Disco é cultura

    Em 1982, a gravadora Philips lançou uma caixa ou estojo (hoje, box) com seis discos de vinil (LPs), produzido pela PolyGram Discos. Seu título: "A Música de...", ou seja, a música de Chico Buarque e Caetano Veloso; de Gilberto Gil e Dorival Caymmi; de Ary Barroso e Lupicínio Rodrigues; de Roberto e Erasmo/Baden e Vinicius; de Menescal e Boscoli/Dolores Duran; de Tom Jobim e Ivan Lins.
     Num total de 79 canções, cuja montagem foi feita pelo Clube de Sucessos. Praticamente todos os intérpretes não são os autores das letras/melodias. Alguns sim, como O Que Será (Chico Buarque) com próprio; Alegria, Alegria (Caetano Veloso), com o próprio; Refazenda (Gilberto Gil), com o próprio; Lugar Comum (João Donato-Gilberto Gil), com João Donato; João e Maria (Carlos Imperial-Roberto Carlos), com Roberto Carlos; e Bia, Bia, Biatriz (Ivan Lins-Roberto Monteiro de Souza), com Ivan Lins.
      Em todos os seis discos, há músicas consideradas raras a serem encontradas em discos daquele formato, principalmente quando do lançamento das gravações originais. Por exemplo: Januária (Chico Buarque), com Claudette Soares; Naturalmente (João Donato-Caetano Veloso) com Miúcha; Das Rosas (Dorival Caymmi) com ele e Quarteto em Cy; Flor Tropical, Canta Maria e Tres Lágrinas de Ary Barroso, com Mário Reis, Nara Leão e Maysa, respectivamente; Se Acaso Voce Chegasse (Lupicínio Felisberto Martins) com Brasil Samba Especial; João e Maria (Carlos Imperial-Roberto Carlos) com Roberto Carlos; Coqueiro Verde (Erasmo e Roberto Carlos) com Trio Mocotó; Oh! Meu Imenso Amor (Roberto e Erasmo Carlos) com Regina Duarte; Samba em Prelúdio, Vento Vadio, Consolação e Apelo (Baden Powell-Vinicius de Moraes) com Vinicius e Odette Lara, Sebastião Tapajós, Sérgio Mendes e Sílvio Aleixo. respectivamente; O Barquinho,  Vagamente e A Volta  (Roberto Menescal-Ronaldo Boscli) com Elis Regina/Toors Thielmann, Sylvia Telles e Márcia, respectivamente; Por Causa de Você (Tom Jobim-Dolores Duran) com Francisco José; Toma Continha de Voce (Dolores Duran-Edison Borges) com Sônia Delfino; Corcovado e Este Seu Olhar (Tom Jobim) com Sérgio Mendes/ Bossa Rio e Sylvia Telles/Lúcio Alves, respectivamente.
     O trabalho é muito bom, ou melhor, é grandioso. Quem o adquiriu `a época, está muito bem servido. Ainda naquela década, acredito, que todas as gravadoras lançaram trabalhos semelhantes, com Músicas Clássicas, Samba, Temas de Filmes, Inesquecíveis, etc. Atualmente, as poucas gravadoras que existem não tem mais interesse em editar boxs com vários CDs de diversos artistas num único trabalho. Há sim, mas só de um cantor como já foi feito com a obra de Tim Maia, Agnaldo Timóteo, Caetano Veloso, Maria Bethânia e outros.
      Escolhi esse tema, "Disco é Cultura" por acha-lo sugestivo. Ainda tenho boas lembranças daquela época - final dos anos 70 e década de 80 -, quando a gente adquiria um vinil, olhava-se tudo: as letras, a capa, o encarte. Na contracapa vinha em destaque: DISCO É CULTURA. Cada gravadora impunha sua marca de forma que achava mais viável para a publicidade do seu produto. Atualmente, algumas gravadoras como a Universal e a Sony Music ainda mantêm esse lema, mas de forma bem acanhada, ali no cantinho do CD. Logicamente que o espaço é incomparavelmente menor.
     Mas, pensando bem, o sentido primordial da campanha continua atual e oportuno. Disco é cultura mesmo. Assim como o DVD, o Livro, etc, principalmente no mundo em que vivemos, no qual cultura é termo banalizado. Quase tudo que há é descartável. O vinil sumiu. O CD já está sumindo. A rede mundial, isto é, aquela do www, assumiu tudo. Faz-se tudo rápido e em minúsculo; tudo tem de ser veloz. Quando fala-se que alguém tem um acervo físico de Livros, de LPs, de K7, de VHS, de CD, de DVD, o espanto é geral. É como se fosse coisa do outro mundo. Não estou negando o presente. Estou querendo aprender com o que restou de ontem. Os valores culturais, a arte, a história de cada um. Os porquês.
     Um dia desses vi um especialista em culturas contemporâneas avisando que a edição de Livro (ainda) poderá resistir a "Revolução Tecnológica" até 2050. Enquanto que os jornais e as revistas poderão deixar de ser impressos bem antes dessa data estimada. Porém, nem tudo está perdido, é óbvio. As novas ferramentas estão aí nos possibilitando em adquirir novos conhecimentos. Tudo irá depender da maneira como  cada pessoa assimila esses processos.
     A seguir, a música Naturalmente. A melodia é de João Donato (cantor e compositor muito conhecido nos meios artísticos) e a letra é de Caetano Veloso, de 1975. Outros cantores gravaram esta canção como a Fafá de Belém. Mas, na interpretação da Miúcha, é simplesmente fantástico!

      NATURALMENTE

Ter nada, nada para ter
Ter cada estrada para andar
Andar em cada para ser
Ter cada  nada para dar
Ser gargalhada  para rir
Ser a  palavra  para  dar
Ser  serenata para ouvir
Ser ser e nada para amar
Saber a  calma  para ir
Perder a pressa para estar
Perder o verbo para si
Saber o sonho  para lá
Ouvir a rima dor
Cantar a nota para o céu
Achar a forma para a flor
Naturalmente para Deus
        Ter nada, nada para ter
        Ter cada estrada para andar
         Andar em cada para ser
         Ter cada  nada para dar
         Ser  gargalhada para rir
         Ser a  palavra  para  dar
         Ser serenata para ouvir
         Ser o  nada  para  amar
         Saber a calma para ir
         Perder a pressa para estar
         Perder o verbo para si
         Saber o  sonho para lá
         Ouvir a rima dor
         Cantar a nota para o céu
         Achar a forma para a flor     
          Naturalmente para Deus
Viva Belém do tucupi
Belém, Belém do tacacá
Belém, Belém do açaí
Belém, Belém do Grão-Pará.

Que criação, gente! Dos 36 versos que compõem o poema, apenas seis não são iniciados por verbos. Todos os demais, sim, e verbos das tres conjugações. Ouça esta canção e voce jamais deixará de cantarolar: "Belém, Belém do..."

Referencias
1. A Música de..., caixa com 6 LPs e encarte, PolyGram Discos/Philips, 1982.
2. Lyrics.wikia.com
Tecnologia do Blogger.