Toquinho: o eterno aprendiz


     Você sabe quem é Antônio Pecci Filho? É ele mesmo, o cantor, compositor e instrumentista paulista Toquinho, que no  último dia 6 de junho, completou 70 anos de idade. Esse apelido vinha de sua mãe, que o chamava de "meu toquinho de gente". É que o menino não crescia muito durante a primeira infância.
     A família morava no bairro Bom Retiro, na capital paulistana, numa rua de terra por onde passavam diariamente vacas leiteiras. Uma simplicidade rude, uma infância cercada pelos cuidados dos pais, Antônio Pecci e Diva Bandeolli, descendentes de italianos e do irmão João Carlos.
     Ainda criança, foi aluno brilhante, sempre querendo o máximo de si e dos outros. Na escola, era sempre o primeiro da classe. Porém, sobrecarregado com as responsabilidades que o brilhantismo lhe trazia, passou a ter crises hepáticas constantes, principalmente na época dos exames. A situação era tão séria que sua "proibiu-lhe" de tirar nota 10.
     Adolescente, já envolvido pelo violão, procurou os melhores, professores, a perfeição da melodia, do toque e dos arranjos. Hoje, homem feito, profissional realizado e trabalho de qualidade reconhecida, não deixa fugir de dentro de si a criança alegre que sempre o ajudou a tornar realidade seus sonhos. Apesar disso, seja no Brasil, seja no exterior, nunca se acha no auge da carreira. Ele garante que agarra a vida e a música com naturalidade e contentamento. "Assim, ele tornou-se guerreiro incansável na busca do acorde mais preciso e artista perceptivo o suficiente para descobrir a realidade humana por trás dos fatos". Haja vista que duas são as suas características básicas: sensibilidade e disciplina.
     Toquinho poderia ter escolhido outra profissão. No entanto, optou pelas veredas da música. Veredas essas que ele tem percorrido com muita maestria há 50 anos. Foi em 1966 que lançou seu primeiro trabalho, o disco instrumental "O Violão do Toquinho".
     Desde então, ele se consagrou como um dos mais expressivos artistas da nossa música. Foi (e é) parceiro de muita gente boa, como Vinicius de Mores, Chico Buarque, Francis Hime, Baden Pawell, Jorge Ben Jor, Paulinho Nogueira, Carlinhos Vergueiro, Sadao Watanabe, MPB-4, Maria Creuza, Simone, Tom Jobim, e por aí vai.
     Os ritmos e os sons musicais pulsam em suas veias. A mãe, ex-violinista, guardava um instrumento em casa. O garoto vivia curioso para conhecer o violino. O pai, que em casa, sempre estava assobiando canções, costumava comprar os discos de Luiz Gonzaga, Angela Maria, Francisco Alves, Orlando Silva, Vicente Celestino, etc. Nesse ambiente a criança tinha contato direto com música, sempre.
     Depois vieram os sucessos de Paul Anca, Niel Sedaka, The Platters, Elvis Presley e The Beatles. "Eu curtia tudo. Desde de samba à Bossa Nova". João Gilberto foi referência para si e para a sua geração, admite o artista.
     A sua primeira professora de violão desistiu de ensiná-lo, pois o aluno considerava os métodos da mestra, ultrapassados. Foi estudar, então, com Paulinho Nogueira. O professor revela: "Na primeira aula, passei para ele o acompanhamento da música Esse Seu Olhar, e ele  tinha de cantar. Na aula seguinte, trouxe a música no tom  que eu dei e em mais dois tons por conta dele. Então pensei: esse é diferente dos outros alunos". Em poucos meses já estava ele nas rodas de músicos, por intermédio do radialista Walter Silva.  
     Toquinho passou a fazer parte de um grupo de músicos iniciantes como Elis Regina, Zimba Trio, Bossa Jazz Trio e Taiguara, que se apresentava no Teatro Paramount. Foi aí, que conheceu Tom Jobim. Porém, logo ele percebeu que ser o melhor no violão, não era o suficiente para se ter uma carreira sólida. Precisava ser compositor como Baden, autor de sucessos como Berimbau, Canto de Ossanha e Consolação e de Luiz Bonfá, autor de Manhã de Carnaval. 
     Assim, nasceu o compositor Toquinho. Autor de canções que tratam do cotidiano do homem comum, ou seja, sem essa coisa da música hermética: ele busca a simplicidade, o estilo próprio e melodias sem arestas. Por exemplo, primeiro ele compõe a música depois a letra. E garante: "Não é fácil (...). Requer muito trabalho e dedicação".
     Mesmo durante os 11 anos em que fio parceiro de Vinicius de Moraes, cujo resultado foi muito bom, profícuo: 120 músicas, 25 discos e muitos shows no Brasil e no exterior, principalmente na Argentina e Itália, preocupava-se em lapidar o seu talento de letrista. Agora, aperfeiçoando a temática do homem comum em algo especial, de conotações profundas, que escapam às aparências e ao óbvio do dia a dia, como podem ser constatadas na manhã modorrenta  de Cotidiano 2, o entardecer de Tarde em Itapoã ou o sonho idílico de No Colo da Serra. Eis aí, "o compositor que fala da procura pela felicidade e pela liberdade, do direito de sorrir e chorar, ficar triste ou alegre".  De viver a vida.
     Em outubro de 1976, aos 30 anos de idade, 10 anos de uma carreira promissora e já definida, ele vai fazer um show em Belo Horizonte, quando é atacado pela paixão, isto é, por Mônica, uma das muitas moças que o aguardavam para ouvi-lo cantar. Com ela se casaria em abril do ano seguinte, ao som de Canção Para Mônica, de autoria dele e do baterista Mutinho. Desse casamento duradouro, nasceriam Pedro e Jade.
     A música, é sem sombra de dúvida, umas das principais formas de comunicação desse artista, com o mundo, Tanto que quando Pedro, seu primeiro filho nasceu, preparou-lhe  um berço musical e compôs Ao Que Vai Chegar,  em 1984, por sinal, tema de uma telenovela da Rede Globo, curtindo os 9 meses de gestação da nova vida (íntegra do poema no final deste resumo).
     Em 1964, tornava-se músico profissional, ao participar do show que Walter Silva organizara em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, com Marcha da Quarta-Feira de Cinzas, de Vinicius de Moraes e Baden Powell. Com o êxito alcançado, no ano seguinte, grava seu primeiro disco compacto (para quem não sabe, trata-se de um vinil; disco pequeno, um pouco maior que um CD atual. O compacto poderia ser simples, com 2 faixas, ou composto, com 4 faixas), pela gravadora RGE, ao vivo no Teatro Paramout, com as músicas Só Tinha de Ser Com Você, de Tom Jobim e Aloysio de Oliveira e Primavera, de Carlos Lyra e Vinicius de Moraes.
     Em 1966, lança seu primeiro LP, "O Violão do Toquinho". Em 1967, tem a sua primeira música gravada em disco, é Lua Cheia, em parceria com Chico Buarque. Nessa época vai passar uma temporada no Rio de Janeiro, onde conviveu com Paulinho da Viola, e os tropicalistas Caetano Veloso e Gal Costa. De volta a São Paulo, participa do programa "Ensaio Geral", sob o comando de Gilberto Gil. Em 1968, vai à Itália com Chico Buarque e só retorna ao Brasil em 1970. Mas, antes participa das gravações do disco La Vita, Amico, É L'artte Dell'Incontro, em homenagem a Vinicius, com vários artistas italianos.
     Ainda em 1970, é convidado por Vinicius de Moraes para acompanhá-lo numa turnê na Argentina, onde fizeram 10 shows em 12 dias. O casamento musical deu tão certo, que a parceria durou até a morte do Poetinha em julho de 1980. Juntos percorreram o Brasil, fazendo shows, compondo musicas e lançado discos. Em 1981, já sem o amigo, lança Doce Vida; em 1982, lança na Itália, Acquarello. Foi um sucesso. Em poucos meses vendeu 100 mil cópias. Sendo o primeiro brasileiro a ganhar um disco de ouro naquele país. Em 1983, o fenômeno se repetiu no Brasil, com Aquarela, em português, é claro.
     Ao longo desses anos, é vasta a lista de cantores que estiveram com Toquinho, seja compondo, seja fazendo shows, seja interpretando seu repertório: de Vitor Martins a Giafrancesco Guarnieiri; de Elba Ramalho a Simone; de Carlinhos Vergueiro a Marília Medalha, além de outros já citados nos parágrafos anteriores, assim como no exterior. Por exemplo, com o saxofonista japonês Sadao Watanabe, lançou o LP Made in Coração.  Sete das músicas do LP, são dos dois.  
     Com Elifas Andreato, lançou em 1986, Deveres e Diretos, para o público infantil. São 10 canções inspiradas na Declaração Universal dos Direitos da Criança (UNICEF) e uma peça de teatro, A Canção dos Direitos da Criança. O trabalho - pioneiro no assunto e na abordagem - foi reconhecido pela ONU, por causa da contribuição à humanidade. Relançado em 1997, teve a participação de vários artistas, como Eduardo Duzek, MPB-4, Chico Buarque entre outros. O disco traz ainda Toquinho cantando Natureza Distraída, música sobre o QUINTO Princípio do Direto da criança deficiente à educação e cuidados especiais.
      Toquinho é um dos artistas brasileiros mais prestigiados pelo público infantil. Em 2002, ele lançou o CD TOQUINHO EXCLUSIVO: Ensinando a Viver, juntamente com Elifas Andreato, para a Distribuidora Positivo, e numa entrevista para a revista Atividades e Experiências POSITIVO, o cantor aborda vários temas como criança, filho, adolescência, educação, professor e musica, é claro.
      SEUS MESTRES: Tive vários "professores inesquecíveis", os quais "eram muito carinhosos com a gente". Na época do primário, faz referências a dois desses mestres, o que o ensinou a ler e o de inglês. E completando diz: "Eu tenho lembranças muito ternas, muito carinhosas desta época de estudante".
      MÚSICA INFANTIL: A ideia não foi sua, mas de Vinicius de Moraes que havia escrito o "Arca de Noé", para os filhos. Os dois musicaram os poemas e o disco foi lançado na Itália. Depois no Brasil. Foi um grande sucesso tanto lá como aqui. Foram 4 discos. "Houve especiais na Globo, todos tiveram uma trajetória muito feliz mesmo".
      PÚBLICO INFANTOJUVENIL: O sucesso é inexplicável. A canção tem aquela coisa da magia. Às vezes, você faz uma música lindíssima e o público não se identifica com ela. "E uma outra canção, que você não esperava tanto dela, atravessa o tempo, a ferrugem do tempo. Resiste ao tempo. É realmente, inexplicável".
      EDUCAÇÃO DOS FILHOS: Não é fácil tê-los e educá-los. Diz ter o adolescente Pedro e a Jade (9 anos à época da entrevista). É preciso fazer a coisa certa, embora haja erros no caminho. À educação dos filhos, em qualquer situação, não pode faltar amor, carinho, amor físico. A criança, o adolescente, independente da idade, "já vai com um componente tão positivo em relação a qualquer cidadão em volta dele (a)" quando recebe esses valores.
      PROFESSOR BRASILEIRO: Esse profissional precisa ter a firmeza do que ele sabe, por um lado. Por outro, que ele tenha a fragilidade de um eterno aprendiz, que todas as pessoas têm. "Se estes dois lados estiverem claros, o amor vai estar presente também. Que esta condição fique clara: o lado humano e o lado profissional (não podem estar desassociados)".
      Eu poderia citar inúmeras canções inesquecíveis de Toquinho, seja solo ou em dueto, como Regra Três, Tarde em Itapoã, Aquarela, Doce Vida, etc. Inclusive as que executou em recente (e memorável) show feito em Manaus. Mas prefiro esta do LP "Sonho Dourado", de 1984, a seguir.

                      AO QUE VAI CHEGAR

VOA CORAÇÃO
A MINHA FORÇA TE CONDUZ
QUE O SOL DE UM NOVO AMOR
EM BREVE VAI BRILHAR
VARA A ESCURIDÃO
VAI ONDE A NOITE ESCONDE A LUZ
CLAREIA SEU CAMINHO
E ACENDE SEU OLHAR

VAI ONDE A AURORA MORA
E ACORDA UM LINDO DIA 
COLHE A MAIS BELA FLOR
QUE ALGUÉM JÁ VIU NASCER
E NÃO SE ESQUEÇA DE TRAZER 
FORÇA E MAGIA 
O SONHO,  A FANTASIA,
 E A ALEGRIA DE VIVER

VOA CORAÇÃO
QUE ELE NÃO DEVE DEMORAR
E TANTA COISA A MAIS QUERO LHE OFERECER:
O BRILHO DA PAIXÃO
PEDE A UMA ESTRELA PARA EMPRESTAR
E TRAGA JUNTO A FÉ
NUM NOVO AMANHECER

CONVIDA AS LUAS
CHEIA, MINGUANTE E CRESCENTE
E DE ONDE SE PLANTA A PAZ,
DA PAZ QUERO A RAIZ
E UMA CASINHA LÁ ONDE MORA O SOL POENTE
PRA FINALMENTE A GENTE
SIMPLESMENTE 
SER FELIZ 

     Esse é o "toquinho de gente" da D. Dica, o qual chegou aos 70 anos de vida e 50 anos de carreira, mais vigoroso (e rigoroso também); sempre criativo e sem perder a sensibilidade com a arte que abraçou.
     Sua discografia, por si só é um espetáculo à parte. São 14 álbuns de uma trajetória brilhante. Somando seu trabalho solo, com o da parceria de Vinicius, com os demais artistas brasileiros e estrangeiros, os números sobem para mais de 80 títulos; 450 composições e 8.500 shows no Brasil e no exterior.
     A sua alegria artística se irradia até onde está cada um de nós. É só irmos onde mora a aurora e acordar um lindo dia. Para tal, precisamos ter "a alegria de viver". Precisamos plantar a paz e dela extrair, por pequeno que seja, um pedacinho de sua raiz. Vamos construir "uma casinha lá onde mora o sol poente pra finalmente a gente simplesmente ser feliz".






Referência 
1. Revista Atividades e Experiências POSITIVO, p. 2002, pp. 46/55
2. Coleção MPB Compositores,  Toquinho, encarte 27, p.1997
3. www. google. com. br
4. www. e- biografias. net
5. www. circuitomusical. com
6. Encarte do LP "Sonho Dourado" (acervo part. de Evans Goms), Barclay, p. 1984.


Tecnologia do Blogger.