O eterno amor de Carolina e Machado de Assis

       Joaquim Maria Machado de Assis, nasceu na cidade do Rio de Janeiro, mas  precisamente, no Morro do Livramento, no dia 21 de junho de 1839. Ainda criança ficou órfão de mãe, mas foi criado pela madrasta, Maria Inês. Ela fez o papel de mãe e de pai, haja vista o marido, Francisco José de Assis, ter falecido poucos anos depois da esposa, Maria Leopoldina, mãe do garoto. "O menino cresceu, assim, ao lado de Maria Inês, lavadeira e doceira, cujas balas e doces Machado se   encarregava de vender na porta dos colégios que não podia frequentar".
       Moleque de morro, magro, franzino e doentio, eram essas as principais características da vida difícil que qualquer menino pobre do Rio de Janeiro da década de 1840 levava. Escola era privilégio dos bem nascidos da vida, dos que tinham pai doutor, fazendeiro, ou, pelo menos, funcionário público. Da escola mesmo, só herdou o bê-á-bá e alguns números de somar e subtrair. O pouco de instrução que obteve foi por esforço próprio e a ajuda do padre Silveira Sarmento.
       Sua biografia é sóbria. Assim como é sóbrio o seu estilo de vida. As poucas fotografias que se conhece dele, o retratam bem vestido de terno e colete. "Machadinho", como era chamado pelos amigos, nunca foi de grandes travessuras de criança, nem grandes aventuras de rapaz, nem mesmo de grandes amores. Paixão grande de verdade, só por Carolina, recebida como esposa em matrimônio sacramentado.
       A jovem Carolina Xavier Novais (de Assis) foi a grande companheira de Machado durante os longos 35 anos de casamento. Portuguesa de nascimento, ela veio já moça para o Brasil, enfrentando forte oposição paterna para se casar com o escritor. Todos que conheceram o casal, garantem que os dois foram felizes durante toda a convivência, apesar de não terem filhos. Essa felicidade durou até 1904, quando ela morreu.
       Mas a vida prossegue. Até os 16 anos de idade, quando consegue publicar seu primeiro trabalho, Joaquim viveu no amargo de um menino pobre que ainda bem cedo, decidiu ser escritor. Cercado de pobreza por todos os lados; vivendo de modestas vendas de doces, desde pequeno aprendeu a cuidar da própria vida; sonhava com emprego seguro e melhor remuneração. Como era muito inteligente e esforçado - apesar da falta de estudos escolares -, o jovem "conseguiu aproximar-se de intelectuais e jornalistas, que lhe deram as primeiras oportunidades de sua vida".
        O padrinho que não tivera quando criança, tem agora, aos 16 anos.Seu nome: Francisco Paula Brito (1809-1861). Dono de uma tipografia e livraria. Foi ele que publicou "Ela", a primeira poesia machadiana. Dois anos depois, os dois se tornam patrão e empregado, respectivamente. Na loja de Brito, Machado corrigia originais, fazia revisão de textos e, nas horas vagas, trabalhava como caixeiro, vendendo livros.
        "A presença constante de Machado no ambiente da livraria facilitou-lhe os contatos úteis com gente importante. E foi essa gente, por sua vez, que lhe abriu novas portas, dando-lhe oportunidade de continuar a publicação de seus escritos em vários jornais e revistas. Machado, aos poucos, vai temperando a mão e acertando o passo. Começa a germinar o futuro autor de Memórias Póstumas".
        Em 1869, aos 30 anos se casa com a mulher amada, a bela Carolina. Não foi uma missão fácil. Ele ainda não era o escritor conhecido. Mas também não era um zé-ninguém: trabalhava em jornais, frequentava rodas intelectuais e tinha seu emprego público. "Mas era mulato, pormenor imperdoável para a família de Carolina, portugueses preconceituosos. Decididamente Machado não era um bom candidato a marido, pelo menos o marido de Carolina, irmã do poeta português Faustino Xavier, que viera ao Brasil numa viagem cultural".
        Do Brasil, o poeta português, não saiu mais. Chamou a família, vem a irmã solteira. Ela conhece Machado. Apaixonam-se. Querem casar-se, mas os pais dela se opõem. O carioca briga contra a oposição, contra o preconceito. Ele busca apoio de aliados nas rodas de ilustres intelectuais da cidade maravilhosa. "E, como num romance romântico, o Amor vence: Joaquim e Carolina se unem, num casamento tido por felicíssimo, que dura trinta e cinco anos".
        Homem de modos simples: espírito caseiro, horror a agitações, casa simples e organizada. A mulher, além dos afazeres domésticos, servia ao marido como secretária, passando a limpo originais, sugerindo aqui e ali uma mudança de palavra, uma correção gramatical. Assim, os dois, pertenciam àquela espécie rara de casais felizes, de união duradoura.
         Há quem diga que o casal Carmo e Aguiar, do último livro de Machado, o Memorial de Aires, retrata o próprio casamento do escritor. Esse livro publicado no mesmo ano (1908) em que morreu Machado de Assis, talvez seja uma homenagem póstuma a Carolina de  Assis.
         Machado fez de tudo. Foi operário de gráfica, revisor de editora, vendedor de livros, jornalista e escriturário de repartição pública. Sabia, também, produzir um livro materialmente, na gráfica. Na imprensa, não foi diferente: fez comentários políticos; criticou e elogiou peças de teatro e romances alheios; escreveu editoriais e anúncios; publicou folhetins de sucessos, etc. E, nas entrelinhas de tudo isso redigiu o que de melhor se produziu na literatura brasileira do século XIX.
        A obra de Assis pode ser dividida em: Contos (7 livros); Romances (9 livros); Poesia (4 livros) e Teatro (10 livros). Além de crônicas e textos críticos, reunidos em livros após a morte do autor. Entre tantas obras renomadas dele, que, por sinal, até hoje retratam bem o Brasil e sua sociedade capenga, está Relíquias de Casa Velha, dedicado à esposa amada.
        "Decoro, compostura, respeito à autoridade, modéstia, timidez, espírito conservador, hábitos rotineiros - tudo isso foi o escritor na vida particular e pública", por um lado. Por outro, frequentava ambientes intelectuais, onde estavam amigos de grandes homens, de pessoas famosas. Costumava visitar a Livraria Garnier, para ver livros, mas sem dúvida, também para ser visto. Mas, convenhamos, tratava-se de Machado de Assis. Ponto final.
         Ele que chegou até mesmo a ser, em sua época, um homem de renome: elogios, condecorações e promoções não lhe faltaram; foram o tradicional coroamento de uma vida dedicada, em parte, à conquista de respeito e prestígio social. Mais tarde ainda, alcançou a glória. Uma faixa, por exemplo, estampava estes dizeres: "MACHADO DE ASSIS: DO MORRO DO LIVRAMENTO À  ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS".
        Ajudou a fundar a ABL e da qual foi aclamado presidente perpétuo. Atualmente, lá está uma estátua de bronze em sua homenagem, e aquela instituição também pode ser chamada de a Casa de Machado de Assis. O reconhecimento não para por aí. Em 1974, o poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), publica o magnífico poema: "A UM BRUXO, COM AMOR". São quase 90 versos de pura reverência a Machado, no qual começa assim: "... casa da Rua Cosme Velho"; e finda: "... sem mais resposta,/sais pela janela, dissolves-te no ar". E lá pelas tantas, o poeta é enfático quando diz:

                 "Outros leram da vida um capítulo, tu leste o livro inteiro.
                   Daí esse cansaço nos gestos e filtrada,
                   uma luz que não vem de parte alguma
                   pois todos os castiçais estão apagados".

         Porém, tudo passa. No dia 29 de setembro de 1908, três meses após o mestre da pena ter completado 69 anos de existência, e quatro anos da morte de Carolina, morre Joaquim Maria Machado de Assis, "numa situação muito diferente daquela em que nasceu. Se sua origem foi obscura, seu falecimento foi notícia nacional". Seu corpo velado na ABL, foi homenageado por Rui Barbosa. De lá  saiu para ser sepultado no Cemitério São João Batista, na cidade do Rio de Janeiro, ao lado do túmulo da eterna Carolina de Assis.
         A seguir, a integra do soneto A Carolina, feito após a morte dela, numa das vezes que ele visitava seu túmulo. É de uma beleza inigualável.

               A CAROLINA

Quando, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas desta longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.

        Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
        Que, a despeito de toda a humana lida,
        Fez a nossa existência apetecida
        E num recanto pôs um mundo inteiro.

                Trago-te flores, - restos arrancados
                 Da terra que nos viu passar unidos
                 E ora mortos nos deixa e separados.

                        Que eu, se tenho nos olhos malferidos
                        Pensamentos de vida formulados,
                        São pensamentos idos e vividos.

        Que atitude bela, brilhante. Façamos nós também, as homenagens de amor e carinho, respeito e admiração  às pessoas que amomos, tanto em vida como após ela.

         Referência
         1. Machado de Assi. Literatura comentada, Abril Educação, SP, 1980, pp. 3 a 13.33
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