Dominguinhos: ''Lá onde a lei seja o amor'' (II)

      Na semana passada fiz uma abordagem sobre a origem humilde do menino José Domingos, do artista Dominguinhos, do pai de família, etc. Hoje, faço um comentário sobre a consagração da carreira, da versatilidade de compor e de tocar, assim como a seriedade com que lidava com os parceiros músicos .
     Dono de uma carreira repleta de participações especiais com nomes conhecidos da MPB, principalmente de nordestinos. Um desses é  Oswaldinho do Acordeon, que garante: "A bagagem musical que traz Dominguinhos, seu carisma, sua experiência, andanças e tudo mais, é que fazem dele um produto nacional de muita responsabilidade para o povo brasileiro. Para nós acordeonistas, é um superstar, para o povo sofrido do Nordeste, é uma estrela guia que o leva até Gonzagão, e para quem curte um Free Jazz, ele será sempre um sanfoneiro pop."    
        Ele quer dizer  que o trabalho desse artista, é feito de coragem e versatilidade, pois "criou uma obra que é, ao mesmo tempo, regional e universal. Ao absorver a qualidade de sua sanfona, a MPB ficou mais rica e criativa".
       Depois de tanto querer, em 1964, aos 23 anos de idade, lança seu primeiro LP. Três anos depois, segue com Gonzaga para shows no Nordeste. De volta ao Rio de Janeiro, continua com as apresentações, também em São Paulo. Mas, apesar de admirado e respeitado pro diversos artistas nacionais, "ele passou ligeiramente ao largo de movimentos que se sucederam nos anos 60, como a Tropicália e a Jovem Guarda".     
      Em 1972,  segue para uma temporada no Teatro Castro Alves, em Salvador, com Luiz Gonzaga. Na plateia, estavam 4 observadores ilustres: Gil, Caetano, Gal e Bethânia, fãs do velho Lua e ídolos do jovem sanfoneiro.
      Caetano e Gil tinham acabado de voltar do exílio em Londres. Sabiam que a censura ainda era muito forte. Por isso, foram redescobrir tradições nordestinas, sons agrestes, ritmos regionais, sanfonas interioranas. Com esse tino, reconheceram em Dominguinhos um talento ainda desconhecido do grande público. A partir de então, o músico passa a ser visto nas apresentações tropicalistas. Por exemplo,tem participação  no disco Refazenda de Gil e no LP e show Índia, com Gal. Apesar de ser criticado pelo jeito original de ser. Mas era ignorado pela força de sua sanfona.
      O voo era ousado - a atitude de "juntar-se" aos baianos. Mesmo assim, resolveu pagar para ver. Afinal, era a oportunidade que tanto almejara. O mestre Lua dera-lhe o impulso inicial. Mas Dominguinhos não queria ser apenas seu sucessor na sanfona. Até "porque sua musicalidade corria por outras trilha".  Apesar da paixão pelo forró, sabia que não tinha as características musicais do padrinho.
      O próprio cantor reconhece: "O meu problema é que eu gosto de outros tipos de música, gosto do trabalhar com Gil, com Hermeto Pachoal, e não poderia ser o Rei do Baião. Isso me limitaria a ser o outro Gonzagão, homem dono de uma incrível  personalidade musical e pessoal".   Gil concorda e os define assim: "Luiz Gonzaga é solar, impulsivo, esfogueado, enquanto Dominguinhos é uma figura calma. Gonzagao serio hot e Dominguinhos o cool".
      Anos depois, Luiz Gonzaga reconheceria dizendo: "Quem urbanizou mesmo a música que eu criei foi Dominguinhos, êmulo meu, que se mantém  fiel ao Nordeste". Eu outras palavras, ocorrei isto: O padrinho trouxe uma linguagem autêntica do Nordeste, e o afilhado a técnica  que cativou o público de todas as classes.
      Ainda nos anos 70, uma tarefa espinhosa para Dominguinhos superar. Ele precisava provar para as classes médias urbanas que seu trabalho era sério, verdadeiro, isto é, mais que um artista regional, era cultural, e não apenas um produto comercial, um rótulo para consumo. Tinha razão. Apontou e acertou o alvo. Em 1974, Gil, estoura nas paradas de sucesso de todo país  com Eu Só Quero Um Xodó, de Dominguinhos e Anastácia.
      Outra originalidade estava exposto: a canção era uma criação  genuinamente nordestina, com vocabulário nordestino e alma de sanfoneiro pernambucano. Assim, os criadores podiam comemorar uma vitória  em dose dupla: 1. a canção venceu preconceitos advindos do público; 2. era hora de conseguir espaço no mercado fonográfico,  sem no entanto, abrir mão dos seus princípios pessoas e profissionais. 
      A partir de "Xodó", a carreira de Dominguinhos entrava em ascensão. A MPB daquele final de década de 70 e in´i cio da de 80, contava com novos caminhos, com novos horizontes da música, como nomes que se fortaleciam como Lô Borges, Beto Guedes, grupos como Boca Livre e 14 Bis, Rita Lee, entre outros. Gal incendiava o país com Festa do Interior; Chico Buarque lança o LP Almanaque; o rock nacional fica eletrizante com a banda Blitz; e Dominguinhos fazia sucesso com Quem Me Levará Sou Eu, de autoria dele com o carioca Manduka, na interpretação de Fagner. Outro hit como  Abri a Porta, de Dominguinhos e Gilberto Gil, interpretado  pelo pessoal do A Cor do Som.


     Diante isso,  o pernambucano havia se tornado um êxito  de vendagem de discos. Passando a ser uma  excelente opção musical, apesar de algumas restrições  do mercado de discos, alheias, é claro, à sua vontade.
       Porém, foi em meados dos anos 80, que cresceram as vendas de discos, com a romântica  De Volta Para o Aconchego, grande sucesso na voz de Elba, e com o forró  lascado Isso Aqui T´a Bom Demais, na voz de Dominguinhos e Chico Buarque, e também parceiros na criação  de Tantas Palavras. Ainda nesse período  o sanfoneiro segue com Toquinho no espetáculo  Canta Brasil, rumo ao Teatro Sistina, em Roma.
     No entanto, tudo isso (essa fase pela qual passava a música brasileira), não foi o suficiente para evitar uma crise no setor. O domínio da televisão era pesado. Esse meio era tido como o criador de hits. O lema velado era: 'O que não estava na TV poderia cair no esquecimento'. "Poucos artistas escaparam desse fenômeno". Dominguinhos entrou na lista das vítimas  do estreitamento do mercado. Dominguinhos lança ótimos discos, mas as vendas caem, apesar de manter sua originalidade e ter o seu público cativo.
        Só no final dos anos 80, ele pôde voltar, mas nas cidades do interior do Nordeste. Foi buscar novos caminhos para continuar mostrando seu repertório. Foi, quando, então, em 1993, cria o projeto Asa Banca, patrocinado pela CEF, cujo objetivo era fazer shows gratuitos até nas praças públicas das cidades do interior, como ocorreu em Minas Gerais, Goiás e Tocantins. Assim foi até o final daquela década.
         "Dominguinhos poderia ter construido  sua carreira como artista eminentemente regional. Porém, a diversidade e a criatividade do sanfoneiro foram tão grande que a transformação em cantor e compositor de temática  universal foi inevitável."  Isso quer dizer que com ele surgiu um novo ciclo para os sanfoneiros, ou seja, estava superada a barreira que separava a música  regional (mas, especificamente do Nordeste) do núcleo da MPB (da dos centros urbanos do Centro-Sul do país).
     Nessa empreitada, a mais importante parceria foi a de Gil, o qual além de representar o sanfoneiro ao grande público, com Dominguinhos, compôs duas belas canções: Abri a Porta e Lamento Sertanejo. Por bem lembrar, a segunda foi gravada por Maria Bethânia no CD Imitação  da Vida, de 1997 e Gostoso Demais, para a trilha sonora do filmo Aventuras de Um Paraíba.
        A partir dai,  as influências se multiplicaram e as co-autorias  diversificaram. Com Nando Cordel, fez Aqui T´a Bom Demais; De Volta Para o Aconchego; e Gostoso Demais; com o carioca Manduka, fez Quem Me Levará Sou Eu, etc. Dessa forma, foram somando-se os parceiros como Chico Buarque, com quem fez Tantas Palavras; com Guadalupe, fez Diz Amiga; com Airton de Oliveira, fez Canto Nordestino; com Clésio  (da dupla Clodó e Clésio), fez Querubim; com Abel Silva, fez Quando Chegar o Ver~ao, além de outros nomes com Fausto Nilo, Climério, etc.
        Os intérpretes   também são  muitos. Além dos já citados, eis aqui outros como Anastácia, que gravou inúmeras canções de Dominguinhos; a cantora Guadalupe, com quem fez Esse Mato, Essa Terra; o grupo  A Cor do Som, com Abri a Porta. Porém, a boa notícia  o legado de Dominguinhos e Luiz Gonzaga, continua bem representado. Cito aqui dois jovens sanfoneiros que estão indo muito bem. São eles: o pernambucano Cezar Thomaz Silveira, o Cezzinha do Acordeon, ou simplesmente, Cezzinha, de 28 anos  de idade  e o sergipano Erivaldo Oliveira, o Mestrinho, de 24 anos de idade.
       Como os intérpretes  da arte de Dominguinhos, as cantoras são show. A Elba Ramalho, é um caso à parte. É simplesmente divina. No entanto, as duas artistas que realmente o impulsionaram   rumo ao sucesso, foram a cantora Lucinete Ferreira, ou  melhor, a Anastácia (que no dia 30 de maio próximo completará 76 anos de idade e 61 anos de carreira). A parceria entre os dois, ambos nascidos em 1941, perdurou por cerca de 12 anos. "Em 1966, tiveram o primeiro encontro profissional. No ano seguinte, depois de excursão com Luiz Gonzaga, a parceria musical e o romance foram inevitáveis. Juntos compuseram diversos sucessos, como Tenho Sede e o clássico  Eu Só Quero Um Xodó. Dessa maneira, surgiu uma talentosa dupla de artistas nordestinas. A sanfona encontrou na voz e nas letras de Anastácia terreno fértil para dar vazão a seguimentos sertanejos".
        A outra cantora foi Gal Costa. Em 1970, quando do show  Índia, cuja expectiva  pelo   público  e pela crítica  era grande, a baiana sobe no palco acompanhada de um rapaz vestido com roupas de couro nordestinas e segurando uma sanfona. "O povo ria quando eu entrava no palco da Gal", Lembrava Dominguinhos anos depois. E concluindo diz: "Pensavam que eu ia estragar o show todo, atrapalhar a Gal. Chegavam até a vaiar. Mas, no final, viam que a sanfona pode tocar tudo, e ser bonita sempre. Muito garoto aprendeu a respeitar a sanfona a partir dali e esse ´e o meio maior orgulho".
        Senhor de uma discografia invejável! Entre 1964 e 2010, foram lançados mais de 40 LPs, alguns CDs, e um ou dois DVDs. S´o para exemplificar: em 2007, gravou o CD Canteiro, com participação especial de Margareth Darezzo; em 2009 grava o DVD ao vivo em Nova Jerusalém, com participação de Yamandu Costa, e por aí vai. Seu último trabalho foi o CD Iluminado, em 2010. 
       Porém, como ninguém se sobrepõe ao tempo, no dia 23 de julho de 2013, morre José Domingos de Moraes, aos 72 anos de idade, vitima de câncer pulmonar. Se vivo estivesse, ontem teria completado 76 anos. No entanto, o artista persistirá no tempo, e sua obra entrará para a posteridade. Assim como durará por muito tempo a sua última sanfona, que deve estar preservada em um canto qualquer (pelo menos, espero que sim). Dominguinhos se foi. Ele foi abrir a porta do aconchego perpetuuum, lá onde a lei seja o silêncio .
       Quanto aos seus seguidores, que admiram e respeitam a ARTE de Dominguinhos, só resta manter sua obra cada vez mais viva. Toda homenagem será bem vinda, mesmo que póstuma, para o bem de todos e felicidade geral da cultura nacional. Lá em Recife, PE, por exemplo, mas precisamente na Rua General Polidoro, no bairro da Várzea, próximo a UFPE, Zona Oeste, no Restaurante Arriégua, sanfoneiros de todos os lugares, de todas as idades se reúnem no dia 23 de julho para tocarem as suas musicas  e reviverem a saudade dele. Luis  Ceará, dono do restaurante diz:
        "Nós temos saudade. Mas, mais que saudade, temos orgulho. Orgulho de ele ter deixado esse legado, que faz tantos jovens e crianças se inspirarem nele".
        " Ele vivia viajando , mas, quando chegava, sempre vinha aqui para comer aquela comidinha diferente". 
        Lá no Arriégua, o senhor Luiz, mantém, a caráter, uma mesa e sobre ela, uma sanfona. Você já sabe o porquê. Por isso mesmo. Pois sempre que podia ia até lá saborear uma galinha caipira com xerém, sem sal. Parabéns ao proprietário por essa iniciativa, juntamente com todos os músicos que até vão, assim como os demais frequentadores.
        Apesar de Lamento Sertanejo ser uma das mais grandiosas canções que já ouvi, peço licença ao meu leitor para exibir aqui a letra de Gostoso Demais, que apesar de versos simples, sua melodia é indiscutivelmente bela.

        GOSTOSO DEMAIS

Tô com saudade de tu, meu desejo
Tô com  saudade do beijo e do bel
Do teu olhar carinhoso
Do teu  abraço gostoso
De  passear o teu céu
  
        É tão  difícil ficar sem você
        O teu amor é gostoso demais
        Teu cheiro me dar prazer
        Quando estou com você
        Estou nos braços da paz

               Pensamento viaja
               E via buscar meu bem-querer
               Não dá pra ser feliz, assim
               Tem dó de mim
               O que eu posso fazer.

       Fonte:
       1. www. musixmatch.com
       2. wikipedia.org
       3. G1.globo.com
       4. www.apontador.com.br
       5. Dominguinhos, Col. MPB Compositores, encarte 34, ed. Globo/RGE Discos, SP, p.1997.
       6. CD Col. MPB Compositores, vol. 34
       
 
Tecnologia do Blogger.