Paulinho da Viola: azul da cor do mar

      Paulo César Batista de Faria, nasceu em 12 de novembro de 1942, na cidade do Rio de Janeiro, RJ, hoje, ele é muito conhecido no mundo do samba como o Paulinho da Viola. Mais uma vez ele brilho. Foi no início deste mês, na abertura das Olimpíadas 2016, quando apareceu cantando o Hino Nacional, vestido de um azul da cor do mar. Sua aparição nesse tom e no tom do Hino foi tão oportuna, que deu notícia em alguns jornais estrangeiros.
       Confesso que desde o início dos anos 1980, quando ouvi pela primeira vez "Sinal Fechado", tenho lido (e reunido) tudo que posso sobre esse artista. Certa feita, em conversa com o saudoso causídico Fued Cavalcante Semen, ele disse: "Paulinho é um artista nobre e sua canção um luxo só. É um desses artistas que devem ser ouvidos todos os dias, sem que suas músicas se esgotem".
       Como se tivesse sido combinado, o jornalista Arley Pereira, disse algo semelhante sobre essa mesma pessoa, assim: "Toda nobreza ancestral da raça, da cultura desse país, do samba em si mesmo, refletem-se na figura principesca de Paulinho da Viola, na beleza serena de sua obra, na contribuição maior à formação de sua geração e exemplo perfeito - o melhor caráter da música popular brasileira - a ser tomado como modelo por quantos pretendam na vida uma presença irrepreensível, como artista ou como homem".
       Em 1978, quanto a gravadora Odeon lançou o LP Paulinho da Viola: DEZ ANOS, contendo 14 músicas, todas de sua autoria. Capa: Elifas Andreato. Fotos: Lena Trindade. A contracapa traz o seguinte relato de Sérgio Cabral. Produtor musical, jornalista e crítico de música. Homem de grande relevância no contexto da música brasileira, sobre o músico em questão disse:
       "Na primeira vez que vi Paulinho da Viola, fiquei sabendo de uma das suas marcas registradas: a timidez. Foi mais ou menos em 1962 (quanto Paulinho ainda era um garoto de apenas 20 anos de idade), na casa do poeta Hermínio Belo de Carvalho, durante uma reunião  de músicos e compositores. Hermínio pediu a Paulinho para tocar qualquer coisa, mas ele se recusou afirmando que seu violão era "quadrado" (a maioria dos presentes era francamente da bossa-nova).
       Nosso contato seguinte aconteceu em 1963 quando preparamos o lançamento do imortal Zicartola - a casa de samba e restaurante do maravilhoso casal mangueirense Cartola e Zica: Cartola mandava brasa no samba e Zica na cozinha. Com Hermínio e Zé Kéti, a gente ia ao banco onde Paulinho trabalhava para levá-lo ao Zicartola, onde iria acompanhar  no violão os grandes sambistas que se apresentavam na casa.
       Paulinho da Viola ainda não era Paulinho da Viola. Era Paulo Cesar. Zé Kéti é que sugeriu a mudança de nome: "Paulo Cesar não é nome de sambista", disse ele. Concordei e sugeri um pseudônimo  que tivesse a palavra viola, pois um dos apelidos mais encantadores que conheço na música é o de Mano Décio da Viola. "Paulo da Viola", disse Zé Kéti. "Paulinho da Viola", completei. 
       O batizado foi feito pelo próprio Zicartola e, se não me engano, foi Zé Kéti que comunicou a Paulo Cesar que ele seria, dali em diante, Paulinho da Viola, que, aliás, continuava tímido. Já tinha uns sambas mas era uma dificuldade incrível fazer o compositor cantá-los. De vez em quando, aventurava-se a bancar o cantor (um dos seus sambas falava de "sapato" e "retrato". Era muito interessante mas nem o próprio Paulinho se lembrava mais).
       Ficamos amigos. Estivemos juntos no Festival de Arte Negra, realizado em 1966 no Senegal, trabalhamos na antiga Casa Grande e em muitos shows, entre os quais um chamado "Sarau", que relançou o choro no consumo e que me traz as mais alegres lembranças.
       Posso dizer que se há uma carreira que conheço de perto, está é a de Paulinho da Viola. Carreira que fica ainda mais próxima quando vejo o repertório desse disco, que começa com "Sem ela eu não vou", do seu primeiro LP (Paulinho escreveu na contracapa e datou: 7 de outubro de 1968) e vai até o choro "Beliscando", sambista e chorão que ele é. Infelizmente, o espaço de uma contracapa não dá para contar a história de cada música, mas não custa chamar a atenção para algumas delas. "Sinal Fechado", por exemplo, ganhou o Festival de Música Popular da Record. "Foi um rio que passou na minha vida" venceu a Feira da Música da TV-Tupi de São Paulo e foi uma espécie de hino da Portela de 1970. "Um certo dia para 21" foi o samba de terreiro que Paulinho lançou na Portela em 1971. "Coisa do mundo, minha nega", finalista da Nona Bienal do Samba e incluído tanto no primeiro quanto no último LP de Paulinho. Para este disco, o compositor preferiu aproveitar a gravação mais recente, talvez pelo acompanhamento mais leve e, portanto, mais adequado para a música. 
        Não é preciso escreve mais. Basta ouvir este LP que narra musicalmente os dez anos de carreira de Paulinho da Viola na Odeon. Só isso é o suficiente para qualquer um constatar que se trata de um dos mais veementes exemplos de talento, dignidade e caráter da nossa música popular".
        São verdadeiras as palavras de Sérgio Cabral. Hoje, quase 40 anos depois do seu registro, Paulinho é realmente um "exemplo de talento, dignidade e caráter da nossa música". É o marceneiro do samba. É um rio que passe diariamente em nossa vida, e suas águas são cada vez mais cristalinas e necessárias, que irrigam muito bem os seus versos, as suas rimas, as suas melodias, a sua viola. Por exemplo, "Dança da Solidão" é uma canção fascinante, principalmente na interpretação de Marisa Monte.
         Porém, "Sinal Fechado", por si só é um espetáculo à parte na carreira desse artista, acima de tudo quando ouvida na voz de Maria Bethânia e Chico Buarque. Além do mais, em plena década de 1970, em plena censura do regime militar, a letra passou ilesa pelos censores de plantão. 

                               SINAL FECHADO

- OLÁ, COMO VAI?
- EU VOU INDO E VOCÊ, TUDO BEM?
- TUDO BEM, EU VOU INDO CORRENDO, PEGAR
   MEU LUGAR NO FUTURO... E VOCÊ?
- TUDO BEM, EU VOU INDO EM BUSCA DE UM
   SONO TRANQUILO...
   QUEM SABE?
- QUANTO TEMPO!
- POIS É, QUANTO TEMPO!
- ME PERDOE A PRESSA, É A ALMA
   DOS NOSSOS NEGÓCIOS
- QUAL, NÃO TEM DE QUÊ! EU TAMBÉM
   SÓ ANDO A CEM
- QUANDO É QUE VOCÊ TELEFONA?
  PRECISAMOS NOS VER POR AÍ
- PRA SEMANA, PROMETO, TALVEZ NOS
  VEJAMOS... QUEM SABE?
- QUANTO TEMPO!
- POIS É, QUANTO TEMPO!
- TANTA COISA QUE EU TINHA A DIZER,
   MAS EU SUMI NA POEIRA DAS RUAS...
- EU TAMBÉM TENHO ALHO A DIZER, 
   MAS ME FOGE Á LEMBRANÇA
- POR FAVOR, TELEFONE, EU PRECISO BEBER
   ALGUMA COISA, RAPIDAMENTE...
- PRA SEMANA... O SINAL
- EU PROCURO VOCÊ...
- VAI ABRIR, VAI ABRIR...
- EU PROMETO, NÃO ESQUEÇO, NÃO ESQUEÇO...
- POR FAVOR, NÃO ESQUEÇA, NÃO ESQUEÇA...
- ADEUS!
- ADEUS!
- ADEUS!





Referência
1. LP Paulinho da Viola: DEZ ANOS, Emi/Odeon, p. 1978,
2. Coleção MPB Compositores, encarte n. 17 Paulinho da Viola, Editora Globo, p. 1996.
3. Coleção Chico Buarque, CD Sinal Fechado 1974, Abril coleções, p. 2010.
 









Tecnologia do Blogger.