Goethe, a vida oscilante entre a sombra e a luz

      Li Goethe pela primeira vez, há mais de 20 anos. Foi Fausto e Werther. Fiquei fascinado. Assim como ficara com Dom Quixote, de Cervantes e Esau e Jacó, de Machado de Assis, à época. Até então, não sabia que Fausto era considerado uma obra-prima da literatura mundial. Já foi chamado de o "Poema do mundo", por ser longo, com 12.111 versos, cujo autor levou quase 60 anos para conclui-lo.
      Segundo Adriano Scandolara, Goethe "é um daqueles nomes tão portentosos que eu não sei nem por onde começar a falar dele (...). Podemos enxergá-lo como um dos últimos dos polímatas (aquele que estudou ou sabe muitas ciências), tendo se envolvido não só com literatura (tanto em verso quanto em prosa e crítica), como ficou mais conhecido, mas também com Biologia, especialmente Botânica e anatomia), Geologia (era fascinado por rochas) e Física (teoria das cores), e chegou até ser político".
       A obra, da qual extraí o conteúdo (entre aspas), traz este comentário da editora: "Livros que colidem citações existem vários, mas este se distingue pela preocupação que orientou os passos do autor. Ao selecionar duzentas frases célebres, Sílvio Ferraz de Arruda buscou trabalhar com autores que fossem relacionados de alguma forma com a história de seus países.  E revestiu este livro de um caráter didático, ligando a frase com a história da nação e a história de vida de seu autor".
      "Este livro é indicado não só para professores atentos e empenhados em expandir as áreas de interesse de seus alunos como, e, principalmente, para quem quiser investir em cultura, aumentando seu universo de conhecimentos".
      A obra em questão é realmente interessante e necessária "em expandir conhecimentos". Por essa razão, selecionei a frase de número 141: "ABRE TAMBÉM A OUTRA FOLHA PARA FAZER ENTRAR UM POUCO MAIS DE LUZ - GOETHE".

       "João Wolfgang Goethe, o mais notável dos poetas alemãs, nasceu em 1749 e faleceu em 1832. Escreveu "Fausto", "Werther", "Hermann e Dorotéia", "Anos de Aprendizagem", "Wilhelm Meister", "Efigênia", "Elegias Romanas" e outras obras. As suas primeiras produções granjearam-lhe a amizade de Carlos Augusto, duque de Weimar, que o cumulou de favores. Viajou com ele pela Suíça, Itália, França e mais tarde fê-lo seu ministro de estado. Foi grande amigo de Schiller. A carreira de Goethe, o maior escritor da Alemanha moderno, oferece a imagem de um desenvolvimento contínuo e harmonioso.  Admira-se nele a elegância do estilo, a par de um raro poder de imaginação e de elevação das ideias. Foi também um sábio de grandes méritos e pressentiu muitas das descobertas científicas contemporâneas. Em 1809, assistiu as festas de Erfurt como ministro do duque de Weimar e teve com Napoleão I uma conversa que ficou célebre. Essas palavras foram dirigidas à sua criada, pouco antes de morrer (22 de março de 1832). A frase "Mais Luz!" que segundo alguns historiadores, o grande poeta teria pronunciado antes de expirar não passa de mero invento popular que a tradição se encarregou de disseminar. Pedro de Almeida Moura no seu excelente "Perfil de Goethe" descreve minuciosamente os últimos dias do grande vate  nos capítulos intitulados "Goethe Adoece" e o "Último Dia" que, data venia, reproduzimos aqui: "Em princípios de março de 1832, Goethe apanhou um resfriado. No dia 16, sentiu-se mal e teve de deitar-se. Chamado o médico da Corte, Conselheiro Dr. Vogel, este achou que o caso era grave e inspira cuidados. Parecia, não obstante, que o mal ia ceder: a crise passou, Goethe se levantou e quase conseguiu retomar suas ocupações habituais. No dia 19 para 20, porém, novo acesso se manifesta, mais intenso, seguido de calafrios, forte sensação de angústia e cruciantes dores no peito. A fisionomia se altera, os olhos sumidos nas órbitas, perdem o brilho. O doente, arquejante, em estado de semiconsciência, fala com dificuldade e sem nexo. O médico intervindo com a medicação adequada, consegue minorar-lhe as dores. O doente acalma-se e, dentro em pouco, adormece. No dia seguinte, e na manhã imediata, parece apresentar melhoras. Nesta manhã, a derradeira em que abria os olhos para o mundo, ainda manifesta o desejo de ler: pede um livro e folheia-o a esmo, dando mostra de grande desânimo. Aceita o que lhe servem, mas logo depois de haver comido e bebido alguma coisa, inquire receoso: "Não acham que serviram vinho demais para mim?". Passados uns momentos, chama pelo seu secretário e, com o auxílio desde e do criado de quarto, consegue pôr-se em pé, diante da poltrona em que havia passado a noite. Que dia é hoje? Perguntou. Vinte e dois, Excelência, respondeu o secretário. Pois bem, quer dizer que a primavera já anda por aí; tanto melhor para nós, que assim havemos de sarar mais depressa... São nove horas e poucos minutos da manhã. Goethe senta-se, de novo, na poltrona, reclina a cabeça e começa a cochilar, delirando, a meia voz: "Veja que linda cabeça de mulher, de cabelos negros encaracolados, que tonalidade magnífica, em fundo escuro..." Fica em uma semidormência por alguns minutos, depois, entreabrindo as pálpebras, reclama: "Abre também a outra folha para fazer entrar um pouco mais de luz". Fala e recosta-se, de novo. E o delírio continua: "Frederico, dê-me aquela pasta ali, com os desenhos. Não o livro, não... só a pasta..." Como ninguém encontrasse pasta alguma junto da cama e lhe respondessem negativamente, Goethe, já lúcido, comenta: "Então, foi ilusão minha..." E adormeceu. Às dez horas acordou e pediu um gole de vinho no que foi prontamente atendido. Acomodou-se, e voltando o olhar para a nora, que está a seus pés, fala-lhe, com carinho. "Minha filha, dê-me cá sua patinha..." Foram suas últimas palavras. Otília estendeu-lhe a mão. Goethe apertou-a, demoradamente, sem dizer palavra. Soergueu ainda a mão direita e, com o dedo indicador traçou em silêncio, uns sinais no ar, que alguém interpretou como sendo duplo V, maiúsculo - W. A sala continua em profundo silêncio. O doente acalmou-se e acomodou a cabeça no canto esquerdo da poltrona. Ninguém percebeu o que se passava. Quando deram acordo de si, Goethe estava morto. Eram 11 e meia da manha do dia 22 de março de 1832".

       Em outra narrativa, o autor diz: "Assim como a de Fausto, a vida de Goethe também oscilara entre a sombra e a luz. Em 22 de março de 1832, aos 83 anos, Goethe está sentado em uma poltrona, ao lado da cama. Seu estado de saúde havia piorado nos últimos dias, por causa de um resfriado. Começa a amanhecer, mas o quarto ainda está escuro. Goethe respira com dificuldade. Faz um sinal ao criado, como se estivesse pedindo algo. O criado aproxima-se e ouve suas últimas palavras: "Abram a janela do quarto para que entre mais luz".

       São, portanto, duas versões de uma história real; sobre um escritor genial. Mas, o sentido descrito é o mesmo. O nascer e o morrer (sem perder de vista o viver), são verbos da mesma conjugação. Se a vida é maleável com alguns, a morte é implacável com todos.  Porém, em se tratando  de um ser elegante com as palavras e fantástico  com as ideias literárias que foi o poeta Johann Wolfgang Goethe, a morte concedeu-lhe uma exceção, deixando-o viver mais dois ou três dias, para que pudesse, entre outras palavras, balbuciar: "Mais Luz!". Ou seja, "Mais Vida!".  



Referências
1. Arruda, Sílvio Ferraz de, Frases célebres notáveis. Nobel, 2. ed. SP, 1998, pp. 112/113.
2. Goethe: vida e obra. Col. Obras-Primas. Fascículo, p. 319. Nova Cultural, SP, 2003.
3. www. citador. pt/poemas
4. escamandro. wordpress. com 
5. Olha aí 13! A Crítica (local), 13.08.2005
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