Nietzsche: ''Glória e Eternidade''

      LIVRO PARA TODOS. O tema refere-se a coleção de livros de bolso, como nova opção ao leitor brasileiro, a qual reúne o melhor da literatura clássica e moderna. Na apresentação da obra Ecce homo, de Nietzsche, o coordenador do projeto, Daniel Louzada,  justifica a iniciativa editorial, assim: "Reafirmando o compromisso da Livraria Saraiva e da Editora Nova Fronteira com a educação e a cultura do Brasil, a Saraiva de Bolso convida você a participar dessa grande e única aventura humana: a leitura".
      Não quero ser ousado ao comentar uma obra desse pensador. Meu objetivo maior é aprender e passar esse aprendizado às pessoas, principalmente aos leitores do Facetas. A introdução de Ecce homo é de autoria do mestre Afonso Bertagnoli. Sua narrativa é tão bela, tão apaixonante, que jamais deixaria de resumi-la, como faço a seguir.
      Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900), nasceu em 15 de outubro, filósofo alemão, de família protestante, sua educação reflete fortemente essa doutrina, daí o apelido de "o pequeno pastor". Ainda na adolescência aprofunda suas leituras nos escritos de Schiller, Holderline e Byron, além de Platão e Ésquilo, que o afastaram para sempre do cristianismo.
      aos 24 anos, pouco antes de ser professor de filosofia na Universidade de Basileia, lê Schopenhauer e conhece o compositor Wagner. A partir de então, a música e tragédia grega passam a ser temas recorrentes de suas obras, como seu primeiro livro, O nascimento da tragédia, em 1872, aos 28 anos.
      Em 1870, foi ser enfermeiro voluntário na Guerra Franco-Prussiana. Essa experiência somada aos seus problemas de saúde, que o deixaram sem voz nove anos depois, serve de matéria-prima para Assim falava Zaratustra (1883), Ecce homo (1888) e O anticristo (1888). Nos últimos dez anos de sua vida, sofreu de loucura até morrer em 25 de agosto de 1900, aos 55 anos.
      Em tempo recorde, ou seja, em 20 dias - de 15 de outubro a 4 de novembro de 1888 - escreve Ecce homo, no qual narra "a gestação de toda a sua obra, livro por livro (...) sem as lendas que falseiam a realidade em sua plenitude".
      "Aqui e acolá, nota-se, ao lado de lampejos geniais, a inconsistência da loucura. Todavia é o livro que melhor se enquadra como pórtico de toda sua obra. As expressões nele vazadas são dignas do anunciador do Super-Homem, perfazendo cenas lancinantes dessa tragédia da agonia de um grande espírito".
      Passados 14 meses do término de Ecce homo, ou melhor, a 3 de janeiro de 1889, o filósofo fica louco ab-ruptamente, vagando como desconhecido entre a multidão indiferente que passava por ele, em uma rua de Turim, sob o céu da sua doce Itália.
      "O pensador das alturas se projetava na voragem insondável de noite eterna. Quiçá uma satisfação íntima dominou os últimos instantes da sua vida intelectual: a de ter encerrado o ciclo da obra prodigiosa com um livro, admirável em síntese, que é o retrospecto de sua alma criadora. Essa obra é o Ecce homo, testamento que contém, há um tempo, exaltações e desânimos, valendo como esplendente espelho de uma vida genial e gloriosa. O Super-Homem do futuro voltava as vistas ao passado, analisando friamente todas as suas atividades".
      Sua última satisfação consciente, consta numa carta enviada à sua mãe, na qual gaba-se: "Não há nome que atualmente se pronuncie com mais admiração e veneração que o meu". Era a declaração do anunciador do novo mundo.
      "O seu último canto é admirável, soando como profética aquela estrofe: "Eu vejo um signo: das extremas imensidades uma constelação reflui, lenta e esplendente, para mim". Era o sublime firmamento do Ser, repositório de visões eternas.
      "O Ecce homo é confissão soberba, mas não oculta a fraqueza do grande forjador de parábolas. Envaidecia-lhe o título com que se batizara de inventor do ditirambo. Realmente, a sua ufania se justifica, podendo ir bem além. Nietzsche falou uma linguagem nova, toda sua; o idioma de Lutero nunca encontrou tanta força de expressão, nem mesmo em Goethe ou em Heine".
      "O grande mago fez bem em fantasiar-se em oriental das mil e uma noites, porque nunca os nossos olhos viram pedras preciosas mais refulgentes do que as que estão encerradas nesses escrínios que são seus livros".
      "Armado com o pensamento e com a ação, vemo-lo investir resolutamente contra os preconceitos arraigados na alma das multidões, procurando criar novos valores. Serão estes apenas fantasmas? Difícil pergunta de responder-se, mas para ele não existem leis morais ( a moral utilitária e a moral cristã) confinadas em dogmas ou deveres absolutos: a alegria ou a dor, a ilusão ou a verdade, as paixões boas ou más - tudo isso se concretiza na exaltação de sua energia, tornando a vida mais vária, possante e bela".
      O "homem novo", por uma cândida alegria, deixa entrever inclemente satirização da sociedade moderna,  como, por exemplo, o declínio do Ocidente, onde ruem, um a um, os edifícios cujos alicerces já não podem sustentar a mola dos convencionalismos obsoletos, que se multiplicam indefinidamente, como todos os flagelos. Nietzsche ri de tudo isso...
      São dele estas palavras: "Nós, homens novos, inominados, temos necessidade de um escopo novo". Essa era a visão do mal (a doença) que o atormenta. Logo ele, o escultor do sonho, que nos deu as alíneas da carta de fé desse homem novo, repaginado. Do homem do porvir, de uma nova saúde. Isso reflete a agonia do espírito? "É a apoteose da loucura com soberbos repentes de serenidade".
      "O homem que ensina ao coração humano uma vontade nova pedia que fôssemos a nossa própria estrela, a nossa única lei, e os vingadores dessa lei; queria que todo o espírito e toda a virtude inflamassem até a agonia como do crepúsculo incendeia a terra".
      Bertagnoli, continua encantando ao leitor; quando diz: "A vontade de poder (...) resume todo o escopo da vida; mas a luta não se desencadeia para a vida, é a potencialidade que a congloba, ensimesmando-a. Toda energia deve repontar do corpo, simples repositório da vida, que não é somente a conservação do indivíduo mas também a sua reprodução, valendo como agente a vontade. Mede-se a importância de uma progressão pela soma de sacrifícios por ela exigidos. O espírito devia estar perpetuamente livre".
      Nietzsche era a inteligência militante. Um grande demolidor. O Ecce homo retrata isso. O abuso da energia intelectual encontrava uma barreira intransponível na fragilidade de uma carcaça. A loucura, o estupor final dizem quem venceu; mas a obra aí está, monumento granítico, perene, revelador dos voos condoreiros do intelecto mais livre de um século a esta parte".
      Pergunta-se: "Foi-lhe fácil a empreitada? Talvez sim a quiçá não". A sua loucura é a favor do filósofo. Sem a doença que atrofiou sua mente por mais de 10 anos, teríamos apenas um sofrível professor. O estágio de grandeza (não confundir com estado de...) filosófico desse escritor é algo impressionante; de sapiência inequívoca. Portanto, é justificável o apelido familiar de "o pequeno pastor", quando ainda era criança, não apenas no sentido religioso daquela fase da sua vida. Porém, é injusto o hábito do filosofismo catedrático depreciá-lo na sua obra. Apesar de reconhecê-lo como pensador, poeta, escritor, profeta, desprezam-no como criador de valores. Contudo, foi a partir dele que "as antigas pedras angulares da filosofia clássica sofreram sério abalo; os poucos e verdadeiros pensadores que depois dele apareceram são unânimes em confessá-lo".
      Foi Nietzsche que concluiu ser "o homem um animal capaz de formular e de manter promessas", ou seja, o seu domínio diante de situações externas, como sobre outras criaturas.  Não há justiça ou injustiça por si mesmas; "o direito sempre será um estudo de exceção, uma restrição imposta ao instinto essencialmente vital, cujo escopo é faculdade de poder".
      E o castigo que faz parte do convívio humano? "O castigo apenas torna insensível e rude o homem que, pela ação justiceira, é tolhido na faculdade de considerar a sua conduta como má diante da sociedade; a redenção do erro é uma virtude, mesmo quando inconsciente. O remorso é o estado profundamente doentio que se apossou do homem sob a pressão da mutação mais profunda que porventura haja experimentado e que se completou quando - ao sentido histórico - se viu definitivamente enclausurado na sociedade pacificada. O espírito de iniciativa, a temeridade, a astúcia, a avidez, o anseio dominador - todos esses instintos selvagens e fortes, que até então eram não apenas tolerados, mas francamente encorajados, foram ab-ruptamente tidos em conta de perniciosos e pouco a pouco estigmatizados, como imorais e criminosos".
      Sobre a sua obra melhor falará o Ecce homo, sendo todavia necessário levar em conta, na leitura, o estado de ânimo do grande pensador, cujo trabalho pode ser classificado como extraordinário documento de morbidez psicológica incontrolável!
      Por fim, o anunciador de Zaratustra exclama: "Emblema da necessidade! Cenário de visões eternas! - bem sabes o que todos odeiam, aquilo que só eu amo; como és eterna, como És necessária! O meu amor assente impulsionado somente pela Necessidade".
      E num tom de verdadeira nobreza, assegura Bertagnoli: "Talvez, nos raros momentos de lucidez - haja vista que a loucura já indicava seus primeiros sintomas de uma incômoda companhia -, voltejava em seu recôndito aquele verso rebrilhante de genialidade, consagrado no momento extremo, em fecho de seu canto "Glória e Eternidade", à sublime constelação do Ser: "Eu sou eternamente a tua afirmação, porque te amo, ó Eternidade!".
      "Era o resquício da derradeira manifestação na vontade de poder..."
       Independentemente do contexto filosófico, textualmente são palavras que nos remetem à reflexão de vida. Principalmente numa era cujos valores individuais ou sociais, éticos ou morais estão cedendo lugar à temeridade, à astúcia, à avidez. Que o poder emane do povo. Do povo brasileiro, primeiramente.
      ET: muito obrigado, doutora WGS, por este presente: Ecce homo, cuja leitura resultou na maravilha deste comentário, mesmo que modesto.


 1. Nietzsche, Friedrich Wilhelm. Ecce homo: (como cheguei a ser o que sou); tradução Lourival de Queiroz Henkel; introdução Afonso Bertagnoli - 1. ed. - Rio de Janeiro: Agir, 2013.



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