Chorei por ti, Argentina

     Elizabeth Santos Leal de Carvalho, mais conhecida por Beth Carvalho, cantora e compositora, é carioca da cidade do Rio de Janeiro, 70 anos de idade (nasceu no dia 5 de maio de 1946). Com mais de 50 anos de carreira nos gêneros MPB e Samba, é uma das artistas mais influentes do Brasil e possui uma vasta discografia. Além do mais, sempre acreditou nos novos talentos da música e lançou vários músicos que hoje são destacados cantores e/ou compositores do cancioneiro brasileiro.
      No final de 1986, chegou às discolândias de todo Brasil, "Beth", novo LP de Beth Carvalho (o 15º disco em 21 anos de carreira), contendo 13 músicas e gravado nos estúdios da RCA. No disco, duas participações especiais: Zeca Pagodinho e Mercedes Sosa. As composições são de vários autores, equivalente a dois times de excelente futebol, como Luiz Carlos da Vila, em "Nas Veias do Brasil"; Arlindo Cruz/Zeca Pagodinho/Acyr Marques, em "Dor de Amor"; Almir Guineto/Adalto Magalha, em "Corda no Pescoço"; Jorge de Altinho, em "Eu Quero Mais"; Sombrinha/Adilson, em "Fogo de Saudade"; Cartola/Regina Werneck, em "Espero Por Ti"; León Giaco/Raul Ellwanger, em "Eu Só Peço a Deus"; Tom Jobim/Vinicius de Moraes, em "Chega de Saudade", entre outros.
      O disco foi produzido por ninguém menos que Renato Corrêa, e dedicado "à amiga e grande intérprete Nara Leão". Fotografias de Walter Firmo. Capa de André Teixeira e Ano Luz Design.
       Certa vez vi o cantor Ed Motta (que é grande colecionador de vinil) dizendo que a arte gráfica utilizada nas capas e contracapas dos LPs, impressiona pela beleza ali estampada. Algo que já não é visto nos CDs, por causa do seu tamanho, principalmente. Verdade. O disco "Beth" é de uma beleza indiscutível.
        Para quem não conhece esse elepê, as minhas observações sobre o mesmo, são estas: na capa está a cantora num vestido bem solto, de cor amarelo laranja, meio cenoura, meio tucumã, sentada numa relva dourada de por do sol, cuja luz é projetada do fundo, fazendo sombra para a frente (nas pernas). Assim, os cabelos ficam da cor do vestido e, juntos, ficam da cor da pele. É artisticamente fenomenal. Isso nos faz lembrar as cores usadas em por Vincent van Gogh, em suas telas. E, para aumentar ainda mais a beleza da arte, da vida, a cantora escancara um sorriso largo, mas espontâneo, mas precisamente na foto da capa do encarte. Para completar essa obra de arte, as duas aparecem abraçadas: Beth e Mercedes. Ambas de vermelho (como os toureiros...), em uma movimentada avenida das capitais Rio de Janeiro, São Paulo ou Buenos Aires (não não referência a respeito).
      Lena Frias (1944-2004), uma das mais importantes jornalistas de música e cultura brasileira em geral, numa página inteira, faz um brilhante comentário sobre a obra em questão. Dela extraí algumas passagens como:
      "Reunir num mesmo elepê Mercedes Sosa e Zeca Pagodinho pode até soar como um negócio meio delirante. Afinal, o que pode haver em comum entre artistas de posturas, línguas e linguagens tão diversas?"
      "Como e para que associar no mesmo espaço de um disco o clima dramático e passionário da extraordinária intérprete argentina, como o jeito malandro e descomprometida nonchalança do nosso pagodeiro?"
       Foi uma grande empreitada. Empreitadas assim,  tão ousadas e contrastantes, que fazem essa artista, ser hoje em dia - em 1986, há 30 anos, portanto -, ser "a mais popular das nossas cantoras. pelo seu alinhamento, recebe agora do povo do samba homenagens e comendas. Sobre todos títulos que atestam o reconhecimento - Rainha do Pagode, Estrela-Guia do Pagode".
      Em depoimento sobre esse encontro - dela com o conteúdo apresentado no LP -. a própria Beth Carvalho diz: "Foi um impacto. Era o samba inteiramente assumido e praticado na raça, na grandeza, na consciência do seu valor. As composições eram musicalmente raras, sofisticadas, sem perder pé no chão. O samba andava envergonhado, até se disfarçava em outros ritmos; os sambistas, durante muito tempo, tiveram todas as portas fechadas,  então, se recolheram aos fundos  dos quintais ".
      Nesse trabalho, a artista esta ainda mais engajada, seja política ou ideologicamente com o país e seus destinos. Assim, como ela se investe de uma latinidade nunca antes revelada em disco.
      É dela a seguinte declaração: "Eu acho importante enaltecer o sentimento de latinidade. Acredito numa América Latina unida contra a exploração econômica e os atentados à nossa liberdade e autodeterminação. Nós, da América Latina temos que nos unir, pois lutamos contra o mesmo inimigo".
       Por isso mesmo - prossegue Lana -, a presença substantiva de Mercedes Sosa, talvez o maior símbolo vivo da resistência na América Latina, em dueto com Beth, num vigoroso "Protesto da latinidade" - EU SÓ PEÇO A DEUS. Latinidade. Negritude. Cobranças".
       O ano contextualizado é 1986. Porém, desde os anos 60, pipocavam em praticamente toda América Latina, as ditaduras militares: Brasil, Chile, Argentina, etc. No Brasil, por exemplo, um antes, em 1985, o último dos 5 generais, que por 21 anos, ficaram se reversardo   no poder, deixa o cargo de presidente da República. Permitindo assim, que o Brasil respirasse o ar da chamada "redemocratização''.   
       É aí que entram em cena os poetas-sambistas Almir Guineto e Adalto Magalha, desafiando a euforia das mudanças em "Corda no Pescoço", com este verso lapidar:
                                        "A grande virada não passa de esboço" .
       "Um protesto brasileiro, uma tomada de posição de solidariedade latina, um manifesto de orgulho de raça, eis as faces deste elepê surpreendente. Nós, brasileiros, temos a sorte de ser a síntese de todas as raças. Por isso somos fortes. Temos que assumir a nossa raça mestiça. A nossa brasilidade. A nossa latinidade", conclui Lena. 
       Diante de tudo isso, comento aqui uma música desse disco, sobre a qual havia feito um resumo em 1995. É "Eu Só Peço a Deus". Porém, para tal é necessário retratar o histórico de sua origem e de seus autores: León Giaco/Raul Ellwanger. 

        León Alberto Antonio Giaco, cantor e compositor argentino, nasceu em 20.11. 1951, na Província de Santa Fé. Caracteriza-se por misturar o gênero folclórico com o rock argentino e pelas conotações sociais e políticas de suas canções em favor dos direitos humanos e solidariedade pelos excluídos. 
       Embora ele tenha iniciado sua carreira ainda muito jovem, em 1965, somente em 1973, a sua vasta discografia teve início com o disco homônimo "León Giaco" e se estende até 2013, com "Verdaderas Canciones de Amor".
       Em 1978, compôs a majestosa "Sólo Le Pido a Dios" , época em que seu país vivia a fase mais negra do regime militar. Ms foi no ano seguinte que Mercedes Sosa fez seus versos (de León) chegarem em toda América Latina. Em 1986, essa canção foi gravada por Beth Carvalho; e, 2006, por Luciano Pereyra, entre outras artistas. 

       Raul Moura Ellwanger, músico e compositor brasileiro, nasceu em Porto Alegre, RS, em 17.11.1947. No ano de 1966, aos 19 anos de idade, iniciou sua carreira artística no meio universitário. Em 1968, aos 31 anos, quando era estudante de Direito da PUC-RS, foi um dos articuladores da FGMP - Frente Gaúcha da Música Popular. Nesse mesmo ano, sua composição "O Gaúcho" foi finalista do Festival  da TV Excelsor-RJ, com uma letra provocativa à ditadura militar, como pode ser constatado nestes versos:
                                               "Pros milicos trago estrago,
                                                 Pro inimigo outro balaço..."
Raul participou dos movimentos de esquerda e foi perseguido pelo regime militar, mas nunca mudou de opinião sobre o que pensava da ditadura e dos ditadores. É vasta a sua obra musical. É dele a melodia de "Eu Só Peço a Deus", em parceria com León Giaco, que é o autor da letra. 

      Mercedes Sosa, cantora argentina  (uma das maiores vozes latinas americanas), nasceu em San Miguel de Tucumãn, a 9 de julho de 1935 e morreu em Buenos Aires em 4 de outubro de 2oo9. Uma das mais famosas artistas da América Latina. A sua música tem raízes na música folclórica argentina.  Ela se tornou uma das expoentes do movimento conhecido como Nueva Canción. Apelidada de La Negra pelos fãs, devido à ascendência ameríndia (no exterior acreditava-se erroneamente que era devido a seus longos cabelos negros), ficou conhecida como a voz dos "sem voz".
       Após a ascensão da junta militar do general Jorge Videla em 1976, Sosa, que era ativista do peronismo de esquerda, foi revista e presa no palco durante um concerto em La Plata em 1979, assim como seu público. Nesse mesmo ano lança "Sólo Le Pido a Dios",
       Banida em seu próprio país, ela se refugiou em Paris e depois em Madri. Em 1982, retornou à Argentina, vários meses antes do colapso do regime ditatorial como resultado da fracassada Guerra das Ilhas Malvinas contra a Inglaterra. Ainda na década de 80 Mercedes fez parcerias musicais com muitos artistas latinos. Do Brasil, por exemplo, foram vários os duetos. Entre eles, nomes como de Raimundo Fagner, Milton Nascimento, Daniela Mercury, Caetano Veloso e Beth Carvalho.
      Vamos, portanto, à Eu só peço a Deus, em português (não encontrei nenhum registro de quem é essa tradução).

                                             EU SÓ PEÇO A DEUS

EU SÓ PEÇO A DEUS
QUE A DOR NÃO ME SEJA INDIFERENTE
QUE A MORTE NÃO ME ENCONTRE UM DIA
SOLITÁRIO SEM TER FEITO O QUE EU QUERIA

EU SÓ PEÇO A DEUS
QUE A INJUSTIÇA NÃO ME SEJA INDIFERENTE 
POIS NÃO POSSO DAR A OUTRA FACE
SE JÁ FUI MACHUCADO BRUTALMENTE 

EU SÓ PELO A DEUS
QUE A GUERRA NÃO ME SEJA INDIFERENTE
É UM MONSTRO GRANDE E PISA  FORTE
TODA POBRE INOCÊNCIA DESSA GENTE

EU SÓ PEÇO A DEUS
QUE A MENTIRA NÃO ME SEJA INDIFERENTE
SE UM SÓ TRAIDOR TEM MAIS PODER QUE UM POVO
QUE ESTE POVO NÃO ESQUEÇA FACILMENTE

EU SÓ PEÇO A DEUS
QUE O FUTURO NÃO ME SEJA INDIFERENTE
SEM TER QUE FUGIR DESENGNADO
PRA VIVER UMA CULTURA DIFERENTE

Sólo le pide a Dios
Que la guerra no me seja indiferente
Es un monstro grande y pisa fuerte
Toda la pobre inocencia de la gente.

         Imagine você essas duas vozes juntas num mesmo compasso, num mesmo tom, mas em sotaques nitidamente diferentes. É de arrepiar. E por cima ainda passa mente da gente aquele filme da brutalidade ditatorial, lá e cá (e em outros lugares latinos e do resto do mundo). Além do mais o arranjo e a regência são de Nicolas Brizuela. No final da interpretação, as duas, formalmente se despedem. E Mercedes num gesto de tão grande humildade, agradece por cantar para o público brasileiro. É incrível!
         Você que acessa os meus singelos comentários, peça a Deus (sempre) que a dor, a injustiça, a guerra, a mentira e o futuro (a palavra chave de cada estrofe) não lhe sejam indiferentes. Numa era "que corre sangue/que reina a confusão/que a humanidade se desumaniza", conforme preconizou Brecht, não se deixe fraquejar. Erga-se e siga em frente.
         Considero esse disco "Beth: 30 anos depois" (esse título é meu), uma raridade, principalmente o encarte. Mas isso não impede que você  faça uma busca e adquira o seu. Tenho um colega de trabalho, Fernando de Lima Santana, que apesar de leigo, como eu, é um apaixonado por samba, aliás por toda a boa música, essencialmente a afro-brasileira. Acadêmico de formação superior é um excelente técnico. Perspicaz e muito inteligente, sempre está pesquisando a história do Carnaval Brasileiro e as origens do Samba. Ele, é o único que conheço que tem esse LP e o CD, a quem dedico esta pesquisa. Ela poderá trazer algo a mais aos seus estudos musicais.  


       Referências
       1. LP e Encarte "Beth", de Beth Carvalho, gravadora RCA, p. 1986,
       2. Bethcarvalho. com. br
       3. Cabmn. blogspot. com. br
       4. www. samba-choro. com br (Lana Frios)
       5. pt. wikipedia. org
       6. www. rock. com. ar/artistas
      


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