Os órfãos de Nelly Sachs

     Você sabe quem foi Nelly Sachs? Foi uma notável poetisa e escritora alemã. Nascida em 10 de dezembro de 1891, em Schoneberg, Berlim, Alemanha. Filha única de uma rica família judia. O pai, Georg William Sachs, era um grande industrial, e não tinha nenhum envolvimento com política.
      Com menos de 30 anos de idade, ela começa a publicarar suas primeiras poesias. Mas, até então, ignorava os perigos que o povo judeu corria diante das ideologias do nazismo. Seu pai morreu antes da ascensão de Hitler e seu bando ao poder. "Os novos donos do país não tardaram a se apoderar dos bens da família Sachs, pouco a pouco são confiscados sob diferentes pretextos". A viúva, Margaret Sachs e a filha temiam o pior, ou seja, poderiam ser mandadas para um dos campos da morte lenta chamados "campos de trabalho".
      Diante  dessa perseguição iminente aos judeus, Nelly pede ajuda de uma amiga com a qual se correspondia, que intermediou junto a renomada romancista sueca, Selma Lagerlõf, para as duas rumarem para a Suécia. Após longa espera e severas formalidades, finalmente, no dia 16 de maio de 1940, conseguiram o asilo almejado. Nesse mesmo mês, a Dinamarca e a Noruega acabavam de ser ocupadas pelos alemães, e a guerra se desencadeava na França. Ainda naquele ano, Nelly conseguia a cidadania sueca. 
      Na nova pátria, aos poucos, ela via adquirindo uma posição bastante sólida no pequeno mundo das letras: tanto pelos seus escritos como, e sobretudo, por suas traduções magistrais de alguns poetas suecos muito em voga, como Erik Linddgran, Gunner Ekelof e Johannes Edfelt. Em contraparte ele pagaram sua dívida moral, traduzindo grande número dos poemas dela, publicados depois sob os cuidados da Academia Sueca. Uma série de artigos foi reunidos em volume com o título A Criação Continua. Depois veio a suprema homenagem. 
      Em 1963, seu nome foi proposto para obter o Prêmio Nobel de Literatura, cujo relatório foi escrito pelo poeta lírico Johannes Edfelt, doutor e ensaísta especializado nas letras alemães. Segundo esse relator, foi em solo sueco que a poetisa atingiu a sua maturidade e sua autoridade com lirismo e dramaticidade, "nos ritmos livres dos seus versos", sua língua poética se inspira nos profetas e nos salmistas do Velho Testamento.
      No dia 20 de outubro de 1966, quando da sua alocação no rádio, da atribuição do tão sonhado prêmio, conjuntamente a Samuel Joseph Agnon, o presidente do Comitê enumerou os feitos literários da laureada e, entre outras palavras, destacou: "Com uma adesão, uma penetração pungente, ela interpretou o trágico, de ordem mundial, do povo de Israel, que ela exprime ora em lamentações líricas de uma dolorosa beleza,  ora em lendas escritas para a cena, mistérios dramáticos cuja língua simbólica alia uma ousadia modernista de ímpeto criador aos ecos de uma poesia bíblica ancestral". 
      Ao saber da notícia, cercada pela multidão de amigos e de jornalistas para felicitá-la, alguém quis saber que sonho, além da premiação, poderia ser realizado. Foi categórica: "O de sempre, ir a Israel". E quanto a outros projetos? "Dar uma ajuda substancial à amiga que passa por uma vida difícil", na Alemanha Oriental, e que tanto a ajudara realizar-se na Suécia.
      Exposta aos fotógrafos, com certa naturalidade, apesar de não ser um hábito na sua vida, "Seu sorriso exprimia uma curiosa mistura de felicidade e de tristeza". E sem perder a humildade, diz de maneira mansa repleta de ternura: "Eu me sinto apenas e exclusivamente um ser humano. Quando se viveu tantos horrores, não se pode imaginar como parte de uma nação qualquer. Certamente, sou cidadã sueca, mas minha língua é a língua alemã que me une aos outros humanos". 
      Finalmente, chega o grande dia. O dia da entrega do Prêmio, 10 de dezembro de 1966. Aliás, foi um presente de aniversário. Nessa data, a poetisa completava 75 anos de vida. O discurso de recepção foi pronunciado por Anders Osterling, o qual saúda aos presentes, afirmando que estão sendo laureados dois autores judeus de primeiro plano: Samuel Agnon e Nelly Sachs. Ele reside em Jerusalém; ela, que vive na Suécia desde 1940 como refugiada, a princípio, já é cidadã sueca. 
      O fato de associá-los tem por objetivo fazer justiça à obra de cada um, e a partilha do Prêmio, para honrá-los, apesar de se expressarem em línguas distintas "estão unidos por um parentesco espiritual e, por assim dizer, se completam em um esplêndido esforço para apresentar a herança cultural do povo judeu, por meio da pena, buscando numa fonte comum a inspiração que neles é testemunha de uma força vital".   
      E dirige as suas palavras aos dois, academicamente. Porém, pondera sobre Nelly dizendo que sua obra realmente atingiu o alvo humano visado pela vontade de Alfred Nobel. Porque é a expressão artística mais intensa da reação do espírito judeu ao sofrimento, à nossa época.  Ao finalizar, fez lembrar aos presentes, que há 26 anos, aquela senhora chegara à Suécia "como uma estrangeira obscura e agora como hospede de honra". E dando por encerrado o discurso, acrescenta: "Apresentando-lhe as felicitações da Academia Sueca, eu lhe peço, agora, que receba o Prêmio Nobel de Literatura deste ano das mãos de Sua Majestade, o Rei". Só para ilustrar: O Rei Gustavo VI Adolfo que trouxe à mesa a poetisa, toda miúda num vestido de veludo azul escuro, e lhe ofereceu o lugar de honra à sua direita.
      Se o sermão em hebraico de Agnon foi longo, o discurso de Nelly, em alemão, foi brevíssimo. "Com uma voz fraca, trêmula de emoção, mas perfeitamente audível deu a impressão de uma fonte fresca que brota do deserto". Disse, inclusive, que soube amar a nova pátria, onde, enfim, ela e sua mãe respiram o ar da liberdade. Sem, no entanto, perder as suas origens alemãs. No final, contou uma lembrança do pai que, a cada dia 10 de dezembro, como querendo associar a data do aniversário dela, "lhe lembrava, brincando, que naquele dia se celebrava em Estocolmo a Festa Nobel. Agora, ela se achava no centro desta Festa. O sonho tornara-se realidade".
      As coisas estavam mudando. Até aquela data, fosse na França, fosse no mundo anglo-americano, Nelly era totalmente desconhecida. Entretanto, sua premiação foi saudada  com respeito devido à intérprete de uma tragédia humana sem igual pelos grandes jornais de audiência mundial, tais como Le Monde e Le Figaro (França), o Times de Londres (Inglaterra) e o New York Times (EUA). No Figaro Littéraire, por exemplo, Arnold Mandel, encontrou o verdadeiro sentido do gesto da Academia Sueca, ao proferir estas palavras: "Com a dupla consagração de Agnor e Nelly, um escritor hebreu do judaísmo, a outra, poetisa alemã tendo uma dolorosa e irredutível consciência  da eternidade judia, há enfim como que um desconhecimento público do humanismo judeu como tal, da cultura judia em si. E como se o areópago  de Estocolmo, passando à sua ordem do dia, tivesse dito: O Judaísmo, senhores!"
      A vida e a obra de Nelly são comentadas  pelo Doutor em Letras, Joseph Bernfeld, em 13 páginas magníficas. Ele vai das "Fontes de Inspiração", da poetisa, passando por "Um Povo que Não se Parece com Nenhum Outro", ou "Uma Obra Que é a Tragédia de um Povo", ou ainda, "Onde a Crítica se Encontra Desarmada". E chega ao fim com "Gritos de Angústia". Que são temas centrais,  por ele averiguado, de toda produção literária dela. 
      A reunião das suas Poesias, obra que ensejou sua indicação para posterior premiação está formada pelos seguintes livros: Nas Moradas da  Morte (dedicada ao povo judeu); Escurecer de Estrelas (em memória ao seu pai); E Ninguém Sabe mais Além; Fuga e Transfiguração; Viagem Para  País sem Poeira; Ainda Morte Celebra a Vida; e Enigmas em Brasa.
      No dia 12 de maio de 1970, aos 78 anos de idade, Nelly Sachs fecha para sempre, seus olhos. Estocolmo e o mundo perdiam a porta-voz pungente para a tristeza e anseios de seus irmãos judeus. No entanto, a luz da liberdade, a força das suas ideias permanecem vivas, e hão de permanecer assim por décadas e décadas vindouras. Ela foi gigante, forte, corajosa. Porém, a sua maior grandeza não reside apenas nos seus 50 anos de criação literária, o que lhe permitiu ser agraciada com dois grandes Prêmios: um alemão; um sueco. Mas -  como dizem todos que com ela estiveram e que estudaram sua obra -, fio nunca ter esboçado rancor contra os que trucidaram seu povo.
      Li dezenas de  seus poemas e não foi nada fácil selecionar Coro dos Órfãos para enriquecer este comentário biográfico. Leia a seguir, a íntegra do citado poema, na tradução de Paulo Qintela.

       CORO DOS ÓRFÃOS

       Nós órfãos
       Queixamo-nos ao mundo:
       Cortaram-nos o nosso ramo
       E atiraram-no ao fogo -
       Lenha de queimar fizeram dos nossos protestos -
       Nós órfãos jazemos nos campos da solidão.
       Nós órfãos
       Queixemo-nos ao mundo:
       Na noite os nossos pais jogam conosco às escondidas -
       Por trás das dobras negras da noite
       As suas faces nos olham,
       Falam as suas bocas:
       Lenha seca fomos nós na mão dum lenhador -
       Mas os nossos olhos fizeram-se olhos de anjos
       E olham para vós,
       Através das dobras negras da noite
       Eles olham -
       Nós órfãos
       Queixemo-nos ao mundo:
       Das pedras fizemos os nossos brinquedos,
       Pedras têm caras, de pai e mãe
       Não murcham como flores, não mordem como bichos -
       E não ardem como lenha seca quando as metem no forno -
       Nós órfãos queixemo-nos ao mundo:
       Mundo porque nos tiraste as nossas mães tenras
       E os pais que dizem: meu filho és parecido comigo!
       Nós órfãos não somos parecidos com ninguém mais no mundo!

       Ó Mundo
       Queixamo-nos de ti!  
       
      Se aos que pouco conhecem o genocídio praticado contra os judeus pelos crápulas de Hitler, os poemas de Nelly causam fortes emoções, imagina-se àqueles que viveram esse flagelo, o significado de sua poesia. Se para os que estudam esse tema, já é de arrepiar.


       Referência
       1. Sachs, Nelly. Poesias (trad. Cora Rónai Vieira e Paulo Quintela), Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro, 1975.
 
       
    
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