''Quem educa jamais fracassa''

     Quando do início do ano letivo de 2004, eu já era professor veterano na escola estadual Djalma Batista da Cunha, centro-sul de Manaus. Nesse ano e no ano seguinte, tive a honra em conhecer e trabalhar com o professor de Língua Portuguesa e também especialista em Literatura Moderna e Pós-Moderna e professor da UFAM -Universidade Federal do Amazonas, Moady de Oliveira Braga.
      Muito inteligente, adepto de roda de amigos ao som da boa música, dono de um português castiço
(também, pudera, é seu ofício) e um severo crítico aos problemas socioeconômicos brasileiros.
      A boa convivência profissional, sempre nos leva a conhecer melhor os nossos pares. Isso é assim em qualquer lugar do mundo. Por aqui, não é diferente. Uns são competentes e buscam aprimorar-se cada vez mais; outros são medíocres ad perpetuum; alguns, ainda, são egressos de grupos de compadrio: nada fazem, nada sabem, mas podem atrapalhar a vida de todos. O profissional ora em análise enquadra-se no primeiro conceito, é óbvio.
      Em meados daquele ano, eu já sabia que o mestre é amazonense de Codajás, onde nasceu em 30 de novembro de 1956, e já militava na área do magistério há mais de 20 anos. No entanto, eu não sabia tratar-se de um poeta tão brilhante. Apesar dele sempre afirmar que, se governantes e governados fizessem da poesia "um eficaz instrumento educacional, social e econômicos", não estaríamos enfrentando tantas mazelas nacionais.
      Porém, acabei descobrindo ser o professor autor das obras: "Simples Cidade é Poesia" e "Cenário dos Meus Conflitos", quando fui presenteado com um exemplar (do primeiro livro citado) datado de 24.05.2004, cuja dedicatória contém esta frase lapidada: "QUEM EDUCA JAMAIS FRACASSA".
      O prefácio é assinado pelo então senador, o diplomata Arthur Virgílio Neto, que garante: "Feliz é a nação que encontra na sensibilidade de sua gente quem possa cantar em versos a simplicidade da cidade. A cidade é a urbe de encantamento e da alma, como a dos poetas que sabem criar a mensagem vinda do coração".
      Prosseguindo, ele garante: o poeta é "como os menestréis que cantavam no ritmo por vezes balido dos instrumentos também simples". E completa: "foi ao som da banda com o qual embalava festas e os sonhos dos jovens de sua contemporaneidade, singrando por todo o rio Solimões que o fez um menestrel amazônida".     
      Ao finalizar, recomenda: "Moady, siga nesse afã de poetizar. Na simplicidade das cidades, com a simplicidade de sua alma".
      O livro é realmente interessante e faz-se necessária a sua leitura. A poesia não  tem idade. Não tem lugar próprio. Para sua manifestação, precisa-se ter um poeta. É ele o observador, o disseminador do que viu, do que sentiu. É ele quem sai à procura do néctar da sensibilidade poética, como fazem as abelhas de voo em voo, cujo resultado é o puro mel.
      O pano de fundo da obra é a cidade natal do poeta, ou seja, Codajás: seus habitantes, seus costumes, seus hábitos, sua simpli(cidade); as memórias do eu-poeta. Então, ele próprio narra:
       "Quero cantar a simplicidade
               Gritar aos ouvidos de qualquer idade
                    Que eu não preciso do complicado
                           Nem do presente veloz onde o futuro já é passado." 
       Mas, voltemos ao início deste comentário. No final daquele ano, ganhei do poeta, um poema pronto, mas inédito, até hoje: "Missiva a Jean-Paul Sartre", que retrata com sutileza os princípios filosóficos do francês. Os versos são de uma sabedoria ímpar. 
       Certa feita foi perguntado ao cantor e compositor carioca Marcos Valle (73 anos), se ele estava sóbrio quando compôs "Viola Enluarada". Por ser uma das mais belas  canções brasileiras. Agora, a mesma pergunta cabe ao poeta Moady, quando criou a sua Missiva. Os versos são de uma beleza grandiosa. Falo sóbrios no sentido de terem atingido o ponto alto quando da arte de criarem, de comporem.
       Para quem pouco conhece a trajetória literária de Sartre (1905-1980), o poema revela muita coisa. Imaginemos assim: Você entra numa sala e lá está um senhor com um livro numa mão, na outra, um cachimbo: é Sartre; sobre a enorme mesa, vários livros como "O Muro", "A Náusea" e exemplares do Le Monde: são as ferramentas de trabalho dele; na outra extremidade da mesa, está uma mulher escrevendo algo sobre o feminismo, numa máquina Remington: é Simone de Beauvoir. Que legal! Que imaginação, essa nossa!
       Leia, portanto, a íntegra desse poema, até aqui, inédito.

       MISSIVA A JEAN-PAUL SARTRE

Não aceito a desistência como prêmio!
Mesmo que o vômito da náusea de viver 
Aurifique o absurdo na cabeça dos canalhas
Que enxergam a vida apenas como um exercício pífio
Da consciência humana.
     Não aceito que nadifiquem o ato de Amar! 
     Que dolarizem a carne uterina de uma fêmea de alma bela.
     Que nivelem o desempenho do folgado do condomínio
     Igualando-o à luta do sufocado da favela.
Não, não aceito que estuprem o direito de uma criança ser infantil,
Apenas para atender o desejo de consumo doentio
daqueles que já naturalmente são infelizes. 
     Protesto! Contra as antenas satélites que captam os suspiros
     do universo mas são incapazes de diagnosticar o caráter pernóstico
     dos hipócritas que satanizam a sanidade do mundo.
Repudio-os! Por que foram esses que arrastaram meu pai
Para uma guerra estúpida que ele sequer sabia que existia
Para depois rirem dos gestos heróicos de um gênio
Que nem as letras lia. 
     Não aceito JEAN, muito do que essa arbitrária realidade me impõe.
     Como pode o sol vencer o escuro da noite e a sua vitória não
     despertar no âmago de um homem inteligente o desejo de servir?   
     E ainda querem que eu abdique do direito de chorar,
     Chorar por mim e por aqueles que não têm a mais lágrimas!
Eu aceito sim Paul!
Aceito que me exijam amor mesmo quando eu não o tenho.
Porque embora o incompreensível estupre minha liberdade,
Ainda assim, eu prometo que até na hora da minha nadificação ,
Alguém verá em mim um gesto solidário,
Um aceno útil àqueles que dividiram comigo o sofrimento de viver;
Já que o viver tem mais dor que prazer!
O que não aceito nunca: é a desistência como prêmio;
Porque a covardia é antes de tudo a renúncia de ser, e eu sou,
Mesmo que muitas vezes eu não goste de mim.
   
       Parabéns, mestre Moady! No próximo dia 30, serás um sexagenário. Mas, sei também, que continua cumprindo com muito afinco sua missão de educador. Acredito piamente que jamais fracassará aquele que educa. Recomendo aos meus leitores essa mesma crença. 
       Não é porque um grupo de canalhas, criminosos e saqueadores quer a falência da República do Brasil atual, qua a sociedade, como um todo, irá deixar de preservar a ética, a moral, a justiça, a honestidade, a religiosidade, e outros princípios que engrandecem a  vida humana.
       Não aceite, nunca, que banalizem "O ATO DE AMAR!".


Referências
1. Braga, Moady. Simples cidade é poesia. s/d, pp. 3 e 9.
2. orkut. google.com
3. Missiva a Jean-Paul Sartre (avulso)
 

       
  
 
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