Divino Cartola

      Você sabe quem  foi Angenor de Oliveira? Foi ele mesmo, o Cartola (1908-1980), cantor, compositor e instrumentista carioca. Nasceu no Catete no dia 11.10.1908 e morreu no dia 30.11.1980, aos 72 anos de idade.
      Aos 11 anos de idade, mudou-se com a família para a favela do Morro de Mangueira, no lugar conhecido por Buraco Quente. Algum tempo depois, morreria sua mãe, Ada Gomes, e o pai, Sebastião Oliveira, expulsava de casa o garoto rebelde.
      Sozinho no mundo aos 15 anos. Negro, pobre, desprovido de beleza física, semianalfabeto e sem trabalho, caminhava à margem dos privilégios. Tudo indicava que aquele jovem estava fadado ao subemprego. Contudo, começou a trabalhar numa tipografia. Depois foi pedreiro, pintor de paredes, guardador e lavador de carros, vigia de edifícios e contínuo de repartição pública.
      Como pedreiro, por exemplo, achava bonito ficar nos andaimes mexendo com as moças que passavam lá embaixo. Como o pó do cimento grudava nos seus cabelos, arranjou um chapéu-coco para protege-los. Do chapéu, que provocava brincadeiras dos colegas, veio o apelido de "Cartola".
      No entanto, garante o jornalista e pesquisador da MPB, José Ramos Tinhorão, o seguinte: "Desprotegido da sorte, Cartola soube, como poucos, retirar de suas desvantagens o vigor da criação. E seu puro talento instintivo transpôs da vida para sua obra lições de beleza e de sabedoria".
     Sua evolução artística é algo impressionante no mundo da música brasileira, ou seja, singular. Começou tocando cavaquinho e chegaria ao fim da vida tocando violão refinadíssimo. Além da poesia num lirismo impecável na melhor tradição popular,  nos seus mais de 50 anos de carreira.
     Avesso às lisonjas, apesar do seu nome ser cantado em dezenas de sambas. Por sinal, mereceu do jornalista Lúcio Rangel o título de Divino Cartola. Mas, Angenor, como um mágico capaz de sacar algo inédito da cartola e inesgotável do artista, em 1974, com quase 70 anos de idade, surpreenderia a todos, com uma revelação: o Cartola cantor.
     "A obra de Cartola é uma prova de vida e irrefutável de que um gênero musical pode evoluir sem perder suas características básicas: sempre fiel às suas raízes populares, o essencial compositor demonstrou, mais uma vez, que o samba pode extrapolar seu "primitivismo" rítmico e alcançar insuspeitada riqueza melódica, aliada a letras que são obras-primas poéticas".
     Fica claro que Tinhorão está sendo verdadeiro sobre o mangueirense, face a vastidão de riqueza da vida do compositor, do ser humano, do carnavalesco. Mas quando o compositor é procurado nas rodas de samba e não está entre os bambas, logo vem a constatação: "Cartola estava lá, com a sua companheira Zica, numa casinha situada na subida do Morro da Mangueira, construindo em segredo, com seu violão de achados melódicos às vezes quase divinatórios, momentos de poesia destinados a ficar como lições de beleza, de filosofia e  de sabedoria de vida. Momentos esses, aliás, quase sempre nascidos - de flagrantes colhidos no dia-a-dia, tal como aconteceu quando Zica, sua mulher, admirada com a facilidade com que as rosas se multiplicavam em Jacarepaguá, lhe perguntou a razão, e ele respondeu: "sei lá, as rosas não falam...". E uma semana depois apareceu com o famoso samba em que aproveitava o mote para fazer o poeta enamorado dizer à amada indiferente a sua dor:
 
                              Queixo-me às rosas
                              Mas, que bobagem, as rosas não falam
                              Simplesmente as rosas exalam
                              O perfume que roubam de ti."
 
     Em 1928, quando, então, era um jovem de apenas 20 ano, a Mangueira constituiu sua escola de samba. O nome "Estação Primeira de Mangueira", foi escolhido por ele, e, sugeriu as cores: verde e rosa. Eleita a diretoria, ficou assim composta: Saturnino Gonçalves (presidente). Marcelino José Claudino, Francisco Ribeiro, Pedro Caymmi, Carlos Cachaça e Cartola (membros). No ano seguinte, com o samba Chega de Demanda, a Mangueira ganhou o primeiro desfile semioficial, que ocorreu na praça Onze.
     Daí em diante, Cartola passou a ser procurado para vender suas composições. O primeiro comprador foi o cantor Mário Reis, a quem vendeu, em 1929, Que Infeliz Sorte, por 300 mil-réis. Em 1930, a música foi gravada pela dupla Mário Reis - Francisco Alves. Sabe-se, que algum tempo depois, Francisco Alves comprou Tenho um Novo Amor; Divina Dama; e Qual Foi o Mal que Te Fiz.
     Assim nasceu o compositor, sem, no entanto, deixar de ser pedreiro. Era nesse ofício que sobrevivia e sustentava a mulher Deolinda e a filha dela, Ruth. Até que, em 1948, aos 40 anos de idade, viu a Mangueira sagrar-se campeã, com Vale de São Francisco, de sua autoria com o parceiro  Carlos Cachaça. Mas, nesse mesmo ano, enfrenta sérios problemas de saúde, ao ponte de abandonar o trabalho de pedreiro. Em péssima situação financeira, mudou-se para o Caju e, depois, para Nilópolis, onde trabalhou no que pôde: de biscateiro a vendedor de picolé.
      Alguns anos depois, no início dos anos 50, o jornalista e escritor Sérgio Porto (o Stanislaw Ponte Preta) encontrou Cartola em Ipanema, como guardador e lavador de automóveis e conseguiu lhe  um emprego de contínuo numa repartição pública.
      Já restabelecido, o compositor muda-se para Mangueira. Como enviuvara de Deolinda, passou a viver com Euzébia Silva do Nascimento, a Zica, cunhada do amigo e quase irmão Carlos Cachaça. De volta àquele Morro, os amigos voltaram à sua casa. Uns para ouvir e fazer músicas, outros para degustar a deliciosa comida feita por D. Zica. A combinação era tão boa que, em 1964, o casal inaugurou o restaurante Zicartola. Nesse mesmo ano, depois de 12 anos de companheirismo, casou-se legalmente com Zica, em cerimônia que foi notícia em todos os jornais cariocas. Aliás, foi nessa ocasião, ao tratar dos documentos que descobriu se chamar Angenor, e não Agenor, como sempre pensava.
      O Zicartola se tornaria famoso. Lá frequentavam: Zé Kéti, Nelson Cavaquinho, Ismael Silva, Elizeth Cardoso, Clementina de Jesus, João do Vale, Paulinho da Viola (um dos que iniciaram carreira artística lá), Dorival Caymmi, Sylvinha Telles, entre outros. Foi nessa época que Cartola viu duas de suas músicas serem gravadas: O Sol Nascerá, por Nara Leão e Sim, por Elizeth Cardoso.
     Contudo, o sucesso do Zicartola durou pouco e suas portas foram fechadas. O casal voltou a enfrentar dificuldades financeiras. Porém, em 1970, o Estado da Guanabara lhe doou um terreno em Mangueira, onde Cartola construiu sua casinha. As coisas estavam melhorando.
     Em 1974, aos 65 anos de idade, ele gravou seu primeiro LP. Três anos depois, outro. Na mesma gravadora (a Marcus Pereira). Os dois discos continham obras-primas como Tive, Sim; O Mundo É um Moinho; e As Rosas Não Falam, etc.
     Aos poucos o compositor, ia se tornando mais elaborado, melodicamente rico e lírico em suas composições. Isso explica o porquê dos melhores sambas serem dessa última fase. Por exemplo, ele considerava Divina Dama sua melhor composição. Passou sua preferência para a inefável As Rosas Não Falam. Ele só voltou a gravar disco em 1978, pela gravadora RCA, cuja faixa-título do LP é Verde que Te Quero Rosa. Do mesmo disco consta Nós Dois, que fez para Zica antes do casamento, e na qual exaltava um amor que duraria até o fim de sua vida.
     Por essa época, extirpou a tireóide,  por causa de um câncer. Após a cirurgia, parecia que tudo ia se resolver. Tanto que naquele mesmo ano, 1978,  lançou Cartola, Setenta Anos. O  trabalho reafirmava um artista mais voltado para a qualidade e espontaneidade de suas músicas à vencer concursos de samba-enredo.
      A poesia de Cartola não surgiu apenas de sua inspiração peculiar. Ele foi beber na fonte da poesia realista de Guerra Junqueira. Assim como foi influenciado por Heitor Villa-Lobos e Pixinguinha. "Isso quer dizer que foi um compositor que nunca perdeu a elegância, o apuro, o lirismo, a inspiração. Sem trair as raízes de sua arte ou deturpar suas bases melódicas, rítmicas, ou harmônica, renova-se em cada música que compunha. Tanto que já se disse não haver samba que seja mais samba que um samba de Cartola".
     O inesquecível poeta gaúcho Mário Quintana, declamou: "Quem busca, unicamente a glória, não a merece". Ainda bem que Cartola se quer cogitou a glorificação.  Nem para si, nem para sua arte. Grandezas materiais? Também não. Apesar de todo reconhecimento dado a sua obra, não chegou a enriquecer.
      Como pedreiro, soube lapidar como ninguém a pedra que guardava os segredos da sua poesia; como pintor, soube dar o tom (e som) das suas melodias. Assim, estava bem acabada a construção da sua carreira artística. Uma carreira cada vez mais sólida, sempre. Mas, com as portas abertas, é claro, para receber a visita de gerações de artistas, que lá foram beber uma água límpida, cristalina: de Elizeth Cardoso à Marisa Monte; de Nara Leão à Teresa Cristina ( e saiba: a Cristina e portelense); de Carmen Miranda ( que levou os sambas do mestre para os EUA) à Beth Carvalho; de Cazuza a Ney Matogrosso e vice versa; de Paulinho da Viola a Raimundo Fagner, entre outros.
      Por falar em Ney, em 2002, ele lançou pela Universal Music o CD "Ney Matogrosso Interpreta Cartola", com 12 músicas. O trabalho (como sempre) é impecável. A interpretação dispensa comentários. Porém, o camaleão queria mais: em 2003 gravou outro CD - "Ney Matogrosso Interpreta Cartola ao Vivo". São 20 canções de arrepiar. Aí, não há como o ouvinte disfarçar a emoção, principalmente, em O Mundo É um Moinho", como estes versos marcados pela excepcional beleza melódica:
   
                   Ainda é cedo, amor
                   Mal começaste a conhecer
                   a vida
                                 (...)
                   Ouça-me bem, amor
                   Preste atenção, o mundo  
                   é um moinho
 
      Na opinião de vários críticos, Não Quero Mais Amar a Ninguém  (Cartola, Carlos Cachaça e Zé da Zilda), é uma das melhores composições populares de todos os tempos. No entanto, esse samba composto por volta de 1935 ficou ignorado do público durante quase 40 anos: em 1974 foi descoberto e gravado por Paulinho da Viola. Leia a letra na íntegra, abaixo:
 
                 NÃO QUERO MAIS AMAR A NINGUÉM
 
NÃO QUERO MAIS AMAR A NINGUÉM
NÃO FUI  FELIZ O DESTINO NÃO QUIS
O MEU PRIMEIRO AMOR
MORREU COMO A FLOR AINDA EM BOTÃO
DEIXANDO ESPINHOS QUE DILACERAM MEU CORAÇÃO
 
SEMENTE DE AMOR SEI QUE SOU DESDE NASCENÇA
MAS SEM TER BRILHO E FULGOR, EIS A MINHA SENTENÇA
TENTO PELA PRIMEIRA VEZ UM SONHO VIBRAR
FOI BEIJO QUE NASCEU E MORREU SEM SE CHEGAR A DAR
 
ÀS VEZES DOU GARGALHADAS AO LEMBRAR DO PASSADO
NUNCA PENSEI EM AMOR, NUNCA AMEI NEM FUI AMADO
SE JULGAS QUE ESTOU MENTINDO, JURAR SOU CAPAZ
FOI SIMPLES SONHO QUE PASSOU E MADA MAIS
 
     Fantástico! Que beleza de versos! A estrutura gramatical do poema, impressiona e muito, o leitor.
Não é fácil chegar-se a um ponto final por parte de qualquer um que queira estudar Angenor ou Cartola. Seja sua trajetória como pessoa, seja como artista, ou como carnavalesco. E mais: com apenas 4 discos gravados e uma enorme gama de shows realizados, Cartola permitiu-se apenas trocar a casinha de 8 por 3,5 metros de Mangueira por um confortável bangalô em Jacarepaguá. Onde já entrou doente e de onde saiu apenas para morrer na Clínica São Carlos, em 30 de novembro de 1980. Se Angenor vivo estivesse, no próximo mês estaria completando 108 anos de vida. Como vivo está Cartola, assim continuará por mais tempo que esse já passado. Muito mais!
     Até porque seu último pedido está na tábua da memória de cada um dos seus fãs. Antes de morrer, pediu para ser lembrado por três de suas composições: As Rosas não Falam; O Mundo É um Moinho. e O Inverno do Meu Tempo.
 
 
 Referências
1. Cartola. Coleção História da MPB - Grandes Compositores. Abril Cultural, SP, p.1982.
2. Cartola. Coleção MPB Compositores (encarte/CD). Ed.Globo/ RGE Discos, SP, vol.12. p.1997.
3. ''Ney Matogrosso Interpreta Cartola'', Universal Music, p. 2002.
4. ''Ney Matogrosso Interpreta Cartola ao Vivo'', Universal Music, P.2003
 
 
 
 
 
              
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