A ''Velocidade Da Luz'', da Florbela Espanca

     Há alguns anos estive na cidade do Rio de Janeiro, em serviço. A única folga que a equipe teve, cedida pelo diretor da instituição, foi com uma condição: conhecer o Estádio do Maracanã, onde haveria um clássico Fla X Flu. Pedi para ser dispensado dessa ida, pois queria conhecer a "Boca do Sapo", ou seja, um sebo da melhor qualidade, que fica em Ipanema.
     Lá, fiquei deveras deslumbrado. Assim como ficara três dias antes, quando vi o mar se projetando sobre a praia de Copacabana. No sebo, adquiri três preciosidades: "Canto Geral", de Pablo Neruda; "Sonetos", de Florbela Espanca; e o LP "Muito Elizeth", de Elizeth Cardoso. Todas, edições dos anos 50, 60. Obras raras, nos dias de hoje.
     Agora, com o progressivo advento da Internet, posto aqui este resumo que havia feito sobre "Sonetos", após detida leitura do mesmo. Florbela de Alma da Conceição Espanca, poetisa portuguesa, nasceu em 8 de dezembro de 1894, em Vila Viçosa, no Alto Alentejo. Tinha apenas um irmão, Apeles, e ambos eram filhos ilegítimos, os quais cresceram na charneca (espécie de caatinga elentejana).
     Aos 14 anos, foi com a família morar em Lisboa, onde publicou seu primeiro trabalho literário, em 1919, Livro de Mágoas. Nessa época, com então 15 anos de idade, já estava casada e cursando Direto. Casou-se outras duas vezes, sem sucesso e sem filhos. Há quem garanta que a sua verdadeira paixão foi o irmão (há controversas). Porém, a morte trágica dele, abalo a irmã para o resto da vida. Desesperado com a morte de uma namorada, afogou-se na águas do rio Tejo.
     Todos seus sonetos (são quase 150) estão reunidos em Livro de Mágoas (1919), Livro de sóror Saudade (1923), Charneca em Flor (1930) e Reliquiae (assim mesmo: Reliquiae. Versos póstumos publicados pela primeira vez com a segunda edição de Charneca em Flor, em 1931).
     Dona de um lirismo fortemente marcado por sua terra, Florbela "pós em versos de aparência parnasiana o erotismo e a liberdade que expressou e assumiu pioneiramente", tanto na vida como na arte. Sua reafirmação poética vem com Livro de sóror Saudade. Ficando mais evidente ainda, em Charneca em Flor, cuja efusão lírica é de sensualidade luminosa e ousada para a época. Por isso, é considerada uma sonetista excelente, pois expressa suas emoções em linguagem telúrica, de imagens fortes, cheias de verdade física e arrebatamento. 
     "Sonetos" traz um estudo crítico do pesquisador e professor José Régio, que estende por 19 páginas, realizado entre janeiro e fevereiro de 1950, duas décadas após a morte da poetisa. Segundo ele, sua análise teve por base outra pesquisa: Florbela Espanca ou a Expressão do Feminino na Poesia Portuguesa, do mestre Jorge de Sena, onde o primeiro diz: "Num belo e denso estudo que é, sem réstia de favor, o que de mais fundo se escreveu até hoje sobre Florbela Espanca".
     É Régio quem atesta ser a poetisa, um ser virtuoso desde as suas primeiras manifestações poéticas. Mas, lamentavelmente, ignorada por todos, a priori. E categoricamente, garante: "A sua poesia é dos nossos mais flagrantes exemplos da poesia viva. Quero dizer que toda nasce, vibra e se alimenta do seu muito real caso humano; do seu porventura demasiado real caso humano". 
     Por exemplo, é dele a distinção entre Literatura livresca e Literatura viva. A segunda é "aquela em que o artista insuflou a sua própria vida. E por isso mesmo passa a viver de vida própria. Sendo esse artista um homem superior pela sensibilidade, pela inteligência e pela imaginação. A Literatura viva que ele produza será superior, inacessível, portanto, às condições do tempo e do espaço".
     Ele não para por aí. Segue abrilhantando a vida e a obra da deusa das letras portuguesas e também,conterrânea de Camões e Fernando Pessoa, indo direto a estes extraordinários  versos, contidos in Livro de Mágoas : 

     Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
          Alguém que veio ao mundo para me ver
               E que nunca na vida me encontrou!
                                 (...)
                    Sonho que um verso meu tem claridade
                         Para encher todo o mundo!

      Ao finalizar, enfatiza: "A obra de Florbela é a expressão poética de um caso humano. Decerto para a infelicidade de sua vida terrena, mas glória do seu nome e glória da poesia portuguesa ( por que não, do mundo?). Florbela viveu a fundo esses estados quer de depressão, quer de exaltação, quer de concentração em si mesma, quer de dispersão em tudo, que na sua poesia atingem tão vibrante expressão. Mulheres com talento vocabular e métrica para talharem um soneto como quem talha um vestido; ou bordarem imagens como quem borda a missanga (do cafre; em português, miçanga)ou (o que é ainda menos agradável) se dilataram em ondas de verbalismos como quem se espreguiça por nada ter que fazer, que dizer - naturalmente as houve, e há, antes e depois da vida de Florbela. [...] Também, decerto, apareceram na nossa poesia autênticas poetisas, antes e depois de Florbela. Nenhum, porém, até hoje, viveu tão significativamente humano. Jorge de Sena dirá: Tão expressivamente feminino. O seu nome é hoje glorioso, e a sua glória não é das que duram o dia em que nascem".
      São tantos os sonetos de beleza inconfundível como Caravelas, Saudades, A Vida, Versos de Orgulho (o manuscrito pela autora é um primor), Realidade, Amar!, Fanatismo, Se Tu Viesses Ver-me, e tantos outros, que fica difícil transcrever apenas um ou dois deles.  
      Porém, ilustro este, Se Tu Viesses Ver-me, criado poucos meses antes da morte da poetisa, em 1930, lançado em Charneca em Flor, naquele mesmo ano, no qual estão, indiscutivelmente,  alguns dos mais belos poemas de sua carreira:
    
      Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
      A essa hora dos mágicos cansaços,
      Quando a noite de manso se avizinha, 
      E me prendesses toda nos teus braços...

              Quando me lembra: esse sabor que tinha
              A tua boca... o eco dos teus passos...
             O teu riso fonte... os teus abraços...
             Os teus beijos... a tua mão na minha...

                    Se tu viesses quando, linda e louca,
                    Traças as linhas dulcíssimas dum beijo
                    E é de seda vermelha e canta e ri

                           E é como um cravo ao sol a minha boca...
                           Quando os olhos se me cerram de desejo...
                           E os meus braços se estendem para ti...      

       Nem discuto o mérito do soneto acima. A mensagem é clara. Aqui estão traçadas as circunstâncias de sua morte. Mas, admiro a beleza da poesia. Puro arrebatamento! O leitor, tirará as suas conclusões. 
       "Nesta longa estrada da vida" do magistério conheci profissionais de ideias memoráveis. Conheci professores e Professores. Por exemplo, nos últimos 3, 4 anos conheci e com ele trabalhei uma temporada, o Professor Maurício Viana de Sá, formado em Letras, com mestrado em Literatura, pela Universidade Federal do Amazonas, com 10 anos de experiência na sala de aula, é um daqueles que fazem a diferença. Que causam inveja (no bom sentido). Excelente músico, apesar de amador, mas sabe casar a música com a literatura. Faz seminários, faz saraus, faz recital. Motiva os infantojuvenis a adquirirem conhecimento, pela curiosidade, pela leitura, pela pesquisa, pela técnica. É show!
      Esse Professor, no sentido grandioso, pode, sem sombra de dúvida, ser classificado pelo pesquisador José Régio, de praticante da Literatura viva, como fez Florbela e como ainda fazem muitos outros poetas, professores, escritores e tantos mais.
      Já comentei aqui, em outra oportunidade, que no início da década de 80, o cantor Fagner, lançou Fanatismo (1923). Foi um sucesso estrondoso. Ele, como sempre, soube juntar o útil ao agradável, isto é, unir a beleza lírica do poema com a beleza ímpar da melodia. Foi o casamento musical perfeito da década. O ouvinte é induzido - espontaneamente - a cantar do começo ao fim, assim:

                          FANATISMO

      Minh'alma de sonhar-te, anda perdida
      Meus olhos andam cegos de te ver!
      Não és sequer razão do meu viver,
      Pois que tu és toda a minha vida!
      
      Não vejo nada assim, enrouquecida...
      Passo no mundo, meu Amor, a ler
      No misterioso livro do teu ser
      A mesma história tantas vezes lida!

      "Todo mundo é frágil, tudo passa..."
      Quando me dizem isto, toda a graça
      Duma boca divina fala em mim!
      
      E, olhos postos em ti, digo de rastros:
      "Ah! Podem voar mundo, morrer astros,
      Que tu és como Deus: Princípio e Fim!..." 

      É sempre assim: é a tristeza batendo  na nossa porta. Quer porque quer entrar na nossa vida. Mas lá dentro está a poesia e manda a tristeza embora. Lá está a melodia da música e quando cantarolamos nos faz rejuvenescer e muito. Viver mais. "Ninguém quer a morte". Mas Florbela de Alma da Conceição Espanca, que amou, criou..., sofreu, se resignou, se enclausurou, cantou, recitou, chorou, resistiu... deixou 148 sonetos inesquecíveis, foi diferente. De braços estendidos para a morte, ela se matou em Motosinhos em seu 36º aniversário, 8 de dezembro de 1930.
      O título do presente artigo foi inspirado em "Velocidade Da Luz", de Tundy, interpretada pelo Grupo Revelação, que segundo seus integrantes, foi um fato real que aconteceu com o autor.


Referências
1. Espanca, Florbela. Sonetos, 20ª edição, SP, Livraria Bertrand, 1951
2. Nova Barsa, volume 5, RJ, 1999, p. 506
3. CD "100% Grupo Revelação", Somlivre, p.2007.

.
     
Tecnologia do Blogger.