O gênio indomável de Beethoven

    O meu irmão Evans Gomes, desde muito jovem tornou-se um nato apreciador da literatura em prosa e verso. Assim, como da música brasileira. Sem deixar de lado a música clássica universal. E foi revendo o seu acervo musical que encontrei a coleção: "Joias da música: Os Clássicos dos Clássicos". O subtítulo apresenta a sugestiva frase: "A música é a única linguagem universal".
     Os editores garantem: "Os 100 melhores temas da música erudita de todos os tempos. Sinfonias, concertos, óperas, balé e todos os favoritos de cinco séculos de criação imortalizados em dez horas de música e dez CDs". Entre outros autores estão: Bach, Mozart, Vivaldi, Beethoven, Strauss, Puccini, Wagner, Verdi, Bizet, Weber, Holst.
     Essa coleção dispensa comentário. É simplesmente espetacular. Mas, como há muitos anos eu havia lido a biografia de Beethoven, após um comentário sobre o mesmo, feito por um professor de literatura, resolve apenas analisar esse autor: Beethoven. A coleção contempla o seguinte: DISCO 1. Faixa 7. Sonata "Claire de Luna", 1 Movimento. Piano: Giuseppe Marinno; DISCO 5. Faixa 1, Sinfonia 5, 1 Movimento. Orquestra Sinfônica da Rádio de Hamburgo. Regente: Pietro Di La Coronna; DISCO 9. Faixa 4. Presto da "9 Sinfonia". Orquestra e Coro da Escola Superior de Música de Berlim. Regente: Gunther von Trifen; e DISCO 10. Faixa 2. "Para Elisa". Orquestra Sinfônica da Rádio de Hamburgo. Regente: Pietro Di La Coronna. É tudo simplesmente fantástico! Mas, mais fantástico ainda é saber um pouco sobre a arte e a vida de Beethoven.
     Ludwig van Beethoven (1770-1827), nasceu em Bonn, Alemanha e morreu em Viena, Áustria. Ele era de origem flamenca (motivo do van, em vez de von). Neto e filho de músicos. Aos primeiros sinais de seu talento, o pai procurou explorá-lo como menino prodígio. No entanto, muitas vezes foi injusto e brutal para com a criança. Há testemunhos que dão conta de que, chegou a espanca-lo, sobre o pretexto que o menor deveria estudar mais música. Quando completou 13 anos de idade, abandonou a escola para trabalhar e sustentar sua família, a qual enfrentava uma série de dificuldades materiais. Para piorar ainda mais, seu pai era alcoólatra e assim morreu.         
     Começou a estudar violino e piano aos 4 anos de idade, com o próprio pai. Aos 9, recebeu aulas de Pfeiffer, tenor de ópera e Vanden Eeden, organista. Porém, foi somente a partir dos 11 anos que passou a ter uma formação musical sistemático, com o professor Christian Gottlob Neefe, organista da capela da corte. Na verdade, foi esse mestre o responsável pela projeção do nome de Beethoven, primeiro em Viena, depois para o mundo, e sem dúvida, para a posteridade.
     Em 1787, aos 17 anos, em curta viagem à Viena, foi ouvido por Mozart. Inclusive é de Mozart a seguinte exclamação: "Esse rapaz ainda vai dar o que falar!"Algum tempo depois, já definitivamente  morando em Viena, passa a estudar com Haydn, Schenk, Albrechtsberg e Salieri, por causa da morte de Mozart. E, apesar do seu temperamento áspero e pouco inclinado às boas maneiras, encontrou ampla aceitação na alta sociedade vienense, cuja rica tradição, musical propiciara o pronto reconhecimento do seu talento, inclusive pelo arquiduque Rodolfo, para quem o jovem músico exibia-se como pianista virtuoso.
     No inicio do século XIX, já adorado como pianista e improvisador, com algumas de suas obras mais importantes já divulgadas, Beethoven não era, porém, o que se supunha um homem bem apessoado: rosto carrancudo e marcado  pela varíola, era forte, mas baixo, circunspecto. Aos 28 anos, surge-lhe os primeiros sintomas da surdez, que o fez sofrer e o angustiou para o resto da vida, é óbvio. Chegando ao ponto de cogitar o suicídio.
     No entanto, a arte a que se propôs lapidar, se sobrepõe a todos os infortúnios, numa batalha feroz contra o silêncio dela própria como dos homens, pois passara a se isolar cada vez mais, apesar de colocar na base do seu romantismo a "superioridade do coração" e a ideologia humanitária da revolução francesa.
     E os seus amores? As suas paixões? Era um jovem genial no tempo certo, no lugar certo. A noite de Viena fervilha de poetas e da boa música erudita. As mulheres, também por lá estavam. E Beethoven?  A paixão amorosa na sua vida é cheia de controvérsia e fantasia. Há quem diga que, apesar da ternura de algumas mulheres para com ele, seu coração era dominado (e preenchido) pela música. Provavelmente se apaixonou por uma aluna, a condessa Giulietta, a quem teria oferecido a sonata 27 n 2, dita Ao Luar; por Therese Malfatti   e por Betina Brentano, amiga do seu amigo, o poeta Goethe, mas nada se conhece sobre o sucesso ou fracasso dessas relações. 
     Além da doença que o atormentou até a morte, outro problema o perseguiu sempre: a falta de recursos financeiros. Por volta de 1811, quando já era tratado como um deus, continuava a ter dificuldades materiais, quer pela incerteza dos seus rendimentos, quer pela dedicação aos seus familiares. Assim, acabou por conseguir uma pensão vitalícia, com os nobres vienenses, para ser mestre de capela da corte de Kassel. Precisava manter o sobrinho Karl, cuja  guarda lhe foi legado pelo irmão Kaspar. Com o passar do tempo, por ser desajustado e dissipador, o rapaz propiciou muitos desgostos ao tio e vice versa. É um capítulo à parte na vida dos dois. 
     A obra de Beethoven costuma ser dividida em três fases: 1. De 1795 a 1800, com influência de Haydn e Mozart (por exemplo, Patética e sonata Ao Luar ). Caracteriza-se pela melodiosidade lírica e acentos   graves, mais patéticos que trágicos. 2. De 1801 a 1814, quando impõe mais sua personalidade num repertório sinfônico e característico. Daí, ser considerado o maior compositor do século XIX. São dessa fase: Aurora; Appassionata;  Primavera, na qual ele revela seus encantos pela liberdade, uma de suas marcas. A Tempestade, que retrata o senso trágico do compositor; e Kreutzer uma de suas obras primas. 3. De 1815 a 1826, quando mudou totalmente de estilo de forma grandiosa, pela ousadia das combinações harmônicas e intensidade da força expressiva. Nessa fase, compõe Fidélio, a sua única    ópera. que é um canto ao triunfo do amor sobre a opressão política.
     Entre as suas obras mais populares destacam-se: Sinfonia n 3, Eroica; Sinfonia n 5 ( a mais executada de todas, em todo mundo); Sinfonia n 6, Pastoral; Sinfonia n 7; Sinfonia n 9 (a última, concluída 3 anos antes da morte do autor).
     Em "A Herança de Beethoven", George R. Marek, destaca, de maneira coerente, a vida particular e pública do músico. Sem deixar de lado a índole rude do homem e a genialidade do compositor. Se em casa ele era "um autêntico tirano", na arte era um "sublime arquiteto da música". Se por um lado, tinha um temperamento muito violento, por outro, era atencioso, afável e bondoso. 
     Imoderado, tanto na alegria como na tristeza, seu comportamento era incoerente. Não permitia, por exemplo, que ninguém mexesse no seu aposento; reclamava das suas dificuldades financeiras, mas após sua morte foi encontrada uma considerada quantia de dinheiro, que ele havia escondido numa gaveta secreta da sua secretária; chegava a esquecer-se de se alimentar (uma vez, foi a um restaurante, mas esqueceu-se de pedir o que comer); recusava-se, terminantemente, a mudar de roupa; a surdez tornava-o desconfiado de todos, até dos amigos. Aos 45 anos, com o agravamento da doença, ele anotava num caderno, as conversas com as pessoas mais próximas. Contudo, essas circunstâncias, não impediram que Beethoven fosse reconhecido como um dos maiores  mestres da música universal. 
     "Aquele sublime arquiteto da música em Viena que, meditando, trabalhando, lutando, modelando, polindo, revendo uma vez e mais outra, conseguiu construir um edifício tão vasto que, pode bem dizer-se, tem abrigado toda a musica desde a sua época até os nossos dias".  
     É talvez,  cruel dizê-lo, mas a surdez de Beethoven teria sido uma verdadeira bênção para a música como única linguagem universal. Das centenas de sinfonias existentes, nenhuma pode rivalizar, em popularidade e interesse emocional, com as NOVE beethovenianas. Por quê? Porque foi ele quem tirou a música do pedestal de beleza formal onde Haydn e Mozart a tinham deixado e imergiu-a no sorvedouro da vida, ou seja, conseguiu expressar problemas, evocar emoções e enternecer verdadeiramente.  Beethoven, reproduziu, em música, as angústias e os sorrisos de todo o mundo. Tornando a música "humana".
     Há quem compare as sinfonias de Beethoven às peças de Shakespeare, em herança cultural. Tanto a arte do alemão como a do inglês, tudo abarcou. Ambos dominavam com igual habilidade a ternura e as asperezas.  Assim, como amavam a natureza e acreditavam na vitória da vida. No caso particular do autor de Para Elisa, a imagem que se tem dele é a de um indivíduo taciturno, surdo, melancólico e solitário, ela não corresponde à realidade. Um homem que o conheceu no entardecer da vida descreveu-o como "uma água olhando para o Sol". Ou "uma andorinha descrevendo círculos no céu azul", disse o outro. 
      Mas a matéria, como tecido da vida passa. Até que no dia 7 de maio de 1824, quando da apresentação da sua 9 Sinfonia, Coral, Beethoven "estava sentado perto do regente e de costas para a plateia, só se apercebeu dos aplausos apoteóticos quando alguém lhe tocou no ombro e o fez voltar-se  para o público. Debilitado por várias outras enfermidades, estava fisicamente no fim o inaugurador e arquétipo do individualismo na criação artística, com toda a carga de conflitos dessa investidura (...). Nesse sentido, foi o primeiro artista moderno". 
      Quase três anos após essa apresentação, em 26 de março de 1827, aos 56 anos de idade, parava de pulsar o coração de "uma criatura completamente indomável" (Goethe). No entanto, ficava para o mundo "o próprio modelo de um grande homem" (Jules Romains). Hoje, quase 200 anos depois da sua partida "seu nome é, por si mesmo, suficiente para se pensar num novo mundo da música" (Alfred Einstein). Qual mundo? O da mente genial de Ludwig van Beethoven. "Quem conseguirá explicá-lo?" (George R. Marek).





REFERÊNCIA
1. A Herança de Beethoven, in Grandes Vidas, Grandes Obras, Seleções do Reader's Digest, Portugal,   1980,  pp. 133/134.
2. Nova Enciclopédia Barsa, vol 2, SP/RJ, p. 1999, pp. 393/394.
3. Coleção "Joias da Música", em 10 CDs, DDD Barsa, Espanha, Editora Caras, anos 1980.
4. Dicionário Biográfico Universal Três, vol 2., p. 1984, pp. 175/176.
5. Coleção "Clássica: A História dos Gênios da Música", vol. 1, Beethoven, Nova Cultural, anos 80.
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