Dominguinhos: ''Lá onde a lei seja o amor''

      José Domingos de Moraes, nasceu no  12 de fevereiro de 1941 (se vivo estivesse, na próxima semana, estaria completando 76 anos de idade), no Município de Garanhuns, no agreste pernambucano, onde é  visível a marca forte da cultura  nordestina no sertão.
      Filho de Francisco Domingos da Silva, o Chicão e Maria de Farias, e irmão de José de Moraes e Valdomiro Domingos de Moraes. Seu pai era um homem simples e tocador nas redondezas da cidade, sem, no entanto, ter estudado música. Dominguinhos o acompanhava sempre, nos fins de semana.
      Porém, era sua mãe que levava os filhos para tocarem nas feiras populares, onde adquiriam algum dinheiro para completar a renda familiar. Ela acreditava piamente no talento musical deles. Assim como achava que o marido era bom músico, o qual, além de tocador de xote e xaxado, tinha como profissão, afinador de sanfonas. Portanto, as lembranças mais remotas dos primeiros passos da sua carreira são da mãe.
      Aos 8  anos, o menino já compunha, tirando os sons da sanfoninha de 8 baixos. Foi, quando, então, os três irmãos formaram um grupo musical, Os Pinguins. A partir daí, quem chegasse na cidade  se deparava com o trio animando as festinhas. 
      Certa feita, um dos visitantes foi o cantor Luiz Gonzaga, já considerado o maior representante da música nordestina. Ao saberem, os irmãos rumaram para a hospedaria do Rei do Baião. Lá foram elogiados pelo tarimbado Lua. A desenvoltura do garoto que tocava a sanfona, foi adotado como afilhado. Assim, alguns anos depois, nascia uma parceria que atravessaria o tempo e tornando Dominguinhos como um dos mais importantes artistas da sua época.
      Quatro anos depois daquele encontro efêmero, em 1954, aos 13 anos de idade aquele jovem simples do interior do Nordeste  desembarca na rodoviária da cidade do Rio de Janeiro, acompanhado pelo pai e pelo irmão Valdo. Nas costas portava uma pequena e surrada sanfona, nas mãos trazia o endereço de Gonzaga - conseguido lá em Garanhuns - e na cabeça o sonho de uma vida mais digna e com uma oportunidade no mundo artístico.
       Agora, em solo carioca, ele convivia com as incertezas e as dúvidas que cercam a vida dos imigrantes. Os primeiros meses ali passaram rápido; os anos 50 estavam chegando ao fim. Dominguinhos precisava sobreviver, é óbvio. E, seu oficio, acreditava ele, era a música. Como havia ganhado uma sanfona de 80 baixos novinha do padrinho, com ela passou  a subir nos palcos, animando bailes madrugada afora. Depois seguia diariamente para a Rádio Tamoio, num programa que ia ao ar às 5 da manhã. 
       Como o mercado carioca estava fraco, com o irmão Valdo rumou para um cassino em Vitória, ES. O sanfoneiro relembra aqueles tempos, assim: "Eu fazia um número de forró no cassino, mas o que dava dinheiro mesmo era tocar na boate do lugar, no fim de semana. Aí eu fui me chegando e aprendendo aquilo. O primeiro samba que aprendi foi Feitiço da Vila.  Eu nunca tinha ouvido nada daquilo antes". Nesse formato começaria  a carreira daquele viajante. 
       Aos 17 anos se casou com Janete Silva de Moraes, com as bênçãos de Luiz e Helena Gonzaga, com quem teve dois filhos: Mauro José de Moraes e Madeleine Silva de Moraes. Porém, a união durou poucos anos. A partir da separação, o consolo veio por meio das viagens com Gonzagão   e Anastácia. Com ela, inclusive, teve um romance que terminou no início dos anos 70. Quando outra mulher entrou na sua vida, a cantora Guadalupe, ou melhor, Guadalupe Vieira Mendonça, com quem teve uma filha, Liv Mendonça de Moraes.  
        Com habilidade, versatilidade e originalidade com o instrumento, aos poucos sua sanfona foi se acostumando às novas cadências, tornando-se, após mais de seis décadas, uma das mais criativas e tocadas do Brasil. 
        Em 1967, Luiz Gonzaga "partia para mais uma de suas longas jornadas pelas pequenas cidades do interior do Nordeste, levando, desta vez, Dominguinhos e Anastácia, cantora recifense que fazia sucesso em São Paulo". Anos mais tarde, ao relembrar desse tempo, disse: "Foi uma fase muito bonita na minha vida". 
       Segundo Wharryson Lacerda e Márcia Blaques, que fizeram uma acurada pesquisa sobre a carreira de José Domingos, concluíram o seguinte: "Um músico é a síntese de diferentes elementos, como talento, inspiração, força de vontade, perseverança e oportunidade. Uma mistura que resulta em arranjos e harmonias. No caso de Dominguinhos, essa composição surgiu a partir da origem nordestina, da luta por uma vida digna, do temperamento calmo e da disposição em assimilar novas informações. A isso juntaram-se os temperos brasileiros tradicionais, as pitadas de sonhos modestos que habitam o mundo do povo". 
       Como são reais estas palavras. Como são fortes e nos tocam emotiva e artisticamente. Como retratam em PRETO e BRANCO (ou em "branco e preto, como no poema de Chico Buarque), os mais de 60 anos de carreira desse peregrino dos sons, dos ritmos, dos tons, das parcerias consagradas, da dor e da cor espalhadas pelos vários sertões, dos vários Nordestes, dos   vários Brasis, captados pela lente da mente de Dominguinhos. 
        Para se ter uma maior percepção de tudo isso, seja por parte do ouvinte, seja por parte do fã, ou do pesquisador da sua obra, não basta apenas, ter boa formação com as letras, com a música erudita, ser famoso e afortunado, mas, acima de tudo ser brasileiro autêntico, ser nordestino declarado, ter sensibilidade como gente. 
        E brasileiros com essas características estão em todos os cantos, em todos os lugares dos 8,5 milhões de quilômetros quadrados desde país. Por exemplo, em julho do ano passado (2016), mês que marcava o terceiro mês da morte de Dominguinhos, deparei-me com um jovem-senhor, no centro de Manaus, AM, vendendo uma pilha de discos de vinil. Entre tantos, um lote com 13 LPs do cantor Dominguinhos, cujos títulos são: Ó Xente! (1978); Apôs tá Certo (1979); Quem Me Levará Sou Eu (1980); Querubim (1981); Simplicidade (1982); Isso Aqui tá Bom Demais (1985); Gostoso Demais (1986); Tá Bom Demais (1986); É Isso Aí! Simples Como a Vida (1988); Veredas Nordestinas (1989); É Brasil (1991); Garanhuns (1992); e O Trinado do Trovão (1993). Todos em ótimo estado de conservação.
         Pensei: "Só sendo maluco, para se desfazer dessas obras-primas da nossa música". Comprei os 13. Mas, cético e curioso ao mesmo tempo, antes de ir embora, quis saber o porquê da venda daquele lote em separado, do mesmo autor. O homem foi enfático e tristonho, simultaneamente respondeu: "Meu pai tinha todos os discos de Dominguinhos, uns 40 e poucos, mas faleceu poucos dias depois da noticia da morte do cantor. Mas, já doente, fez um pedido: que os LPs fossem divididos em três lotes, e cada um fosse vendido  nos três primeiros anos da morte do ídolo, no mesmo mês.  Meu pai era devoto de santo Dominguinhos, como ele mesmo dizia. Para meu velho, ele cantava os hinos do amor, da paz, da vida em ritmos". Nada mais disse.   
       É isso mesmo. Só um "serumaninho"  de coração muito contraído não relaxa seus batimentos quando ouve as músicas de Dominguinhos. A gente canta seus versos e se encanta com a sonoridade alegre e dançante de suas melodias. Poe exemplo, é assim com De Volta Para o Aconchego; Quem Me Levará Sou Eu, Abri a Porta;  Eu só Quero um Xodó; Lamento Sertanejo; Tenho Sede; Isso Aqui Tá Bom Demais e tantas outras.  
        Sua criação artística é genial. Geralmente ele estrutura primeiro a melodia, depois a letra, às vezes, os parceiros se encarregam  dos versos. Busca os temas, de modo interativo, acha saídas e descobre novas veredas. Outros artistas também fazem isso? Sim. É verdade. Mas, Dominguinhos era singular. Sua habilidade com a música era ímpar no manejo com o acordeon.  Quando o trabalho ficava pronto, o resultado audível vinha mesclado a informações recolhidas nos caminhos percorridos, pisando em pedregulhos na estrada da vida, e com forte identificação com as suas origens. Por isso foi beber água nas fontes de tantos outros ritmos musicais. 
         O próprio artista ratifica as palavras acima quando afirma:"Tocar, eu toco de tudo mesmo. Depois que você tem experiência, não é difícil tocal com Gil, com Gal, com qualquer que seja, porque eles começam uma música e você já sabe pra onde vai, já sabe tudo. Agora, é só quando eu toco toada, baião e forró é que eu sinto aquela coisa flamejante aqui no peito"
        O editor da Coleção MPB Compositores certifica: "Luiz Gonzaga deu o tom e Dominguinhos emprestou à sanfona sotaques novos e diferentes. Não abandonou o baião do seu padrinho, mas também não deixou de brincar em outras praias da música brasileira. O trabalho de Dominguinhos é mais uma prova de que pouco importam os sotaques ou as origens quando se trata de fazer música. No universo dos sons e dos ritmos o que conta mesmo é a sensibilidade, responsável pela emoção, e o talento, capazes de transformar ideias e conceitos em obras de arte".
      A fotografia é um dos ramos do conhecimento humano fascinante. Sem nenhuma oposição ao irrefutável avanço tecnológico do mundo atual, onde tudo é virtual, tudo é digital, etc e tal. Onde "tudo é novo/tudo é maravilhoso (Belchior)". Com Dominguinhos não foi diferente. Ele viveu  a era do clic das máquinas fotográficas, tanto nos palcos como no meio familiar. As fotos, possivelmente, traziam-lhe mil lembranças e imagens de toda família.
        Em 5 fotos reproduzidas do álbum de família, feitas em momentos distintos, percebe-se a felicidade do cidadão José Domingos de Moraes. Pela ordem: 1. Na frente da escola Prático-Comercial de Olinda, aos 9 anos de idade, com os irmãos Valdo, de  11, Moraes, de 5, a professora e mais 34 coleguinhas; 2. Os 3 quando formavam Os Pinguins, numa apresentação na cidade natal de Garanhuns; 3. No casamento com Janete, ladeados pelos padrinhos, Luiz e Helena Gonzaga; 4. Na festa de 15 anos da filha mais velha, Madeleine, ao lado da ex-mulher, Janete, do filho Mauro e da cantora, ainda pouco conhecida, Gal Costa; e 5. No aniversário de 15 anos da filha caçula, Liv Mendonça, junto com a mãe delac', a cantora Guadalupe.
       E para finalizar esta primeira parte, trago a letra de Abri a Porta, de Dominguinhos e Gilberto Gil, uma das mais belas músicas do cancioneiro brasileiro. Daí, extrai  título desde e do próximo comentário. Confira.

                         ABRI A PORTA

         Abria a porta
         Apareci
         A mais bonita
         Sorriu pra mim
         Naquele instante
         Me convenci
         Que o bom da vida
         Vai prosseguir
         Vai prosseguir
         Vai dá pra lá do céu azul
         Lá onde a lei
         Seja o amor
         E usufruir do bom, do mel e do melhor
         Seja comum
         Pra qualquer um
         Seja quem for
         Abri a porta
         Apareci
         Isso é a vida
         É s vida, sim.

         A moral da história desta canção você já sabe, não?
         Diante de tanta beleza musica, de tão cheia de vida, de tanta originalidade, de tanta poesia, não deixe de acessar a segunda parte no próximo sábado. A consagração da carreira, principais canções, parceiros e interpretes de discos e de palcos, a discografia, a... de Dominguinhos.

 
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