RAUL SEIXAS - VERSÕES E ''PLÁGIOS''

     Em fevereiro de 2912, fui presenteado com o livro "Dossiê RAUL SEIXAS", de autoria de Isaac Soares de Souza,  por Angeline, uma criança de então dez anos de idade. A obra está distribuída em dez partes, entre elas a apresentação de Valdecir Martins.
     O autor, declaradamente "raulseixista", foi cuidadoso e sincero no estudo a que se dispôs publicar sobre o ídolo roqueiro baiano, do Brasil para o mundo.
     A narrativa propriamente dita, tem seu início nos anos 40, década do nascimento de Raul Seixas (1945-1989) e segue até o final da década de 80, quando o artista morre aos 44 anos de idade.
     No capítulo "Filmografia", Isaac faz uma retrospectiva da carreira artística do Maluco Beleza, que vai desde 1975 com "Ritmo Alucinante", até 2011, com "Raul Seixas: o Começo, o Meio e o Fim".
     Porém, o que mais chamou a minha atenção, e que motivou o presente comentário, no todo do contexto lido, foi "RAUL SEIXS- VERSÕES E 'PLÁGIOS', onde ele afirma:
     "Confira a seguir uma lista das músicas (são 24, no total) que alguns afirmam que Raul plagiou e versões magníficas que ele criou para alguns clássicos do rock, blues e baião. Raul Seixas nunca escondeu de ninguém que ele havia sim "metido a mão" em algumas músicas e outra coisa que pouca gente conhece é o fato de que Raul tinha uma afinidade tão grande com o estúdio e com a música, que ele inverteu muitos clássicos do rock, trocando seus acordes para criar suas bombas musicais. Isso não significa jamais que Raul Seixas foi um grande plagiador, muito pelo contrário, significa o quanto ele era mesmo um gênio. Nunca ninguém ousou contestá-lo por qualquer suposto plágio e acredito que nunca houve tal coisa devido ao fato de os criadores originais das ditas canções plagiadas não terem tomado conhecimento da atitude que sempre causou celeuma no meio musical, ou porque o próprio criador plagiado não teria nenhum argumento diante da justiça para provar o plágio, ele não saberia dizer se foi plagiado ou se plagiou".
      Entre as supostas "vítimas" estão Luiz Gonzaga, The Beatles, Led Zeppelin, Christophe, Elvis Presley, Ringo Star, Ronnie Self, Bob Dylan, entre outros. Quanto às músicas, entre elas estão: I Want You (Melodia "Cawboy Fora da Lei") - Bob Dylan; Xote das Meninas (trechos em "É Fim de Mês") - Luiz Gonzaga; Killer Diller (cersão "Rock das Aranhas") - Jim Breedlove; I Was Born About Tem Thousand Years Ago (jnspirou "Há 10 Mil Anos Atrás") - Elvis Presley; Aline (melodia do refrão em "Maluco Beleza") - Christophe, etc.
     A história de contrafação de plágio se alastra em praticamente todo o mundo. Da Europa à América Latina. Com essa onda, então, da globalização mundial, da era da tecnologia globalizada dos meios de comunicação é que a "coisa" ganhou corpo em todos os aspectos, em todas as marcas, em todos os negócios.
     Li, há algum tempo, que a melhor Universidade da Inglaterra, Oxford, e uma das mais importantes  do mundo, anda as turras com pelo menos 1/3 dos universitários que plagiam monografias. Veja bem. Se isso vem ocorrendo lá no Velho Mundo, por aqui... Mas voltemos ao universo da música.
     Essa constatação do pesquisador Isaac sobre o lendário Raul Seixas ocorrida no país da ordem e do progresso, é fichinha diante do que ocorreu e vem ocorrendo de plágio no atual cenário da música no país. Depois daquela do Caetano Veloso, que numa única musica de Paulo Vanzolini, alterou 15 compassos. E pior: ele ainda gabava-se desse feito, e Vanzolini fingia ignorar essa façanha, tudo é possível ao que crer... Outro exemplo: o cantor e compositor Roberto Carlos, aquele que "queimou" em todo o Brasil o livro do escritor Paulo César de Araújo, envolveu em dois plágios clássicos que foram parar nos tribunais e rendeu-lhe o pagamento de indenizações milionárias aos autores originais. Um in "Caminhoneiro", envolvendo um músico norte-americano. Outro in "O Careta", envolvendo um compositor brasileiro.  Nem preciso citar os nomes dos dois. Estão aí na discografia brasileira.
     Nem o autor da pesquisa nem eu, deste comentários, defendemos essa prática. Seja com Raul ou não. Isso não quer dizer que todos devem sair por aí plagiando quem quer que seja. Apesar de tudo está banalizado. Sou amante da boa música, mas terminantemente contra essa prática  nociva.
     Segundo o dicionarista  e  professor Francisco da Silveira Bueno, "plagiar. Assinar ou fazer passar por seu (trabalho artístico alheio; imitar servilmente". Seguindo essa mesma concepção, o mestre Aurélio Buarque diz: "Plagiar. Assinar ou apresentar como seu (obra artística ou científica de outrem). Imitar (trabalho alheio)". 
    No mundo jurídico há uma série de complicações contra o plagiador. Preliminarmente o doutrinador Deocleciano Torrieri Guimarães, define plágio, assim: "Violação da propriedade intelectual que se caracteriza pela imitação total ou parcial de obra literária alheia, incluindo-se a qualidade de autor da mesma. O plágio é parcial, quando alguém se vale de obras alheias em trabalho seu, sem indicar a fonte ou sem pôr entre aspas as citações, para que pareçam próprias. Torna-se contrafação quando há reprodução fraudulenta de obra alheia com o objetivo de lucro. Ocorre tanto em livros,  como em música, filmes, pintura, etc."
    Então, voltemos ao Raul. Errou ao fazer isso? Errou. Os verdadeiros autores nada lhe cobraram? Não. Seus fãs também não lhe cobrarão. Porém, a verdade explícita sobre esse artista é esta: "ele era mesmo um gênio", como bem o diz no livro em análise, seu autor. Só uma faceta de Raul, entre tantas: aquela de mesclar rock com baião, é simplesmente genial (quem conhece a obra desse baiano sabe do que estou falando). 
 
    Não é para menos. Leia aqui o que a editora do livro de Isaac escreveu na contracapa:
               
                             "O tempo faz a medida de cada artista.
                               Quando sua obra é capaz de transcender o tempo é porque,
                               de fato, ela possui qualidades para ser chamada de Arte.
                               Nesse contexto, sem nenhuma dúvida, se insere a obra de Raul Seixas,
                               que o consagrou como um verdadeiro precursor do rock nacional."
  
      Em 1987 Raul lançou o LP "Vah-Baplu-Bap-Lah-Bum-Bum!", no qual está inserida a música, cuja letra reproduz abaixo, oportunamente.
 
                               COWBOY FORA DA LEI
 
 
MAMÃE, NÃO QUERO SER PREFEITO
PODE SER QUE EU SEJA ELEITO
E ALGUÉM PODE QUERER ME ASSASSINAR
EU NÃO PRECISO LER JORNAIS
MENTIR SOZINHO EU SOU CAPAZ
NÃO QUERO IR DE ENCONTRO AO AZAR
 
PAPAI NÃO QUERO PROVAR NADA
EU JÁ SERVI A PÁTRIA AMADA
E TODO MUNDO COBRA MINHA LUZ
 
OH, COITADO, FOI TÃO CEDO
DEUS ME LIVRE, EU TENHO MEDO
MORRER DEPENDURADO NUMA CRUZ
 
EU NÃO SOU BESTA PRA TIRAR ONDA DE HERÓI
SOU VACINADO, EU SOU COWBOY
COWBOY FORA DA LEI
DURANGO KID SÓ EXISTE NO GIBI
E QUEM QUISER QUE FIQUE AQUI
ENTRAR PRA HISTÓRIA COM VOCÊS.
 
    Na próxima semana, dia 2 de outubro de 2016, haverá eleições municipais em quase 6 mil cidades brasileiras, e como muitos candidatos não sabem mentir sozinhos, convidam o eleitor... Mas, defenda-se. Não queira entrar para a História como Getúlio Vargas - nos versos acima, ironizado pelo Raulzito. Se você não é "a luz das estrelas", seja você, meu caro leitor, a própria luz da sua consciência.
    Quase 30 anos do lançamento dessa canção ela está mais atualizada do que nunca. Parcela da população deste país insiste em viver na obscuridade. Não quer mostra a cara. A cara que o Cazuza insistia em vê-la. Por outro lado, milhões de cidadãos  iguais a mim e a você não aceitam mais que permanece às escondidas a res publica.
    E para finalizar, leia comigo estas palavras vivas do eterno vivo artista Raul Seixas:
   
''Eu me utilizo de todos os meios da sociedade de consumo, penetro
no sistema, mas como um veneno.
Como somos "verbaloides", o começo foi o verbo. Em 'Gita', e em
outras composições minhas 'Eu sou, eu fui, eu vou...
Eu sou a  afirmação do 'eu',  pois o  homem  precisa  aprender a se
autoafirmar. O 'eu' assumido e  vomitado, arrancará do âmago esse
medo que o homem tem de declarar-se senhor absoluto de seus 
direitos e do universo".
 
 
REFERÊNCIAS
1. Dossiê RAUL SEIXAS. Isaac Soares de Souza, Universos dos Livros, SP, 2011.
2. www. vagalume, com, br
3. Dicionário Técnico Jurídico. Deocleciano Torrieri Guimarães. Rieel, SP, 1995, pp, 439 e 440
4. Dic. Escolar da L. Portuguesa. Francisco da Silveira Bueno. FAE, 11 ed. RJ, 1085, p. 873.
5. Novo Dic. da L. Portuguesa. Aurélio Buarque. Positivo, Curitiba, , 4 ed. 2009, p. 574
                

   



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