Hey, Mr. John

     Era finalzinho do período letivo da UA (hoje UFAM, Universidade Federal do Amazonas) de 1987. O professor de língua Portuguesa e Literatura Brasileira, saudoso Antônio Paulo Graça, não dava trégua à turma. "Para a próxima semana, quando vamos finalizar com chave de ouro, cada um de vocês deverá trazer um relato sobre um fato real ou fictício, de pelo menos, três laudas. Pode ser narrativo, dissertativo ou descritivo, sei lá. Tragam. Será a nossa última nota. O critério avaliativo será sobre os acertos das regras básicas gramaticais."
      Assunto, de acordo com os parâmetros estabelecidos pelo mestre, não faltava. Mas, na hora de pô-lo no papel, é que... Por exemplo, o Brasil vivia sob o governo de José Sarney. A situação política, social e econômica era tão conturbada quanto atualmente. A inflação "comia" o bolso do trabalhador. O FMI "asfixiava" o governo de norte a sul. A Constituinte... Bem, quase todos que lá estavam, estão lá agora. O Congresso Nacional era (ou é?) uma festa. Pensei: "Vou falar o quê?"
      Porém. pesquisei, li e redigi o seguinte texto, datado de 08.12.1987, cujo conteúdo é este (guardei uma cópia nos meus arquivos):

                                        JOHN, A SAUDADE DÓI MUITO

                                     É o medo do desconhecido que impele todo
                                           mundo para os sonhos, as ilusões, as
                                               guerras, a paz, o amor, o ódio...
                                                   e tudo isso é ilusão. Aceite
                                                        o desconhecido e terá
                                                               uma   viagem
                                                                  tranquila.
                                                                    Lennon   

      "John Winston Lennon, nasceu a 9 de outubro de 1940 em Liverpool, Inglaterra. Filho de uma alegre senhora chamada Júlia. Seu pai, Freddy Lennon, era garçon de um navio, que logo após o nascimento de John, abandonou a família. O pequeno foi criado por dona Mimi, uma pessoa muito severa e irmã de sua mãe. O menino era tratado com um cuidado meticuloso sobre as boas maneiras e as aparências.
       Desde que entrou para a escola ele apresentou uma ambiguidade: além de ser muito inteligente era. ao mesmo tempo, desobediente e desafiador. Chegando, às vezes, a incomodar aos vizinhos.  Mas, foi exatamente esta confusão em sua criação, esta mistura entre o grosseiro e o respeitável, entre o carente e o privilegiado, entre a casa geminada e o subúrbio arborizado, entre o pai fujão e a escola secundária convencional, tudo isso embrulhado no sabor desordeiro, efervescente, desbotado e imprevisível daquele velho porto do mar que aos poucos transformou o jovem John num artista, num poeta, num cantor, num compositor, num ideólogo pacifista e num dos líderes mais admirados por mais de duas décadas, por jovens e adultos do mundo inteiro.
       De Liverpool, saiu um grupo de quatro rapazes, The Beatles - "os quatro mocinhos que abalaram o mundo". O sucesso deles foi tão fantástico que chegaram a dizer serem tão populares quanto Cristo. 
       No auge da carreira, Lennon resolveu casar-se com Cynthia, com quem teve um filho, Julian. O casamento durou pouco anos, e a união desmoronou; veio o segundo casamento, desta vez com a japonesa Yoko Ono, artista plástica de vanguarda e filha de um banqueiro. Com ela teve um filho, Sean. John e Yoko permaneceram juntos até a morte dele. 
       Há quem garanta que foi o envolvimento dos dois o motivo para acabar com a união da banda em 1970. Mesmo assim, Lennon continuou a desempenhar as suas funções artísticas: fazendo apresentações,  gravando novos discos, compondo novas canções, promovendo manifestações pacifistas, etc.
       Durante os seus 40 anos de existência,  John usufruiu de muitas coisas que a vida pode oferecer ao homem. Teve seus momentos de glória, por um lado, mas também teve, por outro, suas decepções. Foi preso por porte e uso de drogas, foi polêmico, e muitas vezes um sonhador. No entanto, ele não deve ser julgado apenas pelo seu lado bom ou ruim, mas por aquilo que deixou transparecer positivamente aos seus semelhantes. E John, foi, sem dúvida, uma pessoa que muito contribuiu para que muitos jovens, principalmente, não só praticassem as fantasias da vida, mas também. para que se encontrassem com o verdadeiro caminho da música, da verdadeira existência, da paz.
       Mas, como já foi dito que o "homem é o lobo do próprio homem", não há muito o que esperar só de bom deste que se diz "o único animal racional que existe na Terra". E, como um rei pode acabar sendo morto por um dos seus súditos, a vida de Lennon não foi poupada. As palavras "rei" e "súdito", aqui grafadas, mas não no sentido etimológico dos termos. 
       A 8 de dezembro de 1980, por volta da meia noite, quando juntamente com Yoko, John voltava dos estúdios da gravadora, para a residência do casal, ao entrar no Edifício Dakota, no Central Park, em Nova York, Ouviu por repetidas vezes uma voz chamá-lo: "Ei Mr. Lennon!". O casal parou a um metro e meio de distância e John se virou, e antes que pudesse falar alguma palavra, foi almejado com cinco tiros disparados de um revólver calibre 38, das mãos de Mark David Chapman, um jovem de 25 anos, ex-guarda de segurança, cheio de características criminosas daqueles que costumam matar presidentes. David, após cometer tão bárbaro crime, se quer deixou a praça, onde ficou, conscientemente a murmurar: "Matei John Lennon! Eu matei John Lennon". Onde foi preso alguns minutos depois.
       Assim, o mundo acabava de perder um dos maiores ídolos da música mundial de todos os tempos. "O sonho acabou?"
       Quando do dia da entrega do trabalho, digo, pesquisa, cada acadêmico ia até a mesa, e o mestre Paulo  fazia uma análise preliminar. Quando chegou a minha vez, três pequenos comentários e uma pergunta: 1. "Tema oportuno;" 2. "Linguagem simples, porém original"; 3. "Nota especial"; 4. "Quer ser jornalista?" Não senhor, professor, respondi.
      Anteontem, foi lembrada a data dos 36 anos do assassinato de Lennon. E resgatei esse assunto que havia guardado há 29 anos. Se vivo estivesse, ele estaria com 76 anos. Mas está morto. No entanto, o poeta está vivíssimo. Seus versos, suas melodias, suas notas musicais, pulsam em meu coração; pulsam em milhões de outros corações em todo o mundo.
       Em setembro de 1971, poucos dias antes de completar 31 anos de idade, é lançado o LP "Imagine", no qual pintava um retrato do mundo pacífico com o qual sonhava o artista, seu criador. Na canção homônima, estão estes versos:
                                     Imagine que não há posses 
                                     Me pergunto se você é capaz,
                                     Nenhum lugar para a fome ou ambição,
                                     Uma comunidade de homens.
                                     Imagine todas as pessoas
                                     compartilhando todo o mundo.
       Quanto a Mark Chapman, que não quis "aceitar o desconhecido" e foi impelido pelo ódio a "matar alguém", é um fracassado. Foi condenado a prisão perpétua e dos seus 61 anos de idade, 36 se passaram com ele enclausurado em cela individual, lendo o bilhete que portava num dos bolsos da calça, com os dados e o autógrafo obtido de John na manhã daquele dia, quando foi preso em flagrante pela polícia nova-iorquina. Seu último pedido de clemência foi negado pelo governador, cuja decisão final diz: "Vossa prisão é perpétua. O senhor assassinou um cidadão americano". Isto é, não foi o John Lennon, foi uma pessoa.
      Em meados de 1981, eu era um "garoto que amava os Beatles", quando tomei conhecimento e  emprestei um compacto (disco de vinil pequeno, um pouco maior que um CD atual. O simples, com duas faixas, uma de cada lado; ou composto, com 4 faixas), da professora Elza, do cantor paulista César Rossini (1950-1995), com duas belas canções: "Hey, Mr. John" e "O Sonho não Acabou".
      Confesso, das milhares de homenagens póstumas a Lennon, não conheço outra tão emocionante, uma igual. Para quem não conhece a canção, ela é simplesmente fantástica. Rossini compôs com a alma e canta com o coração. É um hino contra a violência humana e todas as suas manifestações. Vamos a letra de:
  
                            Hey, Mr. John

Hey, Mr, John
Cante mais uma canção
Sobre a vida, sobre o amor
Eu amo a verdade
Do seu sentimento
E estou... com você
      Hey, Mr. John
      Cante mais uma canção
      Sobre o mundo, sobre paz
      Eu trago mãos vazias
      Mas tenho um coração
      Vestido... de amor
Só me faz chorar
Quando ouço as canções
Que você escreveu            (bis)
Você me faz chorar
É difícil aceitar
Que o sonho acabou
      Hey, Mr. John
      Cante mais uma canção
      Sobre a vida, sobre o amor
      Eu amo a verdade
      Do seu sentimento
      E estou... com você
Hey, Mr. John
Cante mais uma canção
Sobre o mundo, sobre paz
Eu trago mãos vazias
Mas tenho um coração
Vestido... de mor
     Hey,  Mr. John
     E cante mais uma canção
     Hey, Mr. John...

Aos meus leitores, principalmente, desejo que todos sejam impelidos pelo amor, pela paz, pela vontade irrestrita de viver e de "aceitar as pessoas como elas são". Ao senhor Evans Silva, funcionário de carreira do Banco do Brasil, lá de Rondônia, fiel leitor dominical destes comentários. Meus parabéns por mais uma passagem natalícia, no último dia 8 deste mês. Ao seu mundo familiar, à sua alegria, cabe o poema A Solidez do Mármore.



Referências
1. A Balada de John e Yoko, pelos Editores de "Rolling Stone", Círculo do Livro, SP, 1982.
2. Villares, Lúcia. John Lennon, Brasiliense, 4. ed. SP, Col. Encanto Radical, 1984.
3. Vozesbrasileiras2.blog spot.com.br
4. www.youtube.com
5.www.m.letras.br
 


  
   
         
           

                                                                                                                          
                                                                
Tecnologia do Blogger.