Marie Curie: entre a ciência e o amor (parte I)


        Aos 24 anos de idade, Maria Salomea Sklodowska, deixa a Polônia rumo a França para cursar Ciências na Universidade de Sorbonne. Nos corredores, os estudantes querem saber quem é aquela jovem de ar tímido, expressão obstinada e vestuário austero e pobre.
        Logo de início, sinalizou ao que veio. Nas aulas de Física, sentava-se, sempre, na primeira fila. Seus cabelos, de um louro acinzentado, eram o único sinal distintivo da personalidade dessa tímida estrangeira, que chamavam a atenção dos colegas. Ela não se importava: a sua única paixão era o estudo das ciências. "Considerava perdido qualquer momento que não dedicasse aos livros".
        Afora à Universidade, com as mesmas timidez e pacatez, refugiava-se no bairro latino de Paris, "uma espécie de ilha polaca", cujo círculo de amizade limitava-se aos seus compatriotas. No entanto, seu tempo era sempre consagrado ao estudo. De Varsóvia, vinha uma ajuda mensal de 40 rublos, enviada pelo pai, que era um simples professor de matemática. O valor era tão irrisório, que, diante disso, Marie (agora em francês) tivera de trabalhar, para manter-se com míseros 3 francos diários, pagando todos os seus gastos, inclusive os seus encargos universitários.

Marie Curie na sua juventude (Fonte: Axess)
         A situação era tão séria que, "para poupar carvão, não acendia a lareira e passava horas e horas a escrever números e equações sem sequer se dar conta de que tinha os dedos regelados e todo seu corpo tiritava pelo frio. Chegou a estar semanas inteiras sem ingerir alimentos além de chá e pão com manteiga. "Quando queria festejar algum acontecimento mais feliz, comprava dois ovos, um chocolate e duas ou 3 peças de fruta".
        Esse regime alimentar tornou anêmica a jovem que meses antes, tinha deixado a sua pátria cheia de saúde. Passou a ter desfalecimentos e até perder os sentidos, mas não dava importância a esse quadro, e voltava às suas investigações científicas. "Nunca lhe ocorreu que sua única doença fosse a fome".
       Dominada pela paixão da pesquisa, até aos 26 anos de idade, nem o sentimento de amar, nem o desejo de casar figuravam entre os seus projetos pessoais. Porém, como o coração humano se renova a cada batimento, em 1894, a jovem acadêmica conheceu o cientista francês Pierre Curie, de 35 anos, solteiro, inteligente e, tal qual como ela, dedicava-se de corpo e alma à investigação da ciência.
        Desde o primeiro encontro, num laboratório, simpatizaram um com o outro. Para ele, a jovem polaca é de uma personalidade desconcertante; extasiava-se puder falar com uma mulher tão encantadora, tão inteligente, no domínio das complicadas fórmulas e equações dos elementos químicos. Outro gênio dos números, John Nash, afirmou algo semelhante quando o assunto versa sobre a química do amor, dizendo:

"É somente nas misteriosas equações do amor 
que alguma lógica pode ser encontrada".

        À princípio, os encontros entre os dois eram apenas de amizade. Depois de algum tempo, quis visitá-la em casa, e o pedido foi por ela aceito. Quando lá chegou, foi recebido por uma Marie muito diferente daquela que conhecera nos corredores universitários. Ela estava bela como nunca. Aí, Pierre ficaria por ela fascinado pela segunda vez (a primeira vez foi como a moça era dedicada e habilidosa com os estudos). Agora, pela nobreza de que dava provas pessoais (o ar da sua graça).
         Poucos meses depois, o cientista propôs-lhe casamento. Mas, a resposta de aceitação só veio 10 meses depois. Ela tinha uma dúvida: como deixar para sempre a sua família e a sua pátria? Por fim, casaram. E viveram uma longa e feliz lua de mel, em lugares campestres de pequenas aldeias no interior da França.
        De volta a Paris, o casal foi viver num modesto apartamento, mas com prateleiras cheias de livros. Puseram uma mesa e sobre esta, tratados de Física, um candeeiro de petróleo  e um ramo de flores. Ali, aos poucos, a jovem senhora, foi assumindo os afazeres domésticos. Assim, como aprendeu a preparar pratos rápidos para ambos. Mais tarde, iam juntos para o laboratório.


Casal Curie (Fonte: Mundo Educação)

        Durante o segundo ano de casados, Nasce Irène Jolit-Curie (1897-1956), laureada, também, com o Prêmio Nobel de Química em 1935, aos 38 anos de idade, 1 ano antes da morte de sua mãe. Mas, nunca passou pela cabeça a mãe ter de escolher as obrigações do lar e da filha a carreira de cientista. Sem detrimento do seu trabalho no laboratório, que por sinal a levaria à mais importante descoberta das ciências modernas.
         No final de 1897, ela tinha obtido dois diplomas universitários, uma bolsa de estudo e publicado um importante trabalho sobre a magnetização do aço temperado. Próximo passo: o doutorado, cuja tese era voltada para um estudo do sábio Francês Antonie Henri Becquerel, sobre os sais de urânio. Esse estudo foi por ela batizado com o nome de Radioatividade, ou seja, quantidade de raios de urânio e tório contida nos elementos examinados. Assim, nascia a sua grande investigação.
        No laboratório, instalado no sótão úmido da Escola de Física, foi onde tudo, realmente começou. Primeiro Pierre abandonou suas próprias atividades para dedicar-se a ajudar a mulher, nas pesquisas dela. Em julho de 1898, eles anunciam a descoberta de um novo elemento químico. A pesquisadora deu-lhe o nome de Polônio, em homenagem à seu país, a Polônia. E, em dezembro do mesmo ano, revelam a existência de um segundo e novo elemento químico, batizado de Rádio, dotado de grande quantidade de Radioatividade.  Contudo, o casal precisava provar as descobertas desses elementos. Assim como separá-los do material bruto. Isso durou 4 anos, mas conseguiram com grande êxito.
       Para tal, contaram com a ajuda do governo austríaco, que forneceu 1 tonelada de resíduos (matéria-prima), os quais foram estudados (trabalhados, ou investigados) pelos dois cientistas num barracão abandonado, onde o solo era de terra batida; umas mesas velhas de cozinha, um armário carunchoso e um rústico fogão de ferro. Era esse imobiliário do local.
        Anos depois, Curie escrevia: "Apesar de tudo, naquele miserável casebre passamos os melhores e mais felizes anos da nossa vida totalmente consagrados ao trabalho. Por vezes, passava o dia inteiro a agitar uma massa em ebulição com uma vara de ferro, quase tão grande como eu própria. Ao chegar a noite, estava extenuada".
        Nestas condições insalubres, pesquisou o casal por 4 anos, ou melhor, por 45 meses, entre 1898 a 1902, quando, então, os esposos Curie alcançaram a vitória: Marie conseguiu preparar 1 decigrama de rádio puro e determinar o peso atômico. A partir daí, esse elemento passou a ter existência oficial.
        Mesmo assim, eles enfrentaram muitos problemas: baixos salários; uma empregada para Irène, etc. Marie conseguiu um emprego como professora num colégio para meninas, próximo de Versalhes. Apesar do mundo inteiro proclamar os méritos dos dois cientistas, Pierre mal conseguiu fazer parte de um grupo de docente de Sorbonne.
        Mesmo diante dessas dificuldades, o casal continuou o seu labor com boa vontade e carinho, sem demonstrarem a menor amargura, por um lado. Por outro, o casal já estava definhando pouco a pouco, vítimas da radioatividade progressiva que adquiriu ao longo dos anos, no laboratório. Se abstenham de comer e de dormir. Pierre torturado por terríveis dores nas pernas, teve de recolher à cama. Por sua vez, Marie mantinha-se de pé, mas a palidez e a magreza do seu rosto alarmavam, seriamente, os seus amigos.
        Purificado e transformado em cloreto, o rádio surgia como um pó branco, semelhante ao sal de mesa. Mas a intensidade das suas radiações eram 2 milhões de vezes superior à do urânio. Só uma grossa placa de chumbo era capaz de resistir à penetração destruidora dos seus raios. Eis um detalhe prodigioso: o rádio podia converter-se num aliado ao homem no combate contra o câncer. Tinha uma utilidade. A indústria do rádio ia surgir.
        Países tinham interesse sim em produzir o "fabuloso metal". Os EUA, por exemplo, enviaram uma carta aos dois cientistas demonstrando interesse. O casal só tinha 2 caminhos, ou seja, uma decisão a tomar: ceder a fórmula química - bastante complexa - aos cientistas norte-americanos, ou patentear os direitos comerciais na fabricação de rádio em todo o mundo.
        Marie, então disse: "Impossível. Seria a negação do espírito científico". Ao ouvir isso, Pierre sorriu de satisfação. Com essas palavras, ela defendia o princípio de que os físicos devem publicar o resultado de suas investigações. Além do mais, aquele elemento iria combater uma doença (o câncer). Portanto, "não podemos explorar essa circunstância".
        Assim, naquele mesmo dia escreveu uma carta aos engenheiros da América, abrindo mão da propriedade das descobertas do rádio por ela e pelo marido. Acabam, por assim dizer, de escolher para sempre viver entre as benesses da fortuna ou dos infortúnios da pobreza. E como se nada tivesse acontecido de perdas materiais - no presente e no futuro -, naquele mesmo dia, os dois foram passear de bicicleta no bosque. De onde regressaram, ao cair da tarde, exaustos e braços carregados de flores silvestres.

 Obs: No próximo sábado, a história emocionante da vida e da profissão desses dois físicos, até os último dias de suas vidas, e o legado científico para humanidade. Não perca!
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