o palavrão mais utilizado pelos franceses, também o era aqui, por considerável parcela da sociedade brasileira.
      Inclusive Amado disse isto sobre o estudo de Souto Maior: "Obra de maior utilidade e de maior necessidade, para falar do Dicionário do palavrão e termos afins o lugar-comum se impõe: veio preencher a clássica lacuna. Lugar-comum, sem dúvida, mas verdade patente. E você a realizou com prazer, logo a gente se dá conta, pois ela exibe a marca do trabalho feito com entusiasmo e paixão. Suas páginas nada possuem da solenidade dos dicionários habituais. Sendo obra séria, resultante de pesquisa e estudo dignos de todos os louvores, é, ao mesmo tempo, de leitura fácil e agradável. O assunto é tratado com dignidade e com graça. Sou velho admirador de seu trabalho, velho leitor de seus livros! Você é um desses trabalhadores intelectuais que realmente contribuem para nossa cultura. O Dicionário do palavrão e termos afins coloca-se entre as pesquisas mais sérias realizadas, não só por você mas por todos os estudiosos  da linguagem do povo brasileiro. Como ele, você dá uma dimensão maior a sua obra já tão importante".
     Outro que se manifestou publicamente favorável ao livro, foi o poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), conforme publicação do "Jornal do Brasil, de 20.03.1980. É dele a seguinte citação: "... um dos mais qualificados estudiosos da cultura nacional em seu aspecto de criação popular, de riquíssima significação". 
      Outra opinião vem de Fernando Lyra, de 2010, então presidente da Fundação Joaquim Nabuco, quando da apresentação da oitava edição do Dicionário, o qual disse que o pesquisador "extraiu essências, sentiu cheiros e gostos, colecionou jeitos e falas, reuniu versos e glosas, cantorias e orações", entre "as mais variadas expressões culturais do nosso povo".  
    Na introdução da obra, de agosto de 1979, o autor detalha, amiúde, os tópicos que achou necessários que justificavam, ao seu ver, a edição (e publicação) da obra. Como: 1. Obras anteriores - O mundo inteiro diz palavrão: homens, mulheres, velhos, moços, crianças, ricos, pobres, em russo, em chinês, em croata, em todos os idiomas. 2. Arte e Palavrão - Uns são contra o palavrão, admitindo o seu uso por outros somente em determinadas ocasiões. 3. Os Gramáticos - Problema sociolinguístico, o palavrão nunca teve seu uso tão generalizado quanto hoje. Os gramáticos fazem as leis que governam as palavras. A verdade é que o povo quase nunca respeita os gramáticos. 4. Palavrão, Lei e Censura - O palavrão - comenta ainda o juiz Eliézer Rosa - "Pode ser enquadrado no Código Penal e na Lei das Contravenções Penais. O  palavrão escrito pode ser considerado crime; o dito na rua pode ser considerado contravenção. Tudo depende das circunstâncias de cada hipótese". 5. Este Dicionário -" desde 1968 comecei a tomar notas (...), material destinado a um trabalho que comecei a chamar de Vocabulário popular do sexo, até que o escritor Gilberto Freyre sugeriu que o trabalho adquirisse, sob o critério científico, o caráter de um dicionário (...), semelhante ao que foi publicado na Alemanha".
     Não sou defensor do uso de termos chulos, nem por mim nem por ninguém. Assim como o autor também não o era. Ele apenas pesquisou e constatou que "o povo é quem faz a língua que fala, quem lhe dá o colorido, o pitoresco da gíria e do palavrão".
     No entanto, o Dicionário é útil e necessário, como bem o disse Jorge Amado. A edição ora analisada contém 215 páginas, cujo conteúdo segue em ordem alfabética de A a Z. O primeiro verbete é Abacate e o último é Zunga. Abacate. "Fruto do abacateiro, tido como afrodisíaco, e, por isso, vocábulo bastante usado como gracejo ou pilhéria: "Você precisa é de abacate..."; "Comendo abacate, hein?" O vocábulo tem origem no asteca Ahuacate, testículo, naturalmente pela semelhança do formato, registra Raimundo Girão". Zunga. "Mulher decaída, meretriz" (sul de São Paulo).
     Os termos afins elencados no Dicionário, são aqueles que diretamente ou não têm conotação de palavrão. Mas quanto a grafia não remete ao leitor um sentido diretamente pejorativo, mas velado. Vejam-se alguns exemplos: Amélia chegou. Diz-se quando a mulher fica menstruada (Nordeste). Atracar de popa. O ato de praticar a pederastia passiva (Norte, Amazonas). Bacurota. Amante, rapariga, espingarda (Nordeste). Boi vivo." Guisado de testículos de boi" (Sul). Cadete. "Penico" (Portugal). Cachorro. "Órgão sexual feminino". "Também de memória guardo uma passagem de cançonete muito cantada na década de 20. Esta, ao contrário, incorria nas sanções policiais. Por trás das palavras aparentemente inocentes, escondiam-se segundas intenções maliciosas, e até obscenas. Refiro-me ao jogo do bicho ou bicharada. Ei-la:
                      
                                           A minha sogra 
                                           Que não tem dinheiro
                                           Já tem perdido
                                           Muito cobre meu
                                           Joga na cobra 
                                           Tira na borboleta
                                           É no cachorro
                                           Que ela faz o seu 

Dar o doce. "Casar" (Nordeste, Maranhão). Encher. "Engravidar" (Norte, Acre). Enxuta. "Mulher sensual; garota linda". Ferro frio. Diz-se do homem incapaz de gerar filho. O mesmo que gala-rala (Nordeste). Gimbrar. "Viver à custa da amante" (Portugal). Hamba. "Órgão sexual feminino; do guarani." Içá. Diz-se da mulher que tem as nádegas volumosas (Sul, São Paulo). Içá, no Nordeste é Tanajura, é  daí a expressão bunda de tanajura. Juntar-se ou juntar os trapos. "Amigar-se" (Nordeste, Sul). Leitoa. "Donzela, púbere (Sul). Moquifo. Bordel de negras (Sul. São Paulo). Nomoro roxo. "Namoro quente, com quase todas as liberalidades." (Nordeste). Ornato. "Seios de mulher" (Portugal). Panzina. Gravidez (Nordeste). Quiosque. "Nádegas, ânus, traseiro" (Sul).  Rafiar. "Cornear". (Norte, Pará). Safrejar. Dar à luz; ter filho; parir; descansar (Nordeste). Ter táxi na praça. Diz-se do homem que vive a expensas de mulheres: gigolô. Expressão corrente em Portugal e no Sul do país, onde se concentra a colônia lusa. Urso. O amante, o paquera (Pernambuco). Varunga. "Marido trouxa que é dominado  pela mulher" (Portugal). Xumbregar. "Bolinar", procurar contato voluptuoso, azoinar, importunar (Nordeste). Xodó.  a) "Namoro"; b) amigação; abancebação (Norte, Nordeste).
     Seguindo a mesma ordem alfabética, extrai alguns vocábulos, por mim, até aqui, desconhecidos, conforme acima listados. Porém, sem seus significados. Não é por questão de puritanismo ou tabu. Mas por respeito ao meu leitor. Uma coisa é a publicação da editora em livro, outra é escrever um pequeno artigo e conceituar as palavras abaixo, que têm sentido desagradável para quem não as pronuncia.
      A saber: Mulher BBC (p, 36). Beija-flor (homem) (p.37). Canguinha (p. 61). Japonesa (p. 115). Pedrês ( 154). Pinga-pus (160). Quebrar um bucho (p.171). Quo-vadis (173). Sifu (p. 188). Testa-larga (193). Tocar clarinete (p. 201). Vadiar (203). Xinim (210). Zebedeu (p.211). 
      A obra não deixa de ser interessante por ter esse perfil singular. Assim,  como a leitura dela por pessoas sérias será considerada uma afronta aos bons costumes e à linguagem culta. É só conferi-la. 



     Referências:
     1. Maior, Mário Souto. Dicionário do palavrão e termos afins. Belo Horizonte. Ed. Leitura, 2010.
     2. www1. Folha. UOL. com. br.
     3. Livraria da Folha, 06.-8.2010.

           
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