Tempo de Paz

      Amanhã, primeiro de janeiro, é tratado como o dia da Fraternidade Universal, isto é, da paz tão almejada, tão sonhada. Daí, o título acima. Por mim extraído do LP homônimo do Padre Antonio Maria, lançado em 1995, pela gravadora Paulinas/Comep: "Tempo de Paz".  Aliás, todo tempo deve ser tempo de paz. Pelo menos deveria ser assim, em sintonia com as sábias palavras do poeta Milton Nascimento: "Todo dia é dia de viver".
      O termo paz vem do latim pax, cujo derivado é pacem = absentia belli. Paz, geralmente é definida como sendo um estado de calma, ou seja, ausência de violência ou guerra, tanto entre as nações ou dentro delas. No plano pessoal, paz, designa um estado de espírito isento de iria, de desconfiança, ou de todos os sentimentos negativos.
      A paz é desejada por cada pessoa, para si própria e, evidentemente, para os outros. Ela pode ser classificada de várias maneiras, por exemplos: Paz eterna; paz pela lei; paz pela força; paz de terror. A paz é possível? Sim. Mas, para tal, é necessário que cada indivíduo a faça acontecer.
      Há alguns meses venho selecionando autores, poemas, canções, etc, que abordam esse tema. Porém, escolhi A Paz, de Gilberto Gil e João Donato. Sobre essa bela canção - de amplo significado individual ou coletivo - Gil, autor da letra, faz o seguinte comentário:
      "João Donato apareceu em casa um dia com uma fita com várias canções, todas chamadas "Leila" - Leila 1, 2, 3, 4" - umas quinze ou dezesseis no total. Eu disse: "Deixa pra outro dia, hoje a gente não tem tempo...". E ele: "Não, vá, apure aí, faça alguma coisa". E começou a cochilar ao meu lado. A imagem dele dormindo sossegado, em plena luz do dia, me chamou a atenção para o sentido da paz. Me veio à lembrança o título do livro GUERRA e PAZ, de Tolstoi, e a letra foi sendo construída sobre essa contradição, reiterando minha insistência sobre o paradoxo".
       "Um bomba sobre o Japão fez nascer o Japão da Paz", em "A Paz"; "a luz nasce na escuridão", em "Deixar Você"; "minha religião é a luz na escuridão", em "Minha Ideologia", minha religião", o canto de abertura do disco Dia dorim noite neon. Essa a recorrência básica no meu trabalho: yin e yang, noite e dia, sim e não, permanência e transcendência, realidade e virtualidade: a polaridade criativa ( e criadora). "Porque eu sou e Deus é, e disso nasce toda a criação", como diz uma outra música minha, "É"'. Conclui o compositor.
       Simplesmente fantásticas as palavras do mestre baiano sobre o tema em questão. Modéstia à parte, elas são mais valiosas que todos esses "Tratados de Paz", que os chamados "Líderes Mundiais" apregoam mundo afora.
       Gil fala em Guerra e Paz de Leon Tolstoi (1828-1910), brilhante escritor russo, considerados um dos maiores do mundo, o qual, lamentavelmente, morreu pobre e abandonado numa estação qualquer de trem do seu país. Tolstoi iniciou a escrita dos primeiros capítulos dessa obra em 1863, e só o finalizou em 1869. É autor, de pelo menos, três livros de grandeza mundial. No entanto, conforme o consenso quase unânime  de crítica russa e estrangeira, é a sua maior obra, quer dizer, "é o maior romance da literatura universal".
       ´É um romance histórico, portanto. Mas o espírito da obra antes de tudo é anti-histórico,  e isso conscientemente. É o próprio Tolstoi quem nega, veementemente a importância dos chamados "grandes homens" na História, como Tzar Alexandre I, Napoleão, os generais, os ministros, e tantos outros "Chefes de Estado", os quais não passam de etiquetas dos acontecimentos históricos; apenas são fenômenos artificiais. O "herói, portanto,  em Guerra e Paz, é um soldado, representante do povo humilde.
        Este ano, já passados 147 anos da conclusão (e edição) dessa magnífica obra, os humildes, os indefesos, os civis, principalmente, são os que mais sofrem por ausência da paz. Porque os "senhores etiquetas" suplantam-na fazendo aflorar as guerras aqui e acolá, se alimentado das contendas, das discórdias, e outros insultos, por causa de territórios, de petróleo, de ideologias, etc, etc, etc. São as contradições, os paradoxos, as desconfianças, das quais fala, de maneira impecável, Gil, tanto no seu comentário acima ilustrado, como na letra da canção abaixo:
       
         A PAZ
 
A paz
Invadiu o meu coração
De repente, me encheu de paz
Como se o vento de um tufão
Arrancasse meus pés do chão
Onde eu já não me enterro mais
        A paz
        Fez o mar da revolução
        Invadir meu destino; a paz
        Como aquela explosão
        Uma bomba sobre o Japão
        Fez nascer o Japão da paz
Eu pensei em mim
Eu pensei em ti
Eu chorei por nós
Que contradição
Só a guerra faz
Nosso amor em paz
        Eu vim
        Vim parar na beira do cais
        Onde a estrada chegou ao fim
        Onde o fim da tarde é lilás
        Onde o mar arrebenta em mim
        O lamento de tantos ais. 

       Esta composição é de 1986. No ano seguinte foi gravada por Zizi Possi no LP "Amor e Música". Em 1994, Gil fez uma versão, quando foi gravada para o programa Acústico MTV e lançada no CD Gilberto Gil unplugged, pela gravadora WEA. A interpretação de Gil é bela, original (tudo é dele), mas, a da Zizi, é de uma beleza ímpar. É de arrepiar!
       FELIZ 2017!
       São os sinceros votos do Facetas. Liga o teu PC e leia este comentário; releia este poema (deixa a paz invadir o teu coração - pensa em ti mesmo - pensa em todos nós - pensa no mundo. Peça paz - faz a paz acontecer, em todos os sentidos. Compartilha com alguém que você ama as belas palavras. Pensa em alguém que você ama, mas que a perdeu de vista por... motivos alheios à tua vontade.
        Você que é leitor@ destes comentários, saiba que os mesmos são feitos com sinceridade e boa vontade. E onde quer que você esteja, lembre-se que estou aqui em Manaus (AM), enviando "aquele abraço" para você, por meio de cada palavra, cada frase, cada tema postado. Abraços especiais para os leitores Aparecida Barros e Ivaldo Rodrigues, pelos favoráveis comentários in "A leitura é a arma da sabedoria", de 17 deste mês.
        Viva a Paz!
        Viva a Vida!

Referências
1. Tolstoi, Liev Nicolaievitch, Guerra e Paz; tradução de Lucinda Martins (introdução de Otto Maria Carpeaux), RJ, Beta, 1974, p. XVIII.
2. Gilberto Gil: todas as letras; organização de Carlos Rennó, Cia. das Letras, SP, 2003, p. 372.
3. Wikipedia. org
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