O homem, a História e as contradições

      Não há dúvida que desde a antiguidade, a História da humanidade tem duas faces: de um lado, a veracidade dos fatos, a realidade dos acontecimentos. Do outro, as contradições, as controvérsias, os antagonismos dos hábitos e costumes das civilizações. Nos tempos atuais essas disparidades estão ficando cada vez mais evidentes. É só fazer uma breve análise das ocorrências entre as nações, independentes de serem monarquias, repúblicas, etc. A Guerra Fria, por exemplo, foi um espetáculo mundial durante quase meio século. Os dois países da bipolarização se divertiam à céu aberto, enquanto o resto do mundo tremia de medo. Esse e outros fatos, geralmente, giram em torno da mentira dos governantes envolvidos, é óbvio. Aliás, o jornalista Ricardo Boechat, disse que tudo que um boato precisa para virar verdade é de desmentido.
      Os atores da economia, política, paz e riqueza, pobreza mundiais, inclusive os do Brasil, são ladinos nesses desmentidos. Mas, não é sobre essa classe de indivíduos que quero falar, e sim sobre as suposições, as controvérsias existentes no mundo das artes, dos artistas. Vejamos 5 delas: 

      1. AUGUSTO DOS ANJOS (1884-1914), poeta paraibano, autor de Eu. ´E dele Psicologia de um Vencido, um dos mais belos poemas da língua portuguesa. Onde ele morava, corria a notícia de está mais um acometido pela "Doença dos poetas", ou seja, havia contraído tuberculose. Conta-se, até, que certa vez ele foi impedido de entrar numa igreja por conta dessa suposta doença que o atormentava. E por ser alto o seu grau de contágio, ninguém ousaria ficar próximo da pessoa afetada por esse mal.
       Indignado por essa tentativa de isolá-lo do convívio social, e não podendo ser remido dos seus pecados no templo sagrado, o poeta teria rebatido o gesto dos fiéis com estas palavras: "O meu escarro é mais puro que essa impura massa que aí dentro estar!".
       Muitos anos depois da sua morte, um dos seus biógrafos - acredita-se que tenha sido seu conterrâneo, o médico Humberto Nóbrega - que estudou  detidamente a vida e a obra do poeta, publicou uma pesquisa, na qual afirmava que Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos nunca contraíra tal doença.
       Pergunta-se: de qual lado está a verdade?

       2. FRANCISCO PETRARCA (1304-1374), considerado um dos mais brilhantes poetas e escritores italianos de todos os tempos. Tido como o fundador da poesia lírica italiana e do humanismo renascentista. Ainda muito jovem, como 22, 23 anos de idade, conheceu a aristocrata Laura de Noves, por quem alimentou um amor platônico a vida inteira.
       A ela dedicou os melhores poemas de sua Canzonieire, composta de 317 poesias, sendo 227 sonetos. Muitas de suas Epistolae metricae (66 "cartas" em hexâmetros latinos) e várias de suas Rime (Poesias) foram inspiradas por Laura.
        Em 1346, aos 42 anos, escreve De vita solitaria (sobre a vida solitária). Nessa obra desenvolve sua teoria a respeito de como o homem pode desfrutar ao mesmo tempo da natureza e da  espiritualidade. Porém, em 1348 uma dor profunda atingira seu  coração: perde Laura, vítima da peste negra. Ele, então, se refugia em Vaucluse, onde reorganizou suas Rime, dividindo os poemas em In vita di Laura e In vita morte di Laura. Foi Petrarca, em suas Rime, o primeiro a realizar uma poética de motivos estritamente psicológicos, vasta meditação sobre a existência terrena em seu conteúdo humano e emocional.
       Apesar da sua genialidade, ao ponto de ser considerado de "poeta modelar" e ter sido matriz para outros poetas geniais como Camões e Shakespeare. Por exemplo, com ele teve início na literatura e nas formulações teóricas e perspectiva humanista que culminou no Renascimento, há  quem garanta que Laura, na realidade, nunca existiu. Petrarca simplesmente projetava em si próprio a figura da mulher amada. E assim, escrevi para si o que dizia ser para Laura de Noves.
        Pergunta-se: de que lado está a verdade?   

        3. LEONARDO DA VINCI (1452-1519), pintor e cientista italiano, cujos alguns estudos seus são respeitados até hoje. Ainda criança demonstrou forte aptidão para a pintura e para o desenho. Levado pelo pai para Florença, aprendeu as técnicas de pintura, gravura, desenho e escultura.
        Nessa época aproxima-se do Príncipe de Florença, Lourenço de Médici e passa a ser requisitado para trabalhos importantes como Anunciação e Adoração dos Magos. Foi Da Vinci que projetou a célebre Praça de São Marcos.
        Em 1482, aos 40 anos, deixa Florença e muda-se para Milão onde oferece seus serviços de engenharia militar e arquitetura ao Príncipe Ludovico Sforza, que estava em guerra com os franceses e precisava de novas técnicas de combate.
        Ficou por 17 anos em Milão onde desenvolveu várias atividades. Uma delas foi o projeto da Catedral de Milão. Aí, pintou duas das suas obras-primas: Virgem dos Rochedos (1488) e Ultima Ceia (1495). Em 1499 os franceses tomaram Milão. O pintor migra para Mântua e Veneza. Mas, em 1503, retorna `a Florença. Nesse período começa a pintar o retrato de Mona Lisa del Giocondo (assim mesmo, Giocondo), cujo quadro é mundialmente conhecido como A Gioconda, o qual foi concluído em 1507, na França.
       Sempre soube conciliar a pintura com estudos científicos. Os anos que antecederam a sua morte (1519), tanto em Roma como em Paris, envolveu-se com muitas disciplinas: Geologia, Paleontologia, Ciências Naturais, Anatomia, Biologia, Ótica, Astronomia, entre outros estudos. Como artista, além de concluir a redação de Tratado de Pintura, foi um revolucionário na pintura do seu tempo, renovando as técnicas do retrato e da reprodução da paisagem que perduram até hoje, 500 anos depois da manifestação da sua genialidade.
        E no amo? Pouco se sabe ao certo sobre suas paixões. Há quem  duvide das explicações sobre Mona Lisa, ou seja, a mulher casada em quem se inspirou para retratá-la. Aquele sorriso enigmático da retratada, na realidade, garantem alguns estudiosos, simboliza o próprio artista.
        Pergunta-se: de que lado está a verdade?

        4. VINCENT VAN GOGH (1853-1890), pintor holandês, considerado como um dos maiores do mundo. O autor de Os Girassóis, sempre enfrentou uma série de problemas pessoais. Inclusive sofria de depressão. Em 1888, aos 35 anos, na antevéspera do Natal, teve um acesso de loucura, ao ponto de cortar parte da própria orelha esquerda e levar o pedaço do órgão mutilado para uma prostituta francesa amiga sua. Em Sede de Viver, o autor Irving Stone, faz referências sobre esse ocorrido.
       O motivo da automutilação teria sido uma contenda com Gauguin, durante uma caminhada, quando mostrou uma navalha aberta e assustou o amigo. Após o ato insano, ele voltou para casa e dormiu como se nada tivesse acontecido. Encontrado pela polícia, desmaiado e ensanguentado, foi levado ao hospital, onde ficou por 14 dias.
       Após alta hospitalar pintou o autorretrato com a orelha cortada. Por sinal, um dos seus quadro mais admirados. A partir desse episódio, seu estado de saúde só piorou, e o artista começou a sofrer paranoias de que estava sendo envenenado por alguém. Seu quadro clínico se agravou tanto, que no dia 27 de julho de 1890, aos 37 anos de uma existência equilibrada na tênue linha da realidade e da fantasia, numa manhã ensolarada, ele foi para o meio de um trigal dourado e verdejante, e com uma espingarda, atira contra o próprio peito, vindo a falecer dois dias depois de agonizantes horas. Mas, antes teria dito ao irmão:


       "- Eu gostaria de poder morrer agora, Theo.
        Mais alguns minutos e ele fechou os olhos.
        Theo sentiu o irmão deixá-lo para sempre
        (E na morte eles não foram divididos)".
      
        Pergunta-se: de que lado está a verdade?

       5. BERTOLT BRECHT (1898-1956), notável poeta e dramaturgo alemão, o qual morreu aos 58 anos de idade, vítima de ataque cardíaco. Considerado o mestre Mor do teatro alemão de todos os tempos. Por meio da sua obra, pregou a liberdade através da revolta, mesmo que ela traga a morte. Era veementemente contra tudo e todos que oprimisse o ser humano. Suas peças colocava o homem diante de sua consciência.
       Aos 19 anos foi estudar Medicina, mas abandonou o curso para dedicar-se `a literatura e arte dramática. Aos 20 anos, escreveu sua primeira peça, Baal. Mas, foi nos anos 30, que voltou-se para o marxismo. Nessa época, ordena sua obra, encontra seu estilo, sua temática e conteúdo de participação social.
       Seu comportamento autoral (mordaz, satírico, violento), incomodava, e muito, o governo alemão. Para piorar, em 1933, Hitler assumiu o poder central. Brecht, não teve escolha, deixou a Alemanha e foi morar na Dinamarca, depois Suécia e Finlândia. Porém, em 1942, no auge da Segunda  Guerra Mundial, foi para os EUA.
        Na América, também teve problemas. Sentiu-se perseguido por causa das suas ideologias comunistas. Chegou a depor num tribunal. Deprimido, no dia seguinte ao depoimento, abandonou aquele país, para sempre. Foi para a Áustria, depois, para Berlim Oriental.
        Sua produção bibliográfica é extensa. Entre 1937 a 1954, publicou muitas obras, entre romances e peças teatrais. ´E dele, por exemplo, o volume de poesias Poemas e Canções, traduzido e selecionado para a Língua Portuguesa por Geir Campos. Brecht é um autor apaixonante. Poemas de sua autoria que foram escritos há 70, 80 anos, quando lidos nos dão a impressão de que foram publicados no ano passado, na semana passado, ontem. ´E assim com O Analfabeto Político:

                        O pior analfabeto, é o analfabeto político:
                        Ele não ouve, não fala e nação participa
                        dos acontecimentos políticos.

ou Quem é teu Inimigo?:
                       O que tem fome e te rouba
                       o último pedaço de pão chama-o teu inimigo.
                      Mas não saltas ao pescoço
                      de teu ladrão que nunca teve fome.

       Brecht, foi capaz, somente ele, num único poema, dirimir dúvidas, contradições, controvérsias, etc, que a História acumulo sem respostas  plausíveis ao longo de séculos, em Perguntas de um Trabalhador que Lê.  Leia, a seguir a íntegra desse poema ES-PE-TA-CU-LAR!
      
       Perguntas de um trabalhador que lê

      Quem construiu a Tebas das sete portas?
      Nos livros constam os nomes dos reis.
      Os reis arrastaram os blocos de pedra?
      E a Babilônia tantas vezes destruídas
      Quem a ergueu outras tantas?
      Em que casa de Lima radiante de ouro
      Moravam os construtores?
      Para onde foram os pedreiros
      Na noite em que ficou pronta a Muralha da China?
      A grande Roma está cheia de arcos de triunfo.
      Quem os levantou?
      Sobre quem triunfaram os Césares?
      A decantada Bizâncio só tinha palácios
      Para seus habitantes?
      Mesmo na lendária Atlântida,
      na noite em que o mar a engoliu,
      Os que se afogaram gritavam pelos seus escravos.
      O jovem Alexandre conquistou a Índia.
      Ele sozinho?
      César bateu os gauleses.
      Não tinha pelo menos um cozinheiro consigo?
      Felipe, da Espanha chorou quando sua armada naufragou.
      Ninguém mais chorou?
      Frederico II venceu a Guerra dos Sete anos.
      Quem venceu, além dele?
 Uma vitória em cada página.
 Quem cozinhava os banquetes da vitória?
 Um grande homem a cada dez anos
 Quem pagava suas despesas?
       Tantos relatos.
       Tantas perguntas.

Referências
1. Stone, Irving, Sede de Viver: a vida trágica de van Gogh, Rio de Janeiro, Record, 1980.
2. 'Dicionário Biográfico Universal Três SP, Três livros e fascículos, volumes 2 e 7, 1984, páginas 243-244 e 129-130, respectivamente'
3. Nova Barsa, SP, vol.11, 1999, p. 297/298.
4. seuhistory.com
5. wikipedia.org
6. gazetadigital.com.br
7. mepr.org.br
Tecnologia do Blogger.