Negritude Já!

     O idealizador histórico do Dia da Consciência Negra nacional, foi o professor, poeta e pesquisador gaúcho, Oliveira Ferreira da Silveira, falecido aos 67 anos, no dia 01.01.2009, em Porto Alegre. Formado em Letras Pela UFRGS. Professor da rede pública e autor de vários livros. Era integrante do Conselho Nacional da Promoção da Igualdade Racial.
      Segundo ele, a ideia de criar uma data para reverenciar Zumbi e o Quilombo dos Palmares, em substituição ao 13 de maio, Dia da Abolição dos Escravos, surgiu por um grupo de negros, em 1971, uma vez que estavam insatisfeitos com o dia de maio, que não tinha mais significação para os negros.
      Então, ele passou a pesquisa, e encontrou fontes seguras que garantem que Zumbi foi morto no dia 20 de novembro de 1695, em Alagoas. Daí, nasceu o "Grupo Cultural Palmares, cujo objetivo era fazer um trabalho para reverenciar Palmares e Zumbi como algo representativo que 13 de maio".
      Em meados dos anos 70, a nova data começa a ser comemorada em São Paulo e Rio de Janeiro. No final de 78, a assembleia do MNUDR - Movimento Negro Unificado contra a Discriminação Racial, realizada na Bahia, aprovou o 20 de novembro com o dia oficial da celebração da comunidade negra brasileira.
      Oficialmente, o Dia Nacional da Consciência Negra, foi criado pela lei federal n. 10.639/2003, a qual estabelece 20 de novembro como a data nacional no calendário escolar, tornando obrigatório o ensino sobre diversas áreas da História e Cultura afro-brasileira. Entre outros temas, podem ser trabalhados: 1. A luta dos negros no Brasil. 2. A cultura negra brasileira. 3. O negro na sociedade nacional. 4. Inserção do negro no mercado de trabalho. 5. Discriminação. 6. Identificação de ensino, etc. A pauta dessa lei versa, principalmente, sobre questões de discriminação, racismo, xenofobia e etnia.
       Legalmente, o feriado sobre a data abordada, foi criado pela lei federal n. 12.519/2011. Mas, não obriga que a mesma seja comemorada em todas as cidades brasileiras. Pelo menos, 800 Municípios, dos 5.570 existentes, decretaram feriado nesse dia. Em Manaus, AM, a data é festejada desde 2012.
       No Preâmbulo da Constituição Federal de 1988, está tipificado que um Estado Democrático é aquele "destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a realidade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos".
       Essa mesma Constituição, no caput do artigo 5º, garante: "Todos são iguais perante a lei". E, por esse princípio de igualdade, não há distinção de qualquer natureza entre brasileiros e estrangeiros residentes aqui. Assim como também não há inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade das pessoas.
       Ainda no mesmo artigo, inciso XLII, consta: "A prática de racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei. A lei é a federal n. 7.716/1989, cujo artigo 1º sentencia: "Serão punidos, na forma desta lei os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional".
       Na fala final de "O grande ditador", o autor exclama: "Não sois máquinas! Homens é que sois!" Agora exclamo eu: Brasileiros, não faltam leis e regulamentos para banir do país, de uma vez por todas, as suas anomalias históricas, políticas, econômicas e sociais que se arrastam há 5 séculos.
       Em pleno  século 21, ainda vivemos choramingando as mazelas de anteontem, de ontem e de hoje. Ou seja, os problemas do passado e do presente. Qual outro país, além do Brasil e dos EUA, tem uma mancha terrível registrada  nos seus anais, como causas e consequências da escravidão negra? NENHUM. Só para ilustrar. O que aconteceu na África do Sul, entre 1948 e 1994, com a abominável e brutal segregação do Apartheid, foi uma gota d'água, se comparado aos 300 anos de escravidão negra no Brasil.
      Estou me referido a nódoa púrpura que ficou. Aquela que mancha a alma. Que faz latejar o cérebro. Que dilacera a carne e faz descer lágrimas pelo rosto - muitas vezes, invisíveis - daqueles que foram (e são) vítimas do racismo, do preconceito, da intolerância, em todos os sentidos. Ás vezes, essa enxurrada criminosa ocorre de forma velada, com "brincadeiras" vis, mesmo que carnavalescas, como aquela do cantor baiano Luiz Caldas, com seu Fricote: "Nega do cabelo duro/Que não gosta de pentear/Quando passa na baixa do tubo/O negão começa a gritar...". Ás vezes, a manifestação por parte do racista é certeira e contundente: "Macaca!". "Quer comparar a tua cor com a minha?". Ou ainda: "Este ambiente não é para gente do teu tipo...!"
      Essas práticas tem cura? Sim. Só depende de cada um de nós. Muda eu, muda você, mudamos o Brasil e o mundo, para melhor. É uma questão de caráter, de comportamento. Caso contrário, vamos continuar comemorando datas, apenas.
      Há mais de duas décadas, venho insistindo com os educandos, esta mesma oração que criei: "EU ERRO, TU ERRAS, NÓS CONSERTAMOS". É tudo muito direto. Sem essa coisa do eu, tu, ele, nós, vós, eles. Acontece que considerável parcela da sociedade brasileira (com os olhos vendada pelo manto da mediocridade, da ignorância e da hipocrisia) não quer conserta absolutamente nada. Porém, há segmentos sociais, há entidades que fazer a diferença. Querem mudanças. Querem igualdade de direitos. Querem maturidade. O consagrado cantor e compositor Beto Guedes, juntamente com Ronaldo Bastos, em "Sol de Primavera", nos alerta:  "A lição sabemos de cor/Só nos resta aprender..."    
      Um exemplo dessa busca em mudar, melhorar, aprender, está na Escola Estadual Daisaku Ikeda, zona leste de Manaus, que, inserida no contexto da Consciência Negra, sob a coordenação da professora de História, Maria Celestina B. Corrêa, com apoio irrestrito da gestora, docentes e discentes, irá apresentar, dia 22 próximo, no turno noturno, o apoteótico tema: "NEM HERÓIS, NEM HEROÍNAS, APENAS CIDADÃOS QUE LUTARAM POR UMA SOCIEDADE JUSTA".
      Entre esses que fizeram a diferença e clamaram por uma sociedade justa, estão: Tereza de Benguela, Preta Simoa, que incansavelmente lutou pela abolição no Ceará, Maria Firmino dos Reis, Francisca da Silva de Oliveira (Xica da Silva), Zózimo Bulbul, Manoel dos Reis Machado (Mestre Bimba), Thereza Santos, entre outros.
       Por exemplo, Thereza Santos (1930-2012), foi, acima de tudo, uma guerreira. Sua vida é uma lição para todos nós. Negra, nascida no Rio de Janeiro, foi teatróloga, atriz, professora, filósofa, carnavalesca, e militante pelas causas dos povos africanos, principalmente dos afro-brasileiros. Vamos conferir. Será mais um grito forte em prol da liberdade humana, como um todo.
       Fato recente que chamou a atenção de muitos observadores. A vitória do ultranacionalista Donald Trump, no dia 8 desde mês, à presidência dos EUA - nos obriga lembrar Adolf Hitler, Benito Mussolini, Juan Peron, Getúlio Vargas. Segundo o jornalista amazonense Mário Adolfo, isso revela a verdadeira identidade do eleitor americano, "que apesar das capas e uniformes coloridos de super-heróis continuam (silenciosamente) odiando negros, cucarachas, porto-riquenhos, islâmicos, migrantes, mexicanos etc".
       Essa iniciativa tem nome: Hipocrisia. Tanto lá como aqui, nos fingimos de  "democratas e defensores de país livre, onde todo mundo tem oportunidade de sonhar com a utopia do modus vivendi americano (e brasileiro)".
       Mas a História universal é dinâmica. Em 1961, o filósofo francês Jean-Paul Sartre, reclamou, com veemência, o tenebroso controle imperialista que a Europa ainda impunha sobre a Ásia e a África, em pleno século 20, apesar de já está em curso o processo de descolonização. Nesses continentes, líderes e intelectuais seguiram a trilha de Sartre.
       Dentre aqueles podem ser citados Gandhi e Nehru, na Índia; Lópold Senehor, Aimé Cesaire e David Dion, na África. Por sinal, foram esses negros, que, por meio da revista Présence Africaine, lançaram em Paris um movimento de ideias chamado negritude.
       Esse movimento foi "a proclamação da consciência do eu negro e representou a reação contra o racismo que desde os séculos iniciais da colonização colocava o negro em posição de inferioridade em relação ao branco, criando arraigados complexos de inferioridade entre os primeiros e de superioridade entre os europeus, assinalados por posições preconceituosas muito difíceis de serem superadas."
       A negritude, além de superar essa vergonhosa constatação, procurou valorizar o negro, tornando-o, acima de tudo, "consciente e orgulhoso de si mesmo e de suas condições. Condições biológicas, diga-se de passagem, como se pode depreender na poesia de Bernard Dadié. Quem é esse?
       Bernard Binlin Dadié, mundialmente conhecido por Bernard Dadié. Africano, nasceu em Assinie, Costa do Marfim, em 1916. Atualmente com 100 anos de idade  mora na França. Lúcido, inteligente e determinado, como sempre foi, continua a defender os direitos da África. Novelista (não confundir com os telenovelistas de plantão), poeta e escritor. Mas, acima de tudo, um poeta. Um poeta no sentido semântico: grande. Sua bibliografia é vasta e fantástica. Homem culto e temido. Temido no bom sentido. Temido quando é lido e ouvido. Temido pelas letras, pelas ideias. Foi ministro da cultura do seu país de 1977/1986. Sua obra pode ser lida em francês, espanhol, inglês, português (de Portugal), entre outros idiomas. São deles estes consagrados versos:

               "... Hombres de todos los continentes
                  Las balas aún de capitan las rosas
                      En los amaneceres de la ensinacion..."
    
       Um poema seu correu o mundo, em décadas passadas, por meio de jornais, livros, revistas, recitais, etc, em épocas de censuras. Hoje, facilmente encontrado na internet, em diferentes línguas. é "Te Agradezco, Señor", cuja primeira estrofe, é essa maravilha!
 
               "Te agradezco, Señor, que me hayas, creado Negro,
              Blanco es un color de circunstancias, 
        El negro, el color de todos los días,
         Y yo llevo el Mundo desde el alba de los tiempos.
          Y mi riso sobre el Mundo, en la noche, erga el Dia''.
     
     Calma, esta apreensivo! Vamos para o nosso português. Em 1990, a historiadora Elza Nadai, publicou o poema em português, é óbvio. Segundo ela, extraído de Le Dossier Afrique, publicado na Bélgica, em 1962. Não há referência sobre a tradução. Vamos, então a ''Te Agradeço, Senhor'', considerado por muitos como ''A Oração do Negro''.

 TE AGRADEÇO, SENHOR

EU VOS AGRADEÇO, MEU DEUS, POR ME TER CRIADO NEGRO
POR TER FEITO DE MIM
A SOMA DE TODAS AS DORES,
COLOCANDO SOBRE MINHA CABEÇA O MUNDO.
EU A TIREI DO CENTAURO.
E EU CARREGO O MUNDO DESDE A PRIMEIRA MANHÃ.
O BRANCO É UMA COR DE CIRCUNSTÂNCIA. 
O NEGRO, A COR DE TODO OS DIAS,
E EU CARREGO O MUNDO DESDE A PRIMEIRA A PRIMEIRA TARDE.

EU ESTOU CONTENTE
COM A FORMANDA MINHA CABEÇA,
FEITA PARA CARREGAR O MUNDO.
SATISFEITO
COM A FORMA DO MEU NARIZ.
QUE DEVE ASPIRAR TODO O VENTO DO MUNDO.
FELIZ
COM A FORMA DAS MINHAS PERNAS,
PRONTAS PARA CORRER TODAS AS ETAPAS DO MUNDO.

EU VOS AGRADEÇO, MEU DEUS, POR ME TER CRIADO NEGRO.
O BRANCO, É UMA COR DE CIRCUNSTÂNCIA.
O NEGRO, A COR DE TODOS OS DIAS,
E EU CARREGO O MUNDO DESDE A AURORA DOS TEMPOS.
O MEU RISO SOBRE O MUNDO, NA NOITE, CRIOU O DIA.

EU VOS AGRADEÇO, MEU DEUS, POR ME TER CRIADO NEGRO.

     Para completar, vem Chaplin e diz:
     ''Gostaria de ajudar a todos - se possível -, judeus, o gentio... negros... brancos.
      Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo - não para seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos.
(...)
     Soldados! Não batalheis pela escravidão!
     Lutai pela liberdade!''

      As palavras são assim. Ao mesmo tempo que ferem, que magoam, que discriminam, por um lado. Por outro, confortam, emocionam, alegram, rejubilam. Eis os dois exemplos aqui reproduzidos. Faça sarar, de uma vez por todas, o racismo; suplante o preconceito. Deixemos o sol da liberdade romper as nuvens da discórdia, e brilhar no horizonte de nossas vidas.
     Em tempo: tudo aqui dito vai para brancos, negros, índios, amarelos, que sofreram e que estão sofrendo bullying, racismo, preconceito e outras práticas criminosas. Vai, principalmente para você: professora Lady, Tia Preta, Chico da Silva (cantor), Ney Lopes (historiador), que ao longo de suas vidas, devem ter sido olhados de lado como se fossem bichos medonhos.

Referências
  1. Amazonas Em Tempo (contexto), 09.11.16 - A3
  2. Nadai, Elza, História Geral: Moderna e Contemporânea/ Elza Nadai,                                                 Joana Neves. - 7. ed. - SP: Saraiva, 1990, p.260.
  3. trianarts.com
  4. revistamododeusar.blogspot.com.br
  5. gio-collazosc.blogspot.com.br
  6. laurenmedinueta.com/ voces na africa
  7. booksgoogle.com.br 
  8. www.geledes.org.br
  9. racismo-no-brasil.info
  10. Charles Chaplin, História da Minha vida. Rio de Janeiro, José Olímpio, 1965.
  11. antigo.acordacultura.org.br/herois/heroi/therezasantos
  12. Amazonas Em Tempo, 03.01.200
         
 

Tecnologia do Blogger.