Vinicius: Um Signo, Uma Mulher

    Você sabe quem foi Marcus Vinicius da Cruz de Mello Moraes? Foi ele mesmo, Vinicius de Moraes (1913-1980), poeta, compositor, cantor, escritor, diplomata, etc. Carioca, filho do funcionário público e poeta Clodoaldo Pereira da Silva Moraes e da pianista Lídia Cruz.
    Quem estudou pouca literatura brasileira, pode pensar que Vinicius foi apenas o compositor, o cantor, o músico. Ledo engano. Ele foi, acima de tudo, "um dos mais brilhantes poetas do modernismo ortodoxo". Escreveu crônicas para vários jornais, além de publicar quase duas dezenas de livros de poemas, peças teatrais - algumas premiadas - e crônicas. Eu sua obra ele acentuou as deficiências como as virtudes de sua escola literária.
    A partir dos 7 anos de idade, começou a demonstrar tendência para literatura, quando já escrevia algumas quadras poéticas. Durante a adolescência, leu toda a literatura infantil e juvenil que pôde encontrar e, mais tarde, travou contato com a obra de Guilherme de Almeida, Menotti Del Picchia e Júlio Dantas. Quando concluía os estudos ginasiais, foi incentivado pela família e amigos, a escrever versos. Tendo-os reunidos em um caderno, os quais foram mostrados ao poeta e amigo João Lira Filho, que recomendou abandonasse a literatura. 
    Aos 17 anos ingresso no curso de Direto. Em 1933, com idade entre 20 e 21 anos, colou grau. Nesse mesmo ano publicou seu primeiro livro, O Caminho para a Distância. Em 1938, segue para a Inglaterra, onde estuda a língua e a literatura inglesas, no Magdalen College, em Oxford.
    Depois desse aprendizado, diga-se de passagem, tornou-se "um dos grandes representantes do lirismo amoroso dos tempos atuais, Vinicius conseguiu, como poucos, exprimir como realismo característico a relação de amor entre o homem e a mulher. Após a primeira fase, mais mística e de individualismo nostálgico, assumiu por completo o papel de poeta do amor, da matéria, do mundo e da mulher, em versos altamente musicais. Especialmente apreciados, os sonetos de Vinicius surpreenderam pela capacidade de atualizar a lírica de Camões. O "Soneto da Felicidade", de Poemas, sonetos e baladas, figura entre os melhores momentos do autor nessa forma. A preocupação política e social se revela em poemas como "Operário em Construção", de Novos Poemas II".
     A genialidade poética de Vinicius, era tamanha, que em que 1977, ele lançou na Argentina, o livro Um Signo, Uma Mulher, ou seja, para cada um dos 12 signos zodíacos, foi concebido um poema dedicado a uma mulher. O conjunto poético é simplesmente fantástico! Tanto pelo conteúdo como, como pela criação. É como se cada poema, fosse de autoria de um poeta distinto. Isso remete ao leitor lembrar da façanha de outro poeta: Fernando Pessoa, como a criação dos heterônimos. A seguir, leia, na íntegra cada um dos 12 poemas:

     ÁRIES. Branca, preta ou amarela/A ariana zela./Tem caráter dominador/Mas pode ser convencida/E aí, então, fica uma flor:/Cordata... e nada convencida./Porque o seu dominador/É o amor./Eu cá por mim não tenho nenhum/Preconceito racial:/Mas sou ariano!

     TOURO. O que é que brilha sem/Ser ouro? - A mulher de Touro!/É a companheira perfeita/Quando levanta ou quando deita./Mas é mulher exclusivista/Se não tem tudo, faz a pista./Depois, que dona-de-casa.../E a noite ainda manda brasa./Sua virtude: a paciência/Seu dia bom: a sexta-feira/Sua cor propícia: o verde/As flores dos seus pendores:/Rosa, flor de macieira.

    GÊMEOS. A mulher de Gêmeos/Não sabe o que quer/Mas tirante isso/É boa mulher./A mulher de Gêmeos/Não sabe o que diz/Mas tirante isso/Faz o homem feliz./A mulher de Gêmeos/Não sabe o que faz/Mas por isso mesmo/É boa demais...

     CÂNCER. Você nunca avance/Em mulher de Câncer./Seu planeta é a Lua/E a Lua, é sabido/Só vive na sua./É muito apegada/E quando pegada/Pega da pesada./É mulher que ama/Com muito saber/No tocante a cama/Não sei lhe dizer...

    LEÃO. A mulher de Leão/Brilha na Escuridão./A mulher de Leão, mesmo sem fome/Pega, mata e come./À mulher de Leão não tem perdão./As mulheres de Leão/Leoas são./Poeta, operário, capitão/Cuidado com a mulher de Leão!/São ciumentas e antagônicas/Solares e dominicais/ígneas, áureas, e sardônicas/E muito, muito liberais. 

    VIRGEM. Se Florence Nightingale era Virgem/ Não sei... mas o mal é de origem./A mulher de Virgem aceita a amante/Isto é: desde que não se suplante./Sexo de consumo, pães-de-minuto/Nada disso lhe há de faltar/O condomínio é absoluto/A virgem é mulher do lar./Opala, safira, turquesa/São suas pedras astrais/Na cuca, muita esperteza/Na existência, muita paz.

     LIBRA. A mulher de Libra,/Não tem muita fibra/Mas vibra./Quer ver uma libriana contente?/Dê-lhe um presente./Quando o marido a trai/A mulher de Libra/balança mas não cai./Se você a paparica/Ela fica./Com librium ou sem librium/Salve, venesina/Que guarda o equilíbrio/Na corda mais fina. 
    ESCORPIÃO. Mulher de Escorpião/Comigo não!/É a Abelha Mestra/É a Viúva Negra/Só vai de vedete/Nunca de extra./Cria o chamado conflito/de personalidades./É mãe tirana/Mulher tirana/Irmã tirana/Filha Tirana/Neta tirana./Tirana tirana./Agora, de cama diz - /que é boa paca.

    SAGITÁRIO. As mulheres sagitarianas/São abnegadas e bacanas./Mas não lhe venha com grossuras/Nem injustiças ou censuras/Porque ela custa mas se esquenta/Pode ser muito violenta./Ai, o homem que se cuide.../- Também, quem gosta de censura!

    CAPRICÓRNIO. A capricorniana é capricornial/Como a cabra de João Cabral./Eu amo a mulher de Capricórnio/Porque ela nunca lhe põe os próprios./A caprina é tão ciumenta/Que até os ciúmes ela inventa,/Mulher fiel está aí: é cabra/Só que com muito abracadabra./Suas flores: a papoula, e o cânhamo/De onde vêm o ópio e a maconha/ Ela é uma curtição medonha/Por isso nos capricorniamos.

     AQUÁRIO. Se o que se quer é a boa esposa/A aquariana pousa./Se o que se quer é uma outra coisa/A aquariana ousa./Se o que se quer é muito amor/A aquariana/É mulher macho sim senhor./Porém não são possessivas/Nem procuram dominar/Ou são meigas e passivas/Ou botam pra quebrar.

     PEIXES. Mulher de Peixe...peixe é/Em águas paradas não dá pé/Porque desliza como a enguia/Sempre que entra numa fria./Na superfície é sinhazinha/E festiva como a sardinha/Mas quando fisga um namorado/Ele está frito, escabechado./É uma mulher tão envolvente/Que na questão do Paraíso/Há quem suspeite seriamente/Que ela era a mulher e a serpente.  

      Todo isso, significa ser "essencialmente poeta, na busca incessante do amor, tanto na vida quanto na arte". É o que pensa o escritor e artista plástico, João Carlos Pecci, sobre o Poetinha.
      Tem mais: "Uma de suas primeiras aventuras foi saltar de uma ponte, mergulhando no mar e enfrentando profundezas desconhecidas, quando ainda era criança. O tempo da infância passou e novos dias trouxeram mergulhos mais profundos, mais intensos. Quando Vinicius se tornou poeta, quando Vinicius se tornou artista, ele passou a se atirar em pântanos, águas mais densas, fronteiras desconhecidas. Aventuras novas, que requeriam do poeta mais e mais audácia, mais e mais arrebatamento. Quem ouve a música de Vinicius se deixa molhar pelos respingos dessas águas, desses brejos, e acaba seduzido pela paixão e pela vontade de respirar mais fundo, de encontrar horizontes escondidos dentro de si mesmo. O sorriso do poeta, a boina do poeta, a música do poeta eram apenas  passagem para um homem complexo, para um universo lírico, para uma história contada em diversos capítulos, em verso e em canção".
     Assim era o Vinicius. O "poeta e diplomata, o branco mais preto do Brasil". O poeta sorri. Sua alma representa parcela do infinito. E o infinito é algo que ninguém sonda e ninguém compreende. Por isso, a vida do poeta tem um ritmo diferente. E foi num ritmo diferente que bateu pela última vez o coração de Vinicius de Moraes, naquele dia 9 de julho de 1980. No entanto, não
 para de pulsar em mim, não para de pulsar em ti, a criação artística dele.O valioso conjunto da obra por ele deixada.  E assim será com as futuras gerações. O poeta não morre, ele se transforma...



Referências
1. www. e-biografias. net
2. Vinicius de Moraes, Literatura Comentada, Abril Educação, p. 1980.
3. Nova Enciclopédia Barsa, vol. 10, 9. 1999, pp. 155/156,
4. DBU-Dicionário Biográfico Universal Três, vol. 8, p. 1984, página 296.
5. Vinicius de Moraes, Coleção MPB  Compositores, vol. 18 (encarte), editora Globo, p. 1997

 
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