O ''Assalto'', de Drummond

     Quando fala-se em Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), logo nos vem à lembrança a imagem daquele velhinho magro e de óculos: o poeta, apenas. Nascido aos 31 de outubro de 1902 em Itabira, Minas Gerais, cuja infância foi igual a de uma criança saudável qualquer. "E eu não sabia que minha história/era mais bonita que a de Robinson Crusoé".
      No entanto, ele foi um dos escritores mais influentes da literatura brasileira e da latino-americana do século XX. Assim nasce o escritor, e é dele a definição: "O menino ambicioso/não de poder ou glória/mais de soltar a coisa/oculta no seu peito/escreve no caderno/e vagamente conta/à maneira de sonho/aem sentido nem forma/aquilo que não sabe".
       Verdadeiramente, Drummond, foi, também, um excelente cronista e contista. Muito embora, a maioria dos autores didáticos, principalmente os do ensino fundamental, só ilustram em seus livros a figura do poeta. Porém, é só fazer uma cronologia biográfica dele, para constar-se muitas obras suas em prosa e antologias.
       Acho que os livros de língua portuguesa e literatura brasileira - sejam do ensino fundamental, seja do ensino médio -, deviam apresentar mais conteúdo voltado para os contos, as crônicas, sem deixar de lado a poesia, em si mesma, é claro. Nas décadas de 1970 e 1980, principalmente, abria-se um livro da 6ª, 7ª, 8ª série e, lá estavam trechos, textos de Rubem Braga, Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Lygia Fagundes Telles,  do próprio Drummond entre outros.
       As aulas eram um verdadeiro show, Os professores faziam um certo suspense quando iam indicar alguns alunos para a leitura. Quando iam explicar o porquê daquela crônica ou daquele conto, também. Era tudo muito legal, divertido. Logicamente que depois vinham as cobranças sobre o estudo gramatical.
       Dia desses, revendo um desse material, um desses conteúdos memoráveis da nossa literatura, a procura de um artigo do escritor Mário Prata, acabei por encontrar este, do Drummond, a segui,por mim reproduzido na íntegra.

                                         A S S A L T O 

       "Na feira, a gorda senhora protestou a altos brados contra o preço do chuchu:
       - Isto é um assalto!
       Houve um reboliço. Os que estavam perto fugiram. Alguém, correndo, foi chamar o guarda. Um minuto depois, a rua inteira, atravancada, mas provida de admirável serviço de comunicação espontânea, sabia que se estava perpetrando um assalto ao banco. Mas que banco? Havia banco naquela rua? Evidente que sim, pois do contrário como poderia ser assaltado?
       - Um assalto! Um assalto! - a senhora continuava a exclamar, a quem não tinha escutado escutou, multiplicando a notícia. 
       - Olha o assalto! Tem um assalto ali adiante!
       O ônibus na rua transversal parou para assuntar. Passageiros ergueram-se puseram o nariz para fora. Não se via nada. O motorista desceu, desceu o trocador (hoje, cobrador), um passageiro advertiu: 
       - No que você vai a fim de ver o assalto, eles assaltam seu caica.
       Ele nem escutou. Então os passageiros também acharam de bom alvitre abandonar o veículo, na ânsia de saber, que vem movendo o homem, desde a idade da pedra até do módulo lunar. 
       Outros ônibus pararam, a rua entupiu. 
       - Melhor. Todas as ruas estão bloqueadas. Assim eles não podem dar no pé. 
       - É uma mulher que chefia o bando!
       - Já sei. A tal dondoca loura.
       - A loura assalta em São Paulo. Aqui é a morena.
       - Uma gorda. Está de metralhadora. Eu vi. 
       - Minha Nossa Senhora, o mundo está virado!
       - Vai ver que está caçando é marido.
       - Não brinca numa hora dessas. Olha aí, sangue escorrendo!
       - Sangue nada, tomate.
       Na confusão, circularam notícias diversas. O assalto fora a uma joalheria. As vitrinas tinham sido esmigalhadas a bala. E havia joias pelo chão - braceletes, relógios. O que os bandidos não levaram, na pressa, era agora objeto de saque popular. Morreram no mínimo duas pessoas, e três estavam gravemente feridas. 
       Barracas derrubadas assinalaram o ímpeto  da convulsão coletiva. Era preciso abrir caminho a todo custo. 
       Os edifícios de apartamento tinham fechado suas portas, logo que o primeiro foi invadido por pessoas que pretendiam, ao mesmo tempo, salvar a pele e contemplar lá de cima. Janelas e balcões apinhados de moradores, que gritavam:
       - Pega! Pega! Correu pra lá!
       - Olha ela ali!
       - Eles entraram na Kombi ali adiante!
       - É um mascarado! Não, são dois mascarados!
       - Ouviu-se nitidamente o pipocar de uma metralhadora, a pequena distância. Foi um deitar-no-chão geral, e como não havia espaço, uns caíram por cima de outros. Cessou o ruído. Que assalto era esse dilatado no tempo, repetido, confuso?
       - Olha o diabo daquele escurinho tocando matraca! E a gente com dor-de-barriga, pensando que era metralhadora. 
       Caíram em cima do garoto, que soverteu na multidão. A senhora gorda apareceu, muito vermelha, protestando sempre:
       - É um assalto! Chuchu por aquele preço é um verdadeiro assalto!" 

       Tal qual no texto acima, propagam-se as "coisas" da  política . Aliás, como anda o Planalto Central? Quais notícias chegam de Brasília? E os direitos políticos da "presidenta inocenta" cassada, como ficam? E aquelas palavras, 612 vezes repetidas:  admissibilidade, razoabilidade, inalterabilidade, responsabilidade...? Qual é mesmo o artigo da CF, segundo o qual o Senado pode cassar o mandato do Presidente da República, e o cassado perde os seus direitos políticos por 8 anos?
       "Houve um reboliço", diz Drummond, mas tudo já está calmo. "Cessou o ruído". 




  


       Referências
       1. Andrade, C. D. de. Assalto in: Para gostar de ler. 8, ed. São Paulo: Ática, 1989, v. 3: Crônicas, p. 12-4.
        2. Carlos Drummond de Andrade, Literatura Comentada, São Paulo, Abril Educação, 1980. 


Tecnologia do Blogger.