Oásis de Bethânia


     Maria Bethânia Viana Teles Veloso, ou seja, a cantora Maria Bethânia, completou 70 anos de vida em 18 de junho de 2016 e 51 anos de uma carreira artística brilhante.  Seu nome foi escolhido pelo irmão Caetano, inspirado em uma canção, a valsa Maria Bethânia, do compositor Capiba, então um sucesso na voz de Nelson Gonçalves.
      Maria Bethânia foi eleita pela revista Rolling Stone Brasil, a quinta maior voz da música popular brasileira. Por sinal, segundo a Associação Brasileira de Produtores de Discos, ela é a cantora brasileira que ocupa a terceira maior vendagem de discos, com 26 milhões de cópias, superada apenas pelas cantoras Xuxa, com 40 milhões e Rita Lee, com 55 milhões de discos vendidos.
      Nesses 51 anos de carreira, Bethânia construiu uma discografia vasta e bem produzida, a qual pode ser dividida em várias fases. Em décadas, por exemplo, que vem de meados dos anos 1960 aos dias atuais, em pleno 2016. Na década de 1980, mas precisamente, em 1981, ela laçou o disco "Alteza". Porém, naquele mesmo ano foi lançada uma coletânea, uma caixa com 6 LPs "Maria Bethânia" com 65 canções, além de um texto e algumas participações especiais.
      É um trabalho grandioso, impecável. Se essa coleção foi relançada em CDs, desconheço. A caixa, à qual estou me reportando traz um encarte dourado de 36 páginas com todas as letras e seus respectivos compositores. Nele consta que a pesquisa discográfica e montagem são de Lenia Grillo, onde, em 7 páginas,  ela traça um histórico da vida e da carreira da artista. É um trabalho imperdível! Para cada disco, um título e um pequeno comentário de um artista diferente, além da apresentação e da introdução. Ao todo, são 8 comentários. E é exatamente sobre a beleza (e a veracidade) dessas palavras, desses "depoimentos" que quero retratar aqui.
   
       APRESENTAÇÃO: "O PÁSSARO DA MANHÃ" pousa na "ROSA DOS VENTOS" e daí retirou o "MEL".
        Sem "A TUA PRESENÇA", "A CENA MUDA" e é preciso um "ÁLIBI" para "QUANDO O CARNAVAL CHEGAR".
        O "PÁSSARO PROIBIDO" fez um "DRAMA À LUZ DA NOITE" e trouxe um "TALISMÃ" para os "DOCES BÁRBAROS". Lenia Grillo

       INTRODUÇÃO:  "O sucesso de MARIA BETHÂNIA é um sinal inapelável como costumam ser os sinais do céu. Flor de cor tão concentrada.
       Foi Deus quem mandou sua  filha aqui para o globo, o ilé ayé, ser a cara-metade de Roberto Carlos, o Rei, e ELA, a abelha-rainha, veio em carne e osso para cantar, com sua voz poderosa, as coisas transitórias  do mundo divino, as emoções do tempo e da história, carregar a melhor tradição e ser o que é: o sopro sonoro divino, a manifestação em forma vo-cal  (assim mesmo) dum orixá.
      Eu disse a palavra mais certa: orixá.
      As coisas miúdas e o ideal, o sagrado e o profano se amalgamam na garganta desta mulher de cor brasileira.
     Os índios de Pindorama sempre foram chegados a um mel - loucura, infinito desejo - e escrevi esta SALVE RAINHA ERÓTICA, este  panegírico pagão, com o fito de apontar bem claro na direção da utopia, da marcha da utopia mais original da raça brasílica: a comunhão com a mulher e a comunhão com a mãe natureza.
     A idade MEL do matriarcado.
     Assim está escrito,  antes, bem antes do advento do desembarque do primeiro homem cadastrado vestido, que esta mulher viria, que Maria Bethânia viria cantar CHEIRO DE AMOR dos que se amam nos aparelhos e ficam com a pele retinta, gota de sangue melada com as tintas das notícias, pó da estrada.
      Defrontar-se com uma QUEDA D' ÁGUA, uma cascata, uma fonte, uma cachoeira, é ouvir a sua voz nos auges do seu canto, Maria Bethânia está cantando mais MEL do que nunca e mister é banhar-se na sua luz crescente.."   Wally Salomão.

     Disco 1 - MARIA BETHÂNIA AO VIVO: "A canção é um milagre compartilhado entre o autor e o intérprete. A música nasce como uma muda fulguração no peito do compositor, mas só ganha vida e sonoridade na alma e na voz dos seus cantores. É a partir dessa comunhão de duas emoções, dessa identidade de sentimentos entre quem canta e que compõe que se propaga e se difunde, na sensibilidade popular, o doce mistério da música". Xixa Motta.

     Disco 2 - AS COMPOSITORAS NA VOZ DE MARIA BETHÂNIA: "Uma das coisas mais importantes que já aconteceram com o meu trabalho foi a leitura que a BETHÂNIA deu à "DA COR BRASILEIRA", de uma força incrível. Nunca parei para pensar em quem poderia ser a maior cantora do Brasil, nem acho que exista um critério para isso. Mas, sem dúvida nenhuma, BETHÂNIA é a maior atriz da música popular brasileira. Digo e assino embaixo". Joyce

     Disco 3 - MARIA BETHÂNIA CONVIDA: "Amo cantar. De qualquer jeito, estando como estiver: Alegre ou triste, concordando ou não com o mundo, com o momento, com o movimento da vida; amo cantar sozinha ou acompanhada. A sensação de "contracenar" como numa peça de teatro, me fascina.
     Amo todas as vozes, amo o milagre que esses frágeis fios vocais fazem. Cantar com amigos é uma felicidade rara. Já vivi intensamente momentos inesquecíveis de felicidade ao lado de: EDU LOBO, JORGE BEN, MARA LEÃO, BUARQUE, GAL COSTA, CAETANO, ERASMO, ALCIONE, GILBERTO GIL,  queridas vozes amigas e queridos mestres da minha vida". Bethânia (sobre si mesma).

     Disco 4 - MARIA BETHÂNIA CANTA CAETANO VELOSO: "Toda vez que ouço dizer que MARIA BETHÂNIA desafina, eu rio; na verdade esse mito alimenta todo um sistema equivocado de apreciação do canto, da arte de cantar no Brasil.
     A emissão vocal de MARIA BETHÂNIA é talvez o oposto do que seria requerido por qualquer uma das técnicas existentes. Mas isso apenas contribui para que a gente possa dispor desse timbre único. Na música que BETHÂNIA produz temos mais presente a pessoa de BETHÂNIA do que tudo o que se sabe sobre a música. No caso dela isso nos coloca a questão da importância da história pessoal do artista, da cultura individual do criador.
      A voz de BETHÂNIA, o modo como ela atrasa as frases musicais para os últimos momentos de cada compasso, aponta, assim como o seu nariz único, para o futuro da beleza". Caetano (sobre a mana).

     Disco 5 - MARIA BETHÂNIA CANTO O AMOR: 
                    "CANTAR É MOVER O DOM DO FUNDO DE UMA PAIXÃO". "Como eu teria escrito isso se não tivesse certeza? E como não ter certeza depois de ouvir BETHÂNIA cantar? Cantar o amor não é proclamar seu nome em vão. (Bethânia me faz sentir isso quando canta). BETHÂNIA  canta e fala de amor como se ela o tivesse inventado, como se ele fosse dela.  Todo. Chega a nos fazer compreendê-lo. Fala como se fosse vizinho... adolescente, pura... por todos... para sempre".  Djavan.

      Disco 6 - MARIA BETHÂNIA CANTA CHICO BUARQUE E GONZAGUINHA: "A BETHÂNIA tem lá uns mistérios. Você faz a música, manda para ela, depois fica esperando, sem saber se ela gostou ou não, gravou ou não. Parece coisa de amigo oculto.
      Quando volta a música, já toda embrulhada, é outra. É a música da BETHÂNIA. Uma vez ela mudou uma nota da minha música. Estranhei, mas depois achei que ficou melhor. Eu gosto sempre da música da BETHÂNIA. Outra vez eu lhe mandei uma música, "OLHOS NOS OLHOS", e ela me devolveu duas. A mesma história cantada por duas mulheres bem diferentes. Acho que eu já disse que gosto muito, gosto sempre das músicas da BETHÂNIA". Buarque (que é como só ela me chama).

     E completando o que já é essencialmente belo - seleção das músicas, diversidade de compositores, interpretação divina -, Bethânia se supera, quando, de repente, entre uma música e outra (disco 2), recita o texto de Fauzi Arap, por mim reproduzido na íntegra a seguir: 

"Eu vou te contar, que você não me conhece
e eu tenho que gritar isso porque você está surdo e não me ouve.
A sedução me escraviza a você, ao fim de tudo, você permanece comigo, 
mas preso ao que eu criei e não a mim  e, quanto mais falo sobre a verdade inteira, 
um abismo maior nos separa.
Você não tem um nome, eu tenho; você é um rosto na multidão 
e eu sou o centro das atenções.
Mas a mentira da aparência do que eu sou e a mentira da aparência do que você é,
porque eu, eu não sou o meu nome e você não é ninguém.
O jogo perigoso que eu pratico aqui,
ele busca chegar ao limite possível  de aproximação,
através da aceitação da distância e do reconhecimento dela.
Entre mim e você, existe a notícia, que nos separa.
Eu quero que você veja a mim, eu me dispo da notícia 
e a minha nudez parada te denuncia e te espelha.
Eu me delato, 
tu me relatas,
eu nos acuso e confessor por nós,  e assim me livro das palavras
com as quais você me veste".

     É isso aí. "As palavras guardam o segredo do seu significado", segundo o mestre Miguel Reale. Bethânia é tudo isso é muito mais. Ela exterioriza emoções e guarda mistérios. É um ser belo, agradável, delicioso. Esse é seu oásis, na definição do filólogo Aurélio Buarque. Oásis que vem de muitos lugares: do latim tardio, oasis;  do grego, oásis; do francês, oasis; do português, "ô asas". Asas sobre o canto, sobre a música, sobre a alegria de viver, sobre a alma, sobre nossas vidas.
     Todos os que aqui foram citados, reportam-se sobre B e t h â n i a, grafando seu nome em letras MAIÚSCULAS. É respeito por tê-la como a abelha-rainha da nossa música, haja vista que o MEL advindo da sua arte é infinitamente saboroso. Ela distribui MEL, a gente quer mais. Queremos o favo, ou seja, queremos ouvi-la mais, repeti-la mais, cantarolar mais seus versos. Queremos a  "SUA PRESENÇA", ou melhor a PRESENÇA DELA, sempre.
     O título deste trabalho, extrai do CD "OÁSIS DE BETHÂNIA", de 2011. Por sinal, nesse CD consta o poema-canção "CARTA DE AMOR", de Paulo César Pinheiro e texto de Maria Bethânia. É de uma beleza inestimável. Porém, fica para outra pesquisa.




REFERÊNCIAS 
1. https: // pt. Wikipedia. org. 
2. www. infoescola.vom/biografias  
3. Coleção "Maria Bethânia" cx, c. 6 LPs/encarte, Polygram/Philips, p. 1981.
4. Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, 4 ed. 2009, pp. 879 e 1.419.
 
        
     
  

      
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