Elogio do aprendizado (Parte II)



      O estudo ora comentado  versa sobre temas como: o êxito do aluno na escola. O vestibular, no formato atual “converteu-se em uns problemas complexos, impregnados por barreiras, ás vezes ocultas, mas bastante eficientes”. Aliás, para que serve o vestibular: para barrar o candidato, somente, ou para travar o avanço da ciência? O ingresso no curso de Medicina na UFPE, cuja instituição é referência para o Norte e o Nordeste brasileiros, é um dos mais concorridos do país. As estatísticas apresentadas falam per si. E o maior demonstrativo está no número de candidatos que se inscreve na tentativa de obter uma vaga. Nesse cerne estão no topo  os Cursos de Medicina, Direito, Comunicação Social-Publicidade e Propaganda.
      Como toda pesquisa idônea, a escolha metodológica é fundamental. A aqui apresentada não é diferente. A autora primou pelo tipo operativo, o qual possibilitou uma visão da realidade social com elementos objetivo e subjetivo, que vão de censos escolares a questionários aplicados.  Dessa forma, estão sendo reveladas informações, sejam da vida dos educandos, seja dos estudos que eles pretendem realizar para chegar à Medicina. Os dados apresentados e os estudiosos por ela analisados, são muito relevantes, imprescindíveis. Eis aqui uma tese sólida.
       Na quarta e última parte – Em Dimensões Diferenciadas -, por exemplo, o indivíduo é estudado no aspecto social, sem perder de vista, é claro, a realidade dos seus conceitos individuais. É aí, que surge, oportunamente, a questão mais inquietante da autora quando indaga: “Quem são os egressos de escolas públicas aprovados em Medicina na UFPE? São, sem dúvida, aqueles que ao longo de sua preparação conseguiram reunir melhor aprendizado, até então. Mas, são muitas as histórias de cada um. Jovens que abdicaram da convivência familiar e de amigos, almejando uma profissão futura”. Essa constatação contou, também, com a experiência de vida da professora (uma ida, uma vinda, pesquisando aqui, entrevistando ali...). E concluindo garante: “Os estudantes brasileiros, de modo geral, encontram algumas dificuldades diante do vestibular, mas estas têm peso diferenciado para aqueles que são egressos da rede pública e para aqueles que estudaram na escola particular”. O resultado nacional já se sabe. Ou ele deve ser mudado ou o quadro da educação continuará em mau estado de conservação e de aprendizado.
      Volta e meia estou copiando, citando ou reproduzindo trecho da obra do pensador alemão Bertolt Brecht (1898-1956). Aqui, apresento o poema Elogio do Aprendizado: 
 
      Aprende o que é mais simples!
      Para aqueles,
      cujo momento chegou,
      nunca é tarde demais.
      Aprende o ABC: não basta,
      mas aprende-o!
      Não desanimes!
      Tens de assumir o comando!
      Aprende, homem no refúgio!
      Aprende homem na prisão!
      Mulher na cozinha, aprende!
      Aprende, sexagenário!
      Tens de assumir o comando!
      Procura a escola, tu que não tens casa!
      Cobre-te de saber, tu que tens frio!
      Tu que tens fome, agarra o livro: é uma arma!
      Tens de assumir o comando!
       Não tenhas medo de fazer pergunta:
       não te deixes levar por convencido,
       vê com teus próprios olhos!
       O que não sabes por experiência própria,
       a bem dizer, não sabes.
       Tira a prova da conta:
       és  tu que vai pagar!
       Aponta o dedo sobre cada item,
       pergunta: como foi parar aí?
       Tens de assumir o comando.

       O ABC da formação humana é como diz o poema acima: alguém precisa assumir o comando. Não pode parar, jamais! É o “prazer de lidar com gente; gente que tem sentimentos, desejos, esperanças”, de novos tempos. Isso consiste em compreender fatores como (família X renda; nível de formação X ocupação; pais e filhos X interesses comuns; projeto de vida X leitura de vida escolar), que podem explicar a aprovação de estudantes num curso tão difícil de ingressar como aquele,  naquela Universidade.
       Dados estatísticos dão conta da existência de um processo educativo nebuloso, “apesar da elevação no número de brasileiros inscritos em cursos superiores nos últimos dez anos, ressaltamos que muito ainda precisa ser feito para que o país se torne uma das nações  em desenvolvimento quando o assunto é educação”, enfatiza a pedagoga.
      Precisam-se ser somados “esforços para superar os desafios”; refletir muito sobre “as desigualdades geradas pelo sistema capitalista limitam acesso à educação”, porque na sua essência, esse sistema devora êxito escolar. Nenhum cidadão está fora da cruzada contra o analfabetismo neste país. O processo educativo é continuo, por isso envolve todas as pessoas, independente da idade, do nível de conhecimento e outros elementos.
      Relata a autora, os depoimentos de um estudante que durante muitos anos lutou para ingressar naquela Universidade, mas enfrentou sérios desafios para alcançar suas metas. Mas, ele foi várias vezes motivado pelas palavras de suas professoras que lhe diziam que para vencer na vida e na carreira profissional: “(A pessoa) deve ter dignidade, respeito, reconhecimento, caráter, humildade”. É exatamente esse incentivo que está faltado ao país de norte a sul.Estão faltando estas palavrinhas fáceis, mas de peso: o Brasil não tem personalidade, caráter nacional.
        O estudo vem ampliar o debate sobre a questão de acesso ao curso em análise, ou seja, é o ponto de partida para implantar novas perspectivas. Porém, a autora fez isso, avançando para um cenário maior, o Brasil. A “realidade é em grande medida marcada pelas desigualdades de oportunidades”, que atinge três dimensões diferenciadas e estreitamento relacionadas entre si: a escola, a família e o estudante”. Ela mesma questiona: “De que forma a estrutura do sistema educacional brasileiro atual na promoção ou superação das desigualdades de oportunidades e resultados educacionais? Como os egressos de escolas públicas assumem seu papel? Como os pais contribuem para a aprovação desses jovens no curso de Medicina?”
     Onde quer que cada um de nós esteja, é nosso dever erradicar o analfabetismo no Brasil, pois são muito graves os problemas existentes. Mas, que devem ser superados, ninguém tem dúvida. O levantamento apresentado palavras grandiosas do tipo: “esforço para superar os desafios”; precisa-se de “dedicação exclusiva aos estudos”; vale a pena ingressar num “curso prestigiado”; por que isso resulta na “grandiosidade da coisa”. Tudo isso reforça a crença de que é possível mudar o atual panorama escolar no qual se constata: a evasão, a repetência, a repulsão, e outros males que maculam  os espaços do nosso ensino.
      As boas ações devem ser seguidas, sempre. Isso nos remete ao exemplo de vida pessoal e profissional, assim como da fantástica capacidade de superação da educadora brasileira Dorina de Gouvêa Nowill (1919-2010). A “dama da inclusão”, que ainda era uma menina de apenas 17 anos quando ficou completamente cega, e assim viveu até os 91 anos. Porém, nunca desistiu de ser educadora, cursou magistério e tornou-se professora. Filantropa assumida, fundou o Instituto para cegos que leva o seu nome. Hoje, uma das fundações beneficentes mais importantes da América Latina. É dessa corajosa mulher, esta máxima: “Os problemas foram feitos para serem superados e não para ser contemplados”.
      Portanto, vamos praticar as recomendações da doutora e professora Aparecida da Silva Xavier Barros. Cada um fazendo a sua parte em prol do ensino de qualidade em todo o país, para demolir o analfabetismo. Agindo assim, num futuro próximo, ninguém irá nos acusar de que não foi dado o recado e feita essa chamada.
                                                          
Tecnologia do Blogger.