Quintana: ''um anjo disfarçado de homem''

     Mário de Miranda Quintana (1906-1994), poeta, jornalista e tradutor gaúcho, foi um dos mais importantes para a literatura brasileira. Ao longo de muitos anos, garantiu a sua sobrevivência por meio de suas "exímias traduções e colaborações na imprensa".
     Porém, somente publicou seu primeiro livro aos 34 anos, A Rua dos Cataventos, uma coletânea de sonetos. Mas, só 8 anos depois, lançou a sua segunda obra, Sapato Florido, contendo pequenos poemas em prosa e frases de efeito irônico. Por sinal, nesse ramo, tornou-se o mestre. Alguns haikai famosos são de sua autoria.
     A partir de então, vieram muitas outras publicações. Todas da melhor qualidade, como o Aprendiz de Feiticeiro, Caderno H, Canções, Coisas, etc. Uma façanha: por mais de 30 anos manteve uma coluna no Correio do Povo. Isso o fez ter um publico cativo de leitores,  que o tornou o poeta mais popular da Capital, Porto Alegre, e do Estado do Rio Grande do Sul. Só alcançado pelo seu amigo e conterrâneo, o escritor Érico Veríssimo. 
     Fez traduções de obras de grandes nomes da literatura como Honoré de Balzac, Marcel Proust, Virgínia Wolff, Charles Morgan, entre outros. Traduções essas consideradas por alguns críticos, como primorosas. 
     Era detentor de vários títulos honoríficos. Por duas vezes se candidatou a uma vaga na ABL, mas não se tornou um "imortal". O conjunto da "sua obra possui uma qualidade mágica permanente, quase única nos poetas brasileiros contemporâneos". Outra característica poética era não está preso por nenhum estilo literário. Por sinal, sobre isso, disse: "Pertencer a uma escola poética é o mesmo que ser condenado à prisão perpétua". Por isso, definia-se como um poeta "epigramático". "De fato, sua sensibilidade para tal advém de síntese onde se juntam a reflexão sutil e a elevada e singela capacidade de se expressar".  
     Poeminha do Contra, é considerado um dos 10 mais belos da poesia quintanista, cujos versos são estes:
     Todos estes que aí estão
           Atravancando meu caminho
                 Eles passarão...
                       Eu passarinho! 
     Contudo, outro lindo poema que merece, indiscutivelmente, destaque mais que especialíssimo é este:
       Se tu me amas, ama-me baixinho
       Não o grites de cima dos telhados
       Deixa em paz os passarinhos
       Deixa em paz a mim!
       Se me queres,
       enfim,
       Tem de ser bem devagarinho,
       Amada,
       Que a vida é breve, e o amor
       mais breve ainda...
       Na semana que o poeta completou 80 anos de vida, o jornalista amazonenses Evandro Lobo escreve:
       "Não há melancolia nesse velhinho. Ao contrário, há humor, muito humor. Há bastante brejeirice, gostosas palavras que afastam qualquer possibilidade de tristeza. Mas, mesmo na tristeza, ele é belo, porque é poeta e seu dom divino de ver e falar de coisas simples,  mas, paradoxalmente profundas; surrealistas, mas sensivelmente compreensíveis; rápidas e sintéticas, mas infinitas ao conteúdo e emoção que transmitem; faz-nos refletir que sua presença é tão necessária quanto a própria poesia é".
       Prosseguindo, o mesmo jornalista, cita as palavras do conterrâneo e amigo de Quintana, escritor Érico Veríssimo:
       "Vou revelar a vocês um segredo: descobri outro dia que o Quintana, na verdade, é um anjo disfarçado de homem. Às vezes, quando ele se descuida ao vestir o casaco, suas asas ficam de fora".
      E confirmando a sua própria eficiência poética, e sobre o que de bom falam dele e da sua obra, revela:
      "Não pretendo que a Poesia seja um antídoto para a tecnocracia atual, mas sim um alívio. Como quem se livra de vez em quando de um sapato apertado e passeia descalço sobre a relva, ficando mais próximo da natureza, mas por dentro da vida. Porque as máquinas um dia viram sucata. A poesia nunca."
      No dia que o "anjo" completou 86 anos de existência, a jornalista amazonense Ana Célia Ossame disse estas verdades sobre ele:
      "Na hora exata, o sol surge vigoroso marcando o nascer do dia. E depois de cumprir o seu ofício, cede lugar à prata da lua, sem atrasar em nada o poema que marca o cotidiano do planeta, feito pelo Criador. Poucos se dão conta da beleza e preciosidade desses momentos. Porque eles nos excedem... Mas há poetas na Terra que parecem juntar tesouros nesses períodos que chamamos dia e noite. E há palavras que foram criadas para a poesia. Nesta e por esta, há nomes e nomes. E Mário Quintana, que neste dia 30 completa 86 anos, dos quais passou boa parte enfeitando os telhados e abrindo as janelas dos corações, com as paixões tramadas em versos desmedidos de lindos".
      Seguindo esse mesmo raciocínio, o articulista da Folha de São Paulo, Marcelo Coelho, garante:
      "No Brasil, Vinicius de Moraes - maior poeta que Quintana - tornou-se popular graças a seu conúbio (epa!) com Jobim e Toquinho. Mário Quintana tornou-se popular sozinho. Ele foi o poeta mais naturalmente poeta desde século (XX). Isso lhe deu popularidade".
      No entanto, "A VIDA É BREVE" e coube ao jornalista Carlos Alberto de Souza, direto de Porto Alegre, noticiar a triste notícia:
      "O poeta Mário Quintana, 87, morreu às 17:20 de ontem (05.05.94) no Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre (RS)".
      É assim mesmo, meus amados leitores. "Quando se vê, já são seis horas/Quando se vê, já é sexta-feira.../Quando se vê, já terminou o ano...". Disse, certa vez, o poeta que observa um grupo de crianças/alunos que estava em recreação.
      Naquela noite, no velório, sob os olhares tristonhos dos seus admiradores estavam os restos mortais do poeta imortal . Mas sobre todos estava um anjo recitando:
      Na convivência, o tempo não importa.
      Se for um minuto, uma hora, uma vida.
      O que importa é o que ficou deste minuto, 
      desta hora, desta vida...
      Lembra que o que importa
      é tudo que semeares colherás.
      Por isso, marca a tua passagem,
      deixa algo de ti,...
      do teu minuto,
      da tua hora, 
      da tua VIDA.



Referências
1. Dic. Biográfico Univ. Três. Três Livros e Fascículos, SP, vol. 10, pp.24/25.
2. O anjo-poeta brasileiro. Evandro Lobo, J. do Commercio (Sup. JC), 17.07.86.
3. Quintana, a poesia feito vida. Ana Célia Ossame, A Crítica, 30.07.86.
4. Mário Quintana era misterioso e fácil. Marcelo Coelho, Folha de SP, 11.05.94.
5. Mário Quintana morreu em Porto Alegre aos 87, Carlos Alberto de Souza, F. de SP, 06.05.94, 1-11.
6. www.revistabula.com
7. www.frasesfamosas.com

 
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