Até tu, Rui Barbosa?

      Rui Barbosa de Oliveira (1849-1923), jurisconsulto, político e escritor, nasceu em Salvador, Bahia, e morreu em Petrópolis, Rio de Janeiro. Aos 17 anos iniciou o curso de Direito no Recife e diplomou-se aos 21 anos, em São Paulo. Retornou a Salvador, onde passa a exercer a advocacia durante algum tempo. Logo engaja-se na campanha pelas eleições diretas, pela reforma da educação e pela abolição da escravatura.
      Seu nome ganhou  destaque nacional graças à tradução que fez da obra O Papa e o Concílio, de Johan Josep von Dollinger, contra o Vaticano. O tradutor era um jovem de apenas 28 anos de idade.
     Aos 29 anos, entrou para a política e foi eleito deputado provincial (1879-1884). No  mesmo ano, em 1779, elegeu-se deputado geral (hoje deputado federal), pela Bahia. No Congresso Nacional, destacou-se pelas propostas da reforma eleitoral, reforma do ensino e da emancipação da escravidão.
     Com a proclamação da República, foi ministro da Fazenda do governo Provisório, sendo alvo de hostilidade de gaúchos e paulistas. Sua participação foi fundamental na elaboração da Constituição de 1891.
      Em 1893, rebelou-se contra as medidas políticas do governo de Floriano Peixoto, sendo forçado a exilar-se em Buenos Aires, Lisboa e Londres. De volta ao Brasil, em 1895, reassumiu sua cadeira no Senado.
     Em 1907, foi nomeado pelo Presidente Afonso Pena chefe da delegação brasileira durante a Conferência de Paz de Haia, Holanda, onde teve notável desempenho após o discurso de 30 minutos daquele dia 12 de julho, ao defender a tese da igualdade entre as nações, que não contava com a simpatia das grandes potências como Alemanha e Reino Unido. De improviso, perguntou: "Há alguma coisa de mais eminentemente política que a soberania?" Daí, um dos principais resultados foi a criação da Corte Permanente de Justiça Internacional, na qual, ele foi um dos primeiros a integra-la. Desse triunfo, obteve dos seus pares, o título de "Águia de Haia".
     Outro momento histórico de sua vida, ele viveu em 1916, quando já era um senhor de 67 anos de idade, durante a primeira Guerra Mundial, quando representou o Brasil no centenário de Independência da Argentina, em Buenos Aires, onde pronunciou um discurso que se tornaria célebre, definindo o conceito jurídico de neutralidade. Isso resultou da ruptura das relações do Brasil com a Alemanha e a aceitação da causa dos aliados.
     Já muito respeito no meio político,  no mundo jurídico, na literatura e no jornalismo e, agora com o advento de Haia, em 1910, resolveu concorrer as eleições para a Presidência da República. Não obteve êxito. Depois, em 1914 e  em 1919, tentou de novo a Presidência, mas foi derrotado em ambas. 
     Como escritor, é extensa sua bibliografia, reunida em mais de 100 volumes (entre artigos, discursos e as polêmicas políticas). As obras de maior destaque são: A Queda do Império; Cartas de Inglaterra; República, Oração aos Moços, etc.
     Sócio-fundador da ABL, Academia Brasileira de Letras, ele sucedeu a Machado de Assis na presidência da casa. Sua biblioteca, é uma das maiores do país, reuniu cerca de 50 mil volumes, que estão no Rio de Janeiro, na Fundação que leva seu nome.
     O meu interesse pela obra desse autor foi influenciado por dois ex-professores, ainda na fase ginasial.  Um de História do Brasil e o outro, de Literatura. Os dois traziam, cada um na sua área, é lógico, citações, textos e trechos de discursos do sábio jurista. Aquelas aulas encantavam a metade da turma. Os mestres diziam: "Foi um dos homens mais inteligentes do Brasil"; "Era dono de uma oratória impecável". Ou ainda: "Improvisava discursos memoráveis", etc.
     Até que certo dia, lá pelos idos dos anos 80, chegou às minhas mãos o texto integral de Oração aos Moços. A edição era tão rica que continha manuscritos do próprio autor, além do prefácio de Edgard Batista Pereira e Estabelecimento do texto e notas de Adriano da Gama Kuri. Na contracapa a seguinte nota: " Uma das mais belas oratórias de Rui Barbosa. É o discurso do paraninfo da turma de 1920 da Faculdade de Direito de São Paulo. Brilhante lição de fé e de civilismo à mocidade. Já se disse que 'a Oração aos Moços e o Discurso do Colégio Anchieta formam na Obra de Rui Barbosa o díptico que se poderia intitular: Palavras à Juventude".
     Convidado, mas com 71 anos de idade e com a saúde debilitada e, não podendo comparecer à formatura, resolveu escrever seu discurso e enviá-lo à solenidade.  Na obra, "fala o padrinho carinhoso, o Mestre abalizado, numa linguagem rica de metáforas e através de preciosa mensagem, de onde jorram os mais sábios ensinamentos e os mais elevados conselhos".
     Passados 35 anos da leitura desse e outras obras que fiz desse baiano ilustre, deparei-me, em 2015, com a obra Crítica, do imortal da ABL, Humberto de Campos, na qual ele garante que Rui não pronunciava os seus memoráveis discursos de improviso, mas sim, previamente "preparados" longe da tribuna.
    Para quem não sabe, Humberto de Campos, foi, sem dúvida, um dos mais importantes, sérios e coerentes críticos literários que o Brasil já teve. Ele mesmo admitia não ser essa uma  tarefa fácil  a ser perseguida.
     Apesar disso, cuidadosamente ele analisa Ensaios, de Fernando de Azevedo. Um dos temas abordados pelo ensaísta trata da decadência da eloquência política no Brasil, e acentuando diz: "Com o hábito de falar, direta ou indiretamente, ao povo, perdemos ao mesmo tempo, o hábito de escutar".
     Aí entra o crítico: "Nós somos um povo apaixonado pela oratória; tivemos grandes tribunos na Monarquia, e, mesmo, alguns, na infância do regime republicano. Como explicar, então, o desaparecimento dessa arte de vencer ou de convencer (...)?"
     Ao referir-se aos oradores da Câmara dos Deputados, onde alguns liam seus discursos ornados com frases de efeito, pergunta: "Os oradores do Império, cujas orações veementes lemos hoje com entusiasmo e com ênfase, não seria, acaso, como estas de hoje? Não as escreviam eles pacientemente em casa, elaborando-as mais para a distância e para a posteridade do que para o momento e para as galerias? Razões poderosas fortaleciam a minha suspeita. Uma destas, encontrei-a na leitura dos Anais da Câmara, em discurso do representante do Maranhão, D. Francisco Baltazar da Silveira, o qual reclamava contra a parcialidade da mesa da casa de Congresso, a que pertenci, a qual não lhe permitia, a revisão dos seus discursos improvisados, mandando, entretanto, a domicilio, as provas das orações lidas por um colega, que era, por sinal, hóspede do mesmo hotel e seu vizinho de quarto. A outra razão, da desilusão que tive ao ouvir o conselheiro Rui Barbosa cujas orações formidáveis eram lidas marteladamente da sua cadeira do Senado, sendo, todavia, fora dali, a impressão de improvisações magistrais".
    Como se vê, o cerne da questão aqui abordada - tanto por Fernando de Azevedo como por Humberto de Campos -, primeiramente, é a oratória ou o orador políticos. O segundo plano trata do discurso ser improvisado, ou se preparado antecipadamente à ocasião em ser apresentado.
     Sabendo disso, como fica o sentido das inúmeras citações, discursos e orações de Rui, repetidas à exaustão, até os dias atuais, por parlamentares, professores de Direito, juristas e outros segmentos? Esse acontecimento suscitado por Humberto de Campos, não soterra a sapiência do Dr. Rui, mas umedece as páginas de sua eloquência, da sua oratória brilhante, das suas orações.
     São deles, por exemplos, estas frases de efeito: "Três âncoras deixou Deus ao homem: o amor da Pátria, o amor da liberdade e o amor da verdade". ou esta: "Se um dia, já homem feito e realizado sentires que a terra cede aos teus pés, que tuas obras desmoronaram, que não há ninguém à tua volta para te estender a mão, esquece a tua maturidade, passa pela tua mocidade, volta à tua infância e balbucia entre lágrimas e esperanças, as últimas palavras que sempre te restarão na alma: MINHA MÃE, MEU PAI".
    Foi assim, que "de tanto ver triunfar as nulidades...", que Humberto de Campos constatou sua "desilusão" diante da oratória do "conselheiro Rui Barbosa".


Referência
1. O Maior Brasileiro da História, Época, n. 434, de 11.09.2008, pp. 58 a 73.
2. Oração aos Moços, Ediouro, RJ, p. 1984.
3. Oração aos Moços, Martin Claret, SP, 2004.
4, Nova Enc. Barsa, vol, 2, SP/RJ, p; 1999, pp. 346/347
5. Dicionário Biográfico Universal Três, vol. 1, p. 1984, pp. 146/147.
6. Crítica, Humberto de Campos, segunda série, vol. 22, SP, p. 1958, pp. 108/111
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