Glauber, a solidez da rocha

     Você sabe quem foi Glauber Pedro de Andrade Rocha? Foi ele mesmo, o Glauber Rocha (1939-1981). Escritor, jornalista, cineasta e crítico de cinema. Nasceu em Vitória da Conquista, Bahia e morreu no Rio de Janeiro, RJ, aos 42 anos. O nome, escolhido pela mãe, Lúcia Mendes, foi uma homenagem ao cientista descobridor do sulfato de sódio, Rudolf Glauber (alemão), cuja descoberta também se chamou "Sal de Glauber". Principal nome do Cinema Novo. Considerado por muitos "o maior cineasta brasileiro de todos os tempos".
      Em 1946, aos 7 anos, já alfabetizado pelos pais, entra na escola. Cursa o primário num colégio católico de sua cidade natal. No ano seguinte, muda-se com a família, para Salvador. Antes de completar 10 anos de idade, toma parte de uma peça infantil encenada no seu colégio, El Hilito de Oro, e recebe o papel principal.  
      Daí em diante, aos poucos, envolve-se cada vez mais com as coisas do mundo cinematográfico. Em 1956, colabora no curta-metragem Um Dia na Rampa, de Luiz Paulino dos Santos. Aos 18 anos, ingressa na Faculdade de Direito da Universidade da Bahia, onde fica apenas três anos. De lá saiu para exercer a profissão de jornalista. Viaja para o Rio de Janeiro onde foi convidado para trabalhar com o cineasta Nelson Pereira dos Santos.
       Em 1959, aos 20 anos, casa-se com a colega de Universidade e atriz, Helena Ignes (a união dura pouco e acaba em 1961). Nesse mesmo ano, inicia as filmagens de seu segundo curta, Cruz na Praça. Uma conquista sua: compra seu primeiro aparelho de cinema, uma câmara ARYFLEX de 35 mm.
      Seu primeiro longa-metragem foi feito em 1961: Barravento, sobre uma comunidade de pescadores baianos explorados. O filme é premiado em "Ópera Prima", na Tchecolosváquia (uma república da Ex-Urss), em 1962. No ano seguinte Barravento segue para Festivais em Londres e EUA. Em 1964, Deus e o Diabo na Terra do Sol,  é exibido em Cannes. Não é premiado, mas, os maiores elogios dos jornais L'Humanité e o Le Monde, foram dirigidos à película brasileira.  Porém, num segundo momento, vieram as premiações do exterior e do próprio Brasil.
      Em 1965, aos 26 anos, entre outras atividades diretamente voltadas para o cinema (escreve o texto-manifesto A Estética da Fome; participa da criação da Mapa Filmes, etc), Glauber realiza o curta Amazonas, Amazonas, com tomadas feitas no centro histórico de Manaus (AM). Por sinal é seu primeiro filme colorido.
       Ainda naquele ano, no mês de novembro, é preso junto com outros intelectuais - Antônio Callado, Carlos Heitor Cony e Joaquim Pedro de Andrade -, que protestavam contra o regime militar em frente ao Hotel Glória, Rio de Janeiro, sede de uma reunião da OEA. Da Europa,  François Truffaut, Jean Luc-Godard, Alain Resnais e outros, enviaram telegrama de protesto, contra a prisão, ao presidente da república Castelo Branco. 
      Glauber foi um ferrenho opositor a tudo e  a todos que vitimassem o povo com regimes autoritários; com a fome; com o analfabetismo; com as garras do capitalismo, que tornavam a América Latina dilacerada, tanto econômica como socialmente. São dele (Glauber) muitas expressões de efeito impactante naquele momento (e por que não hoje, se de lá para cá, praticamente nada mudou mundo afora?), que tanto o Brasil, como o mundo viviam, por exemplo: "Sou um artista não me exijam coerência".
      No entanto, faço aqui uma dicotomia na cronologia de sua carreira, para reportar-me sobre o filme Amazonas, Amazonas. 
      O ano é 1985. O mês é dezembro. Um periódico local publica: 
      "GLAUBER NO AMAZONAS: A desvairada descoberta". Surpreso, constatei, era mesmo o cineasta Glauber Rocha, mas 
em 1965. Na foto do suplemento, na Praça São Sebastião, em frente ao Teatro Amazonas, ao lado do monumento histórico "Abertura dos Portos às Nações Amigas", estão o cineasta (sem camisa e fumando, como sempre) e uns cinegrafistas.

      O repórter do jornal escreve:
      "Glauber passou pelo Amazonas como um temporal, nada mais justificável: com "Deus e o Diabo na Terra do Sol", ainda muito jovem, 25 anos, tornara-se uma celebridade do cinema. Prêmios internacionais, viagens, devem ter acentuado ainda mais a sua extroversão. Ele passou praticamente todo o mês de dezembro em Manaus. Estávamos em 1965, sob o governo-interventoria  do professor Arthur Cézar Ferreira Reis. 
       A convite do então diretor - geral do Departamento de Turismo e Promoções (DEPOR), Luiz Maximino Miranda Corrêa, Glauber aportou por aqui. Veio fazer um filme promocional sobre o Amazonas, para "vender" o Estado junto às autoridades federais, e acabou realizando "Amazonas, Amazonas", que superou a proposta de um filme propagandístico, oficial, transformando-se num espetáculo de imagens que devem ter levado ao delírio o Glauber que ainda iria realizar "Terra em Transe", "O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro", "Leão de Sete Cabeças", "História do Brasil, Claro" e outros filmes que o colocam na condição de mestre do cinema contemporâneo.
      Esteve exilado, voltou ao País, polemizou até a exaustão com elementos representativos dos pensamentos de Direta ou da Esquerda, e esteve agitando, inclusive, na Televisão, com seu programa "Abertura", que mostrava o Brasil de Glauber, representado pelo crioulo Brizola e o nordestino João.
      No Amazonas, Glauber filmou, viu e ouviu. E não deixou de registrar as nossas impressões.  Elas estão no livro que ele próprio organizou e que foi editado pela Embrafilme/Alhambra: "Revolução do Cinema Novo".
      "Hollywood Tropykal" é um relato delicioso. E como recentemente, tivemos a Mostra "Galuber por Glauber", uma iniciativa do Cineclube Humberto Mauro, sob a competente orientação de André Gatti, vale a pena que possamos conhecer, também, suas reflexões escritas sobre o Amazonas".

       Tenho essas "reflexões escritas" de Glauber sob o título: "Hollywood Tropykal 65", onde ele inicia as suas observações (ou constatações?), falando de "Itacoatiara, interior do Amazonas, vive de casarões do tempo da borracha". É um espetáculo de ponta a ponta do texto. Esse material poderá ser postado oportunamente. 
       Mas, como sempre há "uma pedra no meio do caminho" de cada pessoa ao longo da vida, no início de agosto de 1981, Glauber teve uma pedreira que obstruiu para sempre o caminho por onde a sua vida passaria adiante. Ele estava doente. Depois, muito doente. Lá em Portugal.
       No dia 5 de setembro de 1981 ( dia 5, a data mais importante da História do Estado do Amazonas), chegava em todas as bancas de revistas e jornais do país, a revista Manchete, cuja capa trazia dele uma grande foto acompanhada pelo título: "GLAUBER ROCHA: O drama e a glória de um artista". O cineasta estava morto. Nas páginas 4 a 13, "tudo" sobre a sua vida e a sua arte. Carlos Heitor Cony, escreve um artigo memorável, sob o título: "Glauber Rocha: A serpente no ventre da ovelha".
        Na página 5, foto-destaque a revista noticia: "Aos 42 anos de idade, Glauber Rocha deixou sua marca no tempo em que viveu. O cinema brasileiro esteve presente em peso ao seu enterro na manhã de domingo".
         No índice (p. 3), o jornalista Justino Martins, questiona: "Glauber Rocha era um gênio? ´Há quem duvide. Mas ele tinha, sem nenhuma dúvida, todas as características de um gênio. E o que é um gênio? É um caso biológico, um grau acima do simples talento, uma torrente de inteligência cujo curto circuito é  a loucura. É, enfim. a percepção fora do comum - aquele que merece ver o que os outros não vêem. Glauber era assim, um artista que chorava com o sentimento do mundo, um espírito universal. Pertencia a geração dos anos 60, a última década interessante deste melancólico fim de século. Neste número, registramos sua vida e o seu fim precoce, lamentável. Quanto ao resto, é a Terra em transe".
        Ainda naquela manhã de domingo, o antropólogo Darcy Ribeiro, esteve presente ao enterro de Glauber, e na sua saudação à memória do amigo disse (trecho):

        "Sim, um dia floriu um gênio aqui. Aqui, neste país, ele viveu sua breve vida, sem pele, com a carne viva.  Um dia ele me procurou e passou uma manhã inteira chorando. Glauber chorava a dor que todos nós deveríamos chorar, a dor de todos os brasileiros. A dor de ver crianças com fome. A dor por este país que não deu certo. Glauber chorava a brutalidade, a violência, a estupidez, a mediocridade, a tortura. Chorava, chorava, chorava. Os filmes de Glauber são isso. É um lamento, um grito, um berro. Essa é a herança que fica de Glauber para nós. Essa herança é sua indignação. Ele foi o mais indignado de nós. Indignação com o mundo tal qual é. Indignado, porque, mais do que nós, Glauber podia ver o mundo que vai ser, que há de ser".
      Assim era, assim foi, assim será o pensamento vivo de Glauber. Firme como uma rocha. Assim como Einstein, em alemão, quer dizer "uma pedra", Glauber Rocha que dizer, para quem defende a cultura como um todo, a solidez do rochedo.


Referências
1. Glauber: o drama e a glória de um artista. Manchete, n. 1.533, (rev. semanal), ano 30, RJ, 5.9.81
2. Dicionário Biog. Universal Três, SP, vol. 10, 1983, p. 79.
3. O pensamento vivo de Glauber Rocha, vol. 19 SP, Martin Claret Editores, 1987.
4. Glauber no Amazonas, suplemento JC, Jornal do Commercio, 22.12.85, pp. 1 e 2
      
       
       
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