A bossa sempre nova de Elizeth

       Em 2013, a Folha de São Paulo lançou a "Coleção Folha  Tributo a Tom Jobim". É uma verdadeira obra de arte em sentido duplo: 1. A arte de Tom, por si mesma, requer esse conceito; 2. A editoração é  pura arte gráfica.
        O volume 17, por exemplo, "Canção do Amor Demais", interpretado por Elizeth Cardoso. É fantástico. O CD-Book contém 44 páginas. Treze são as canções, como Chega de Saudade, Praias Desertas, Janelas Abertas, etc. Todas as composições são de Tom Jobim, Tom Jobim e Vinicius de Moraes, ou Vinicius de Moraes.
         O relato histórico é do jornalista especializado em música  popular e critico Lauro Lisboa Garcia. Segundo ele, a capa original do LP Canção do Amor Demais, foi lançada pela gravadora Festa, em agosto de 1958, com a participação de João Gilberto em duas canções,  além dos arranjos de Tom, por Elizeth Cardoso.       
         Final dos anos 50, em Ipanema, no Rio de Janeiro, vivia-se o início da efervescente bossa nova. Na rua Nascimento Silva, 107 Tom e seus parceiros compuseram grandes clássicos como "Chega de Saudade", com Vinicius e "Desafinado", com Newton Mendonça.
         Foi nesse endereço que Tom ensinou para a Elizeth Cardoso (1920-1900) as canções de Canção de Amor Demais, em dezembro de 1957, ou seja, há praticamente 60 anos. Anos depois, Vinicius celebrou aquele encontro dos anos 50 no samba "Carta ao Tom 74".
         Esse LP de Elizeth consagrou de vez a dupla e marcou o início de uma grande transformação na música brasileira. Assim como esse disco é considerado a pedra fundamental da bossa nova, apesar de não fazer grande sucesso na época do lançamento.
        " Dona de uma intensa emissão vocal, Elizeth - cujo nome também foi grafado de outras formas, Elizete, Elisete -, quando gravou esse LP, já fazia sucesso dentro do gênero samba-canção, ao lado de outros donos de grandes vozes, como Jamelão, Maysa, Nora Ney, Nelson Gonçalves, Dolores Duran, Linda Batista, Tito Madi, Dalva de Oliveira e Dick Farney. Porém, intrigava certos admiradores lo fato de Elizeth ainda não ter gravado na primeira década de sua carreira um disco que correspondesse as suas qualidades vocais".     
        Cinco anos antes, ou seja, em 1953, ao referir-se a "Canção de Amor" (Chocolate e Elano de Paula), de 1950, Vinicius exalta a "magistral interpretação", e completando diz: "Um samba com uma linda melodia e uma letra fraca, Elizete dava uma aula no disco em questão". E completa: "Uma voz rara entre nossos intérpretes, pois une as qualidades de boa voz erudita às de uma gostosa voz popular".
        No seu entendimento, ela seria a cantora adequada para merecer um repertório como a de Canção do Amor Demais, com arranjos de Tom e duas participações de João Gilberto, em "Chega de Saudade" e "Outra Vez".
         Elizeth já havia gravado a mesma dupla em 1954, na primeira versão da Sinfonia do Rio de Janeiro. Em 1963, ela repetiu a dose. Ela era a predileta de Vinicius, Dolores Duran, de Tom. Eram duas grandes cantoras. Porém, a Elizeth vinha de formação mais tradicional do que a Dolores, ou seja, a segunda não entendeu muito as modernidades do violão do ainda desconhecido João Gilberto.
         Coube, portanto, ao poeta a justificativa da escolha de Elizeth para o trabalho: "Não foi somente por amizade que Elizeth Cardoso foi escolhida para cantar esse LP. Mas a diversidade dos sambas e canções exigia também uma voz particularmente afinada; timbre popular brasileiro, mas podendo respirar acima puramente popular; um registro amplo e natural nos graves e agudos e, principalmente, uma voz experiente, com a pungência  dos que amaram e sofreram, crestada pela página da vida. E assim foi que a Divina impôs-se como a lua para uma noite de serenata".
         Sobre o título do LP, não havia consenso entre os compositores. Vinicius queria "Eu Não Existo Sem Você", uma bela canção dos dois; Tom preferia "Chega de Saudade". Finalmente, coube ao produtor musical, criador do antológico selo Festa Irineu Garcia (1920-1984), decidir: "Canção do Amor Demais", título da última faixa do disco.
         A cantora chegou a hesitar em gravar um "long-play" com canções tão sofisticadas, de sabor camerístico ('uma coisa de intelectual'). Ela teima gravar, inclusive, as mais bonitas do disco: "Modinha", "As Praias Desertas", "Estrada Branca" e "Canção do Amor Demais".  Ela achava ser muita responsabilidade.
          Elizeth deixou uma vasta discografia (um pouco mais de 50 LPs, praticamente todos pela gravadora Copacabana), que inclui trabalhos marcantes com vários artistas. No entanto, um dos seus planos era regravar Canção do Amor Demais, na íntegra, nunca foram realizados. Ela justifica: "Naquela época (1957/1958 minha voz era muito fina. Agora (1985), o timbre é outro e estou emitindo melhor as notas graves".
         "Se a referência primordial da bossa nova é a batida do violão de João Gilberto, então a chave de ignição do movimento começa a ser girado quando Elizeth canta "Chega de Saudade". A canção surge em ritmo de samba tradicional suave, com a batida de João se destacando entre violinos, metais, contrabaixo, bateria e um coro vocal masculino", conclui Lisboa.
         Para muitos apreciadores desse gênero de música, a gravação mais bonita do disco em análise, é "Estrada Branca", em que a Divina canta acompanhada apenas ao piano de Tom. Eu, ´particularmente, achou "Luciana", a mais bela entre as 13. É uma valsa em que a cantora ajusta seu canto à sonoridade delicada de violinos e flautas.
         O destacado poeta Augusto de Campos, também se manifestou sobre a obra de Elizeth. No que se refere ao estilo tradicional da música por ela representado e sobre o disco, ele disse: "Um dos pontos altos de sua carreira", com essa ressalva: "Se a música popular brasileira, porém, permanecesse nesse estágio, não se teria tido uma ideia do que seria a BN (bossa nova)".
         Querendo ou não, com acertos e falhas, a música brasileira jamais foi a mesma a partir do trabalho da dupla Tom/Vinicius. Os dois podem ser identificados assim e nesta única oração: "Tom, segundo Vinicius, acreditava "na música da poesia". Em retribuição, ele dava importância à "poesia da música".
          Após longos anos de carreira, a certa altura da vida, Elizeth confessou ter se cansado de apelidos adjetivados como Divina, Enluarada, Meiga, que a correlacionavam ao romantismo do samba-canção. No entanto, foi na companhia dos grandes amigos, que Canção do Amor Demais, tornou-se sua reação mais sofisticada.
          Assim, não há como negar que esse disco também é poesia, só que em forma de música, é claro. Hoje, 60 anos depois desse feito, quem ouve o disco de 2013, tem certeza que a tecnologia veio para ficar nas nossas vidas. É como se o trabalho tivesse sido lançado no mês passado. As canções são divinas. A intérprete é Divina. Assim como divinos são os sons emitidos música após música, formando uma cadeia de divinas notas. E mais ainda, quando você ouve este verso: "O mar que brinca na areia" (As Praias Desertas)..

          Referência
          1. Canção do Amor Demais/Lauro Garcia Lisboa - 1 ed. - São Paulo: Mediafashion 2013.
               48 p.: il; 13 cm - (Col. Folha Tributo a Tom Jobim, v. 17).
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