Elogio do Aprendizado (parte I)

     Li, DIMENSÕES DO ÊXITO DE EGRESSOS DE ESCOLAS PÚBLICAS NO PROCESSO SELETIVO PARA O CURSO DE MEDICINA DA UFPE, tese de doutorado da pedagoga Aparecida da Silva Xavier Barros, professora concursada do Instituto Federal da Paraíba, atualmente exercendo seu ofício em Campina Grande. Trata-se de um retrato fiel do quadro educacional brasileiro, seja no âmbito municipal, estadual ou federal. É uma investigação acadêmica, é claro, muito interessante, instigante e preocupante. Seu conteúdo está pronto para ser convertido em livro.
      A pesquisa está dividida em quatro partes, capítulos: 1. O acesso à educação superior no Brasil: em fatos e números; 2. O êxito escolar não é uma simples questão de trabalho e de dons; 3. Caminhos metodológicos; e 4. Dimensões diferenciadas e interdependentes: o estudante, a família e a escola.
      Após detida análise ficou constatado ser cada capítulo melhor elaborado que o outro. O estudo é realmente:  interessante porque apresenta um novo e específico levantamento nessa área do contexto educacional brasileiro. Instigante porque o conjunto de dados será um desafio que o Brasil deverá enfrentar até 2020 (ou 2030, 2040?), se quiser soterra o analfabetismo, apesar de já apresentar sinais de redução numérica nas últimas décadas, ainda afeta milhões de brasileiros, que não sabem (ou não podem) reivindicar os seus direitos fundamentais. Preocupante porque pesquisas idênticas citadas no bojo da tese revelam um quadro nada promissor em todos os níveis escolares. Enquanto que outros países sul-americanos como o Paraguai e o Chile, já nos ultrapassaram com melhores índices.
      Há quem garanta que o problema fora herdado desde o início da colonização. Então, por que outras nações que sofreram igual exploração já viraram essa página? A verdade é esta: faltam ao Brasil compromisso e seriedade por parte de todos os seguimentos sociais, sejam públicos ou privados, com raras exceções. Precisa-se pôr em prática as palavras do sábio chinês Kuan-Tzur que viveu no século VII a. C., contidas em Projeto de Vida:
      Se teus projetos são para um ano
       - semeia o grão.
      Se são para dez anos
       - planta uma árvore.
       Se são para cem anos
       - instrua o povo.

       Semeando uma vez o grão
       - colherás uma única vez;
       Plantando uma árvore

       - colherás dez vezes;
       Instruindo o povo
       - colherás cem vezes.

       Se deres um peixe a um homem
       - ele comerá uma única vez.
       Se, porém, o ensinares a pescar
       - ele comerá a vida inteira.


      Segundo a pedagoga, o objetivo do estudo consiste em compreender os fatores que explicam a aprovação de estudantes com êxito escolar, levando-se em consideração as três dimensões do ensino: o estudante, a família e a escola.
      Os dados sobre "a qualidade da Educação Básica oferecida pelas redes estadual e municipal, tendo como pano de fundo a desigualdade de oportunidades de acesso aos cursos de prestígio das universidades públicas do país entre indivíduos que estudaram nessas instituições", são sofríveis. Tudo porque, "as desigualdades geradas pelo sistema capitalista limitam o acesso à educação, sentencia a pesquisadora. Eis aí, a brutalidade da competição do mérito estudado por Dubet, citado na pesquisa.
      Como é possível chegar ao desenvolvimento econômico, científico e cultural do país, se a formação do indivíduo por meio da escola não é prioridade? Como aceitar que somente na década de 1930, o papel da educação começou a ser delineado, se historicamente a sociedade teve início no ano de 1500? O levantamento tem por perspectiva inicial mostrar que as contradições dos níveis educacionais básicos afetam o acesso à Universidade. Por esse prisma, o estudo é um marco nesse campo, cujo resultado apresentado é irrefutável.
      Para um país que a pouco mais de uma década comemorou seus 500 anos de formação histórica, é lamentável saber que somente no século XIX "surgiram os primeiros cursos superiores", fora da rédea da Igreja Católica. E para agravar ainda mais a situação, somente no século XX, foram fundadas as primeiras Universidades Brasileiras. Daí, esse pálido panorama nacional em todas as regiões da "pátria amada".
      Onde está a relação de igualdade entre os homens, questionada por Norberto Bobbio? Ela existe? É justa?, indaga a autora que muito estudou o pensamento do mestre italiano. O Brasil tem duas faces: a real, vivida pela grande maioria da população e a irreal, propalada pelos governantes. Esse segunda face é muito bem desenhada, bem maquiada, muito bem apresentada por quem detém o poder, mas desprovida da verdade dos fatos, dos acontecimentos.
      A CF de 1988, embora não seja realista e funcional, assegura a todos os cidadãos, o direito à educação em todos os níveis. No entanto, a pesquisadora enfatiza: "Uma reformulação eficiente no currículo do Ensino Médio (combinando disciplinas profissionais e acadêmicas) é uma das possibilidades para torná-lo menos enciclopédico e, consequentemente, capaz de oferecer mais condições para que os estudantes trilhem caminhos mais adequados aos seus interesses e potencialidades".
      Esse retrato, repito, ainda revelado em preto e branco forma um quadro nacional de tons ilegíveis, indecifráveis. Razão pela qual, estão afastados os estudantes da sala de aula, como distantes também estão das bibliotecas, dos laboratórios, das ciências (principalmente da Matemática e da Filosofia), da informática (tecnicamente falando), das quadras de esportes, da música, da literatura, do cinema, do teatro, enfim, longe daquilo que deveria ser o verdadeiro retrato do Brasil, a educação com qualidade, em cores vivas, pontuadas pela: ética, moral, honestidade, retidão, cidadania, etc.
       Por falar em honestidade, na década de 1920, poucos anos antes de morrer em 1923, o notável baiano Rui Barbosa, já temia que a mesma fosse submergida pelas águas poluídas da corrupção. Hoje, 100 anos depois, aí está o lamaçal. Então, sem a prática dos bons exemplos, tende-se viver cada vez mais essa palidez educacional  que aí estar. Pior, com aplicação de parcos recursos no setor, em praticamente todos os os 5. 570 Municípios da Federação, tudo ficará mais nebuloso.
      Precisa-se fazer - com urgência urgentíssima - "um grande esforço", para  a nação  sair desse fosso que macula o ensino nacional. Os países conhecidos por "Os Tigres Asiáticos", devido a sua agressividade econômica, educacional e tecnológica, como a Coreia do Sul, por exemplo, em tempos idos, já investia 10% do PIB, anualmente, durante décadas à educação, enquanto que no Brasil, esse cálculo foi inferior a 5% ao ano, entre 2000-2010. Quer inquietar-se ainda mais? É só acessar os dados do INEP. Eles são ainda mais preocupantes.
       Por aqui é assim: sai reforma..., entra reforma..., revoga-se lei, edita-se Medidas Provisórias, mas os passos da educação rumo ao crescimento, são praticamente os mesmos, sempre: lentos. Por exemplo, o governo federal garantia que entre 2011 a 2020, um terço das pessoas com idade de 18 a 24 anos (praticamente 30% dos 200 milhões de brasileiros) estariam matriculados no ensino superior. Essa meta foi alcançada? Obviamente que não. As desigualdades sociais, como um todo, só se agravaram país afora de lá para cá. Só para lembrar: aí está o resultado do ENEM.
      No entanto, nem tudo está perdido. Diante de tantas mazelas nacionais, ainda há pessoas sérias como a autora em questão, que vem estudando, investigando, os índices educacionais do país, e apresentando caminhos que viabilizaram substanciais melhorias, assim como nos demais setores, haja vista ser "a educação o único caminho que possibilita ao homem crescer em todos os aspectos". Isso encoraja todos aqueles que comungam com suas ideias. Não é por questão de esperança, apenas, mas por convicção que, havendo seriedade e comprometimento, por parte de governantes e governados, até meados desde século, o povo estará colhendo frutos saudáveis.
      Em Como Vejo o Mundo, Einstein, assevera:

      Não basta ensinar ao homem uma especialidade.
       Porque se tornará uma máquina utilizável,
      mas não uma personalidade.
      É necessário que adquira um sentimento,
      um senso prático daquilo que vale a pena ser empreendido,
       daquilo que é belo, do que é moralmente correto.
       A não ser assim, ele se assemelhará,
       com seus conhecimentos profissionais,
       mais a um cão ensinado do que a uma criatura
       harmoniosamente desenvolvida.


            E sobre Educação em vista de um pensamento livre, esse mesmo cientista, conclui:

      O ensino deverá ser assim:
      quem o recebe o recolha como um dom inestimável,
      mas nunca como uma obrigação penosa.

            No próximo sábado, a conclusão. Por favor, não deixe de prestigiar o Facetas.



   
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