Elas cantam em ''portuguez''

      "Os especialistas são unânimes. O brasileiro anda abusando demais  do seu direito de ser humano e, portanto, de errar. Um deles chega a pedir punição para todos os crimes de lesa-gramática. Outros preferem lembrar: entre o certo e o errado, há um povo que não aprende porque a escola não ensina".
      Este é o subtítulo da reportagem: "Língua: os erros do noço portugueis ruim", assinada por Lourenço Diféria e colaboradores, in "Sala de Aula". Há ainda, por ele disponibilizada, uma lista de 8 obras de gramática, como suporte, entre elas autores do porte Domingos Paschoal Cegalla, Evanildo Bichara e Napoleão Mendes de Almeida.
      Nesse emaranhado de erros que grassam sobre o inadequado uso da língua mãe, há quem defenda que o brasileiro deve ditar as regras não oficiais, ou seja, o mais importante é as pessoas se entenderem quando se comunicam no seu próprio linguajar. Isso é inadmissível e jamais deve acontecer. Idiomas oficiais, existem em qualquer lugar do mundo. Até mesmo nas mais longínquas ilhas da Polinésia.. Até mesmo em países como a Índia que têm um dialeto em cada esquina, há língua oficial.  
       No Brasil, já é  visível a decadência da nossa maltratada  língua em detrimento da banalização do seu emprego. A questão não reside apenas no linguajar regional ou no caipirês, que são tolerados. O grave problema está em ignorar as regras básicas do idioma. "Como ignorância da língua, jamais. O professor tem uma função social. Ele tem de preparar os alunos para a vida, para a concorrência cultural do dia a dia", assevera Lourenço.
       Este é o caminho: "Preparar os alunos para a vida". Mas, como se a escola perdeu sua importância? Você não é professor, mas já foi estudante; seus filhos são estudante; e seus netos serão estudantes. Venha, portanto, passar apenas uma semana numa escola da rede pública e até mesmo da rede privada, do ensino médio, e tire as suas próprias conclusões. Lá, você irá constatar que os professores, independente de serem de língua portuguesa, fazem o que podem para que seus alunos obtenham maior (e melhor) desenvolvimento intelectual. Sabe por que não flui resultado de qualidade? Por vários fatores: "Ler é fundamental para a aquisição e o aperfeiçoamento da língua. Com o quadro atual sem o hábito de leitura, escrever e falar de modo correto fica difícil", por exemplo.
       Essa dificuldade foi constatada pela pesquisa realizada na década de 1980. Hoje, quase 30 anos depois, há outro elemento que usado inadequadamente poderá tornar-se um inimigo perigoso, principalmente para a  turma infantojuvenil,  durante 24 horas do dia: o celular. Não estou aqui, em nenhum momento querendo combater os avanços da era informacional. Eles são inevitáveis à humanidade. Porém, o seu uso  requer cautela, dizem os especialistas. 
       Entre numa escola de classe média ou mesmo da periferia de qualquer capital brasileira, e verá o quanto as crianças são ágeis no manuseio do smartphone. Isso é bom? Sim. Porém, peça-lhes para exibirem o que digitam , e terá esta constatação: 100% das mensagens são cifradas, codificadas e com gravíssimos erros de português.   
       Não sou professorar dessa área, mas de tanto verificar que vários alunos do ensino médio não conseguem ler o que acabaram  de registrar no próprio caderno, há dois anos, resolvi fazer uma espécie de inquiete com 100 deles (todos do 3  ano e alguns já inscritos no ENEM) do turno noturno aqui mesmo em Manaus. As perguntas eram simples e diretas: 1. Fora da escola, você lê outros livros? Apenas 9 responderam "sim"; Você sabem quem foi José de Alencar? Apenas 3 responderam "sim". 3.Como você faz as suas pesquisas escolares? Pela Internete, responderam 89 deles. 4. Você costuma lê romance, poesia, gibi, espontaneamente, ou seja, sem ser cobrado pela escola? Apenas 5 disseram "sim".
       - É muito simples. Mas se servisse de parâmetro, seria uma lástima nacional nesse setor.
       "As saídas para a questão não apontam para um único caminho. Combater as causas acima citadas seria um bom começo. Mas as mudanças da atual situação (isso nos idos do anos 80) só aparecerão a longo prazo, e desde que haja uma verdadeira política educacional. Educação não pode ser modismo, projetos que aparecem hoje e amanhã são abolidos sem mais nem menos", finaliza Lourenço.
       O professor da USP, Massaud Moisés, autor de mais de 30 obras sobre literatura e língua portuguesa, vai além quando avalia que a crise da língua pode ser causa ou efeito da crise geral, e a deterioração do ensino um nítido reflexo do clima de apatia que afeta todos os demais setores da sociedade brasileira.    
       E completando seu raciocínio, diz: "A expressão palpável da crise, incluindo a crise de valores, e o desprezo da língua. O povo que respeita sua língua é capaz de sustentar certos valores e defender certos princípios.  Quando a língua é maltratada, como vem acontecendo, a própria comunicação das ideias, das informações e do sentido das coisas começa a se alterar. Quando o povo começa a usar o onde e o aonde nos lugares mais imprevistos, mais esquisitos; quando começa a usar o de que em todas as posições possíveis e imagináveis, é porque a língua já perdeu muito de sua força de expressão".
       Sempre sou convidado para fiscalizar a aplicação das provas dos vestibulares, do ENEM, dos concursos públicos. De cada exame,  tiro uma lição de vida. Cada ano que passa, é mais visível a inquietação da maioria dos candidatos quando o assunto é: prova de língua portuguesa/literatura/redação. As horas passam, o sol se põe, a campainha anuncia o fim do tempo regulamentar, e alguns candidatos não conseguem escrever 20 linhas para a redação.
       Na semana passada, finalmente, conseguir assistir ao DVD "ELAS cantam Roberto Carlos". Um seleto grupo de 18 cantoras, 1 apresentadora e 1 atriz. Artistas do talento de Zizi Possi, Alcione, Nana Caymmi, Mart'nália, Fafá de Belém, entre outras. Pelo menos 4 delas: Paula Toller, Sandy, Adriana Calcanhoto e Daniela Mercury, encerram as suas apresentações assim: "Muito obrigado!" ou "Obrigado!".
       São mulheres indiscutivelmente maravilhosas. São artistas nacionais, que compõem, que interpretam, que tocam instrumentos musicais. Cometem esses erros, os efeitos são muito negativos. Elas influenciam gerações; nós seus fãs e admiradores achamos que podemos (devemos) fazer o mesmo.
       Em 2018 serão lembrados os 100 anos da morte do poeta carioca Olavo Bilac (1865-1918), ainda identificado como o "príncipe dos poetas", pela sua elegância poética. Seus poemas já encantaram gerações e aí estão sendo citados nas principais Comissões de Vestibulares do país. Na primeira fase dos meus estudos escolares, decorei um poema desse autor, cuja primeira estrofe era mais ou menos assim:
                                 Quando a noite cair, fica à janela
                                 E contempla o infinito firmamento
                                 Vê que noite fulgurante e bela 
                                 Vê que deslumbramento. 

       Alguns anos depois, já no primeiro ano do segundo grau, tive um professor acriano "maluco" chamado Homero, o qual exigia que todos decorassem um poema de Bilac. Mas a escolha era dele. E ele sentenciava: "Aquele que não conseguir será considerado 'um aluno manco'". Ninguém queria ser aluno fraco. Então, todos sabiam de cor

                                 L Í N G U A  P O R T U G U E S A 
   
                                 Última flor do Lácio (1), inculta e bela,
                                 És, a um tempo,  esplendor e sepultura:
                                 Ouro nativo, que na ganga impura
                                 A bruta mina entre os cascalhos vela... 

                                       Amo-te assim, desconhecida e obscura.
                                       Tuba de alto clangor, lira singela,
                                        Que tens o trom e o silvo da procela,
                                        E o arrolo da saudade e da ternura!

                                               Amo o teu viço agreste e o teu aroma
                                                De virgens selvas e de oceano largo!
                                                Amo-te ó rude e doloroso idioma,

                                                        Em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
                                                        E em que Camões chorou, no exílio amargo,
                                                        O gênio sem ventura e o amor sem brilho! 

       (1) No Lácio, falava-se o latim, idioma que originou as línguas  neolatinas, dentre elas, o português. A sugestão vegetal "flor do Lácio" (português), seguem-se imagens minerais: a língua como matéria-prima  para produzir comunicação. Adiante o som grave da tuba  e a delicadeza da lira sugerem a maleabilidade da língua, instrumento capaz de expressar tristeza ou alegria, palavras de consolo ou discursos eloquentes (Norma Seltzer Goldstein). 







       Referências
       1. Literatura Comentada. Volume Olavo Bilac, São Paulo, Abril Educação, 1980.
       2. Diaféria, Lourenço. - A língua maltratada: Como encarar os erros do nosso português ruim,                 Fundação Victor Civita, Sala de Aula n. 15, ano 2,outubro de 1989, p p. 10/16.
       3. " ELAS cantam Roberto Carlos", DVD Sony Music, 2009.
            
            


Tecnologia do Blogger.