Pedro Tierra: a revolta é sua lei

      Você sabe quem é Hamilton Pereira da Silva? É ele mesmo, o poeta Pedro Tierra, pseudônimo (possivelmente inspirado em "O Tempo e o Vento", de Érico Veríssimo) por ele utilizado durante o regime militar, haja vista ser militante de esquerda. Nascido em Porto Nacional (antigo município goiano, hoje pertencente ao Estado de Tocantins), com 69 anos de idade.
      O poeta não tem curso superior. Após concluir o então segundo grau, foi combater a ditadura pela Aliança Libertadora Nacional (ALN). Ainda bem jovem, aos 24 anos, foi preso pelo Exército em Goiás, depois transferido para São Paulo e permaneceu no presídio por 5 anos, entre 1972/1977.
      Numa cela do Doi-Codi, onde foi torturado, o prisioneiro era proibido ter acesso a papel e caneta. Porém, no intervalo de um  interrogatório, ao ficar sozinho, retirou o material e algum tempo depois começou a escrever seus poemas e enviá-los para amigos e parentes, os quais, posteriormente foram reunidos e publicados clandestinamente na Itália, sob o título de Poemas do povo da noite, cujo autor era Pedro Tierra. Essa obra só foi publicada no Brasil em 1979.
       De lá para cá, ele publicou outras obras como Água de rebelião (1983); Dies irae (1999); Ameríndia: morte vida (2000), com o padre Pedro Casldáliga; O porto submerso (2005), etc. Cada livro mais belo que o outro. Ameríndia, por exemplo, é um primor poético.
       No entanto, quero mesmo é falar sobre Poemas do povo da noite. Em 1981 eu era estudante do segundo grau, em Lábrea (AM) e tinha um colega de turma, Ronaldo Sampaio, que, além de muito inteligente  era relativamente atualizado, estava sempre antenado aos fatos que ocorriam Brasil afora, apesar das grandes dificuldades que enfrentávamos em adquirir jornais, revistas, livros, discos, etc. Ele sabia do meu interesse pela literatura e pela música brasileiras, embora fosse eu  família  humilde, as  as coisas ficavam mais difíceis para alcança-las .
       No dia 10 de setembro daquele ano, ele trouxe-me uma pequena obra e disse: "Leia-o, mas tenha cuidado, pois ainda vivemos sob o regime militar. É um livro clandestino de um escritor espanhol".
       Li, reli, extrai trechos, copiei esse ou aquele poemas. Datilografei - a máquina de escrever era um luxo só - um deles na íntegra e guardei. Hoje, passados quase 36 anos, retirei-o do meu pequeno arquivo para reproduzi-lo aqui. Ángel é de uma beleza ímpar. Suas entrelinhas retratam o Brasil e o mundo de ontem, de hoje, e quem sabe, do amanhã. Se não mais pelas ditaduras, mas... Vamos ao poema.

         Á N G E L

Hoje eu não poderia dormir
sem falar contigo.
Aqui também a noite,
nos nega estrelas há dez anos.
Nasci numa aldeia do norte,
onde as crianças conversam
pelas estrelas com os ausentes.
      As estrelas vermelhas que conhecemos
      estão mudas.
      Possivelmente ardem
      nos olhos de uma criança faminta
      nas ruas de Madri, desertas.
Falarei ao vento.
Se minha voz não chegar a tempo
- os ventos andam acorrentados em minha pátria -
chegará minha lágrima tardia
como a chuva sobre os penhascos de Espanha.
      O que terá sentido tua mãe?
       Tua mãe me amamentou com o leite
       resgatado da guerra.
       Tua mãe é a mãe dos meus companheiros:
       "Madre Revolución", cantará a língua poderosa
       do teu povo.
       Voltarás ao ventre da terra-mãe.
       Sagrado, teu corpo reúne na negra manhã
       de vinte e sete de setembro, o sangue de todos os
       mártires.
Aqui, também a primavera está de luto.
Talvez a derradeira chuva
martele no telhado
um canto agudo.
São as lágrimas dos meninos do mundo
que te choram e herdarão teu nome e tua bandeira.
Trago um cheiro de mar para os teus muros.
O sal de meu corpo se fundirá
com o suor, a crença,
a carne de todas as esperanças.
Perdoa, se trago palavras apenas.
A palavra é meu ofício.
A revolta é minha lei.
      Hoje eu não poderia dormir
      sem falar contigo.
      Amanhã estarei com a alma amputada.
      Não te prometo que verei, por ti, a manhã absoluta.
      Também aqui se morre, nas ruas
      e nas prisões.
      Mas terá nascido hoje,
      do ventre amado da terra,
      um menino cigano
      de olhos claros que fitará
      a Espanha liberdade
      com a força de mil constelações
      submersas em 40 anos de tirania.
 
      O mundo vive "de luto" permanente.  Com "a alma amputada" ignora a vida. Ignora a "bandeira" branca da paz. Por aqui, na Terra Brasilis-I (1986), como escreveu Tom Jobim, a pátria não quer mostrar a própria cara como exigia Cazuza. Precisamos, urgentemente de "um canto agudo" de liberdade. Não  a liberdade no sentido lato, etimológico, mas no sentido ético, moral, de virtudes, de caráter
       Foi Chico Buarque que sentenciou: "Pega ladrão, pega ladrão". Quem é o ladrão? Come ele é? Meu velho pai dizia que uma pergunta sensata não ofende a ninguém. Eis aqui uma: Como é mesmo o nome do político brasileiro - passivo ou ativamente -não envolvido com corrupção?

Referências 
1. Tierra, Pedro. Poemas do povo da noite, 1979.
2. www. google. com
3. antoniomiranda. com. br (2010)
4. www. luteranos. com. br
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