Álvaro Maia: o príncipe dos poetas...

     No final do mês passado, a escritora e poetisa (prefiro assim: poetisa) amazonense Carmen Novoa Silva, membro da Academia Amazonense de Letras, lançou, aqui mesmo em Manaus, o obra "Canção de Fé e Esperança 90 anos - Álvaro Maia".
      Segundo a jornalista Esterffany Martins, "o poema escrito por Álvaro Maia e declamado por ele no Teatro Amazonas, em 1923, em uma comemoração da aceitação do Amazonas a independência do Brasil, completou 90 anos, em 1013".
      Nos conta a escritora que "a oratória dele, naquele dia, levantou o ânimo para aquelas pessoas deprimidas por causa da decadência da borracha. Ele unia as forças de todo o Amazonas, para as pessoas terem orgulho da terra, a todos um apelo direcionado, principalmente aos jovens para terem perspectiva do futuro".
      A escritora Carmen é uma escritora de obras apaixonantes. Seus artigos publicados semanalmente nos jornais locais são indispensáveis aos que buscam boa leitura e aprendizado sólido. Oportunamente ela lança esse livro necessário ao contexto literário, não só amazonense, mas nacional ou onde quer que possa chegar, aonde ir.
      O livro em questão possui 101 páginas, e além de mostrar o lado poético do amazonense (ele firmara-se como poeta aos 30 anos de idade, independente de seu ingresso no ramo da política partidária), retrata também, os fatos (em fotos) da sua época. além de ser considerado por muitos como o príncipe dos poetas amazonenses, ele também foi cronista, escritor, ensaísta, conferencista e exímio orador. Cito aqui, alguns dos seus livros: "Nas Barras do Pretório", "Gente dos Seringais", "Banco de Canoa", entre outros.
       Álvaro Botelho Maia (1893-1969), nasceu no município de Humaitá, situado no rio Madeira, e morreu em Manaus. Estudo Direto em Fortaleza (CE) e colou grau no Rio de Janeiro (RJ). Seu primeiro emprego no Amazonas foi de redator da Assembleia Legislativa. Sem perder de vista a literatura, seguiu carreira política. Foi deputado, senador, interventor e governador.
       Era detentor de uma linguagem culta tanto nos discurso como nos livros. Muitas de suas palavras permanecem atuais nos dias de hoje. A prova disso está ai na sua "Canção de Fé e Esperança", além de outros escritos. Por exemplo, em fevereiro de 1993, quando da passagem dos 70 dessa obra, o jornal A Crítica (local), publicou um caderno especial sobre esse tema, que é um verdadeiro grito em prol da liberdade humana.
       Na 'canção' estão orações do tipo abaixo, por mim extraídas, nas quais ele declama:
  
           "O único meio de assegurar a vitória da justiça
             é bater-se a gente contra
             tudo que é baixo, fraco e odioso no presente".

           "O que não passa é o oceano das verdades eternas,
            indiferente ao rugir das paixões
            contemporâneas, e por sobre ele a imensidade sidérea das almas,
            que és tu, ó
            liberdade".

           "Aos moços amazonenses - homens em botão e mulheres em manhã -
           cabe arquitetar a obra ressurgente, em qualquer profissão que tentarem,
           mas principalmente  no trabalho de ensinar
           criança, de formar alma e modelar caracteres".

            "Não morre o povo que se nutre dos exemplos grandiosos dos mortos".

       Em 1951, aos 58 anos de idade, apesar dos seus compromissos políticos, administrativos e pessoas, Álvaro conciliava a tudo sem jamais perder de vista o horizonte da literatura. Nesse ano disponibilizou tempo para fazer a tradução do memorável poema "SE", de Kipling. O poema é famoso no mundo inteiro, e pode ser lido em vários idiomas.
        "SE" também foi traduzido pelo poeta paulista Guilherme de Almeida (1890-1969). Curiosamente nasceu 3 anos antes de Álvaro e morreu no mesmo ano do amazonenses. Com todo respeito aquele, prefiro as palavras traduzidas deste. Por alguns fatores. Explico: estrutura poética, entonação e número de estrofes. Oito cá, quatro lá. A tradução daqui é leve; de fácil interpretação.
        O indo-britânico Rudyard Kipling Joseph (1865-1936), nasceu em Bombaim, Índia e Morreu em Londres. Homem de vida pacata, apesar de ter sido laureado com o Nobel de Literatura, pela Academia Sueca de Letras em 1907. Era respeitado e foi considerado "o poeta do Império Britânico".
        Jornalista, contista, poeta e romancista, escreveu vários livros. É autor, inclusive de  "Baladas dos Quartéis".  É dele o célebre poema "SE", o qual foi feito para seu único filho, John, que morreria no front da Primeira Guerra Mundial.
       Leia, a seguir "SE", traduzido, repito, por Álvaro Maia, em 1951, há 65 anos, portanto.

                                   "SE"

SE ÉS CAPAZ DE CONSERVAR O TEU BOM SENSO E A CALMA,
QUANDO OS OUTROS OS PERDEREM, E TE ACUSAM DISSO,
SE ÉS CAPAZ DE CONFIAR EM TI, QUANDO DE TI DUVIDAREM
E NO ENTANTO PERDOARES QUE DUVIDEM,

SE ÉS CAPAZ DE ESPERAR, SEM PERDERES A ESPERANÇA
E NÃO CALUNIARES OS QUE TE CALUNIAM,
SE ÉS CAPAZ SENDO ODIADO, DAR TERNURA,
TUDO SEM PENSAR QUE ÉS SÁBIO OU UM MODELO DOS BONS,

SE ÉS CAPAZ DE SONHAR, SEM QUE O SONHO TE DOMINE,
E PENSAR, SEM REDUZIR O PENSAMENTO A VÍCIO,
SE ÉS CAPAZ DE ENFRENTAR O TRIUNFO E O DESASTRE, 
SEM FAZER DISTINÇÃO ENTRE ESTES DOIS IMPOSTORES,
SE ÉS CAPAZ DE OUVIR A VERDADE QUE DISSESTE,
TRANSFORMADA POR CANALHAS EM ARMADILHAS AOS TOLOS,
SE ÉS CAPAZ DE VER DESTRUÍDO O IDEAL DA VIDA INTEIRA
E CONSTRUÍ-LO OUTRA VEZ COM FERRAMENTAS GASTAS,

SE ÉS CAPAZ DE ARRISCAR TODOS OS TEUS HAVERES
NUM LANCE CORAJOSO, ALHEIO AO RESULTADO,
E PERDER E COMEÇAR DE NOVO TEU CAMINHO,
SEM QUE OUÇA UM SUSPIRO QUEM SEGUIR AO TEU LADO,

SE ÉS CAPAZ DE FORÇAR TEUS MÚSCULOS E NERVOS
E FAZE-LOS SERVIR SE JÁ QUASE NÃO SERVEM,
SUSTENDO-TE A TI, QUANDO NADA EM TI RESTA,
A NÃO SER A VONTADE QUE DIZ: ENFRENTA!

SE ÉS CAPAZ DE FALAR AO POVO E FICAR DIGNO
OU DE PASSEAR COM REIS CONSERVANDO-TE O MESMO,
SE NÃO PODE ABALAR-TE AMIGO OU INIMIGO
E NÃO SOFREM DECEPÇÃO OS QUE CONTAM CONTIGO,
SE PODES PREENCHER TODO MINUTO QUE PASSA
COM SESSENTA SEGUNDOS DE TAREFA ACERTADA,

SE ASSIM FORES MEU FILHO, A TERRA SERÁ TUA,
SERÁ TEU TUDO QUE NELA EXISTE
E NÃO RECEIES QUE TE O TOMEM
MAS (AINDA MELHOR QUE TUDO ISTO)
SE ASSIM FORES, SERÁS UM HOMEM .

      Que maravilha! Ao mesmo tempo em que o autor é firme nas suas palavras, por um lado, por outro, é tenro no objetivo, deixando escapar a primeira pessoa do singular, para prender-se à segunda. Se o "tu" for capaz de superar tantas adversidades com serenidade, será assim (e no fim), um ser humano digno de louvor.
      Lembro-me, há alguns anos, de ter encontrado um simples pedaço de papel e nele grafada uma citação genial, cujas palavras eram estas: "Senhor, dai-me as bênçãos da sabedoria e da religião, se Vos aprouver, mas acima de tudo, deixa-me ser um homem"  (Peço desculpas, pois no momento não tenho o nome do autor, mas vou procurá-lo no meu arquivo de papeis).

       EM TEMPO: Dedico este artigo, principalmente o poema "SE", inteiramente ao jovem pernambucano David Xavier Barros, que no próximo mês de dezembro, irá colar grau em Medicina pela Universidade Federal de Pernambuco, no Recife. Quando do exercício da sua profissão faça valer o juramento que irá fazer em cumprimento dela, em prol daqueles que dele irão precisar na longa estrada da vida.




REFERÊNCIAS

1. Álvaro Maia: Uma "Canção de Fé e Esperança. 70 anos depois. A Crítica, Caderno Especial, 19  de fevereiro de 1993.
2. Livro celebra 90 anos da Poesia de Álvaro Maia, por Esterffany Martins. Amazonas EM TEMPO, Caderno  Plateia -C5, 27  de setembro de 2016.


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