La Fontaine: instruir e agradar

   Você sabe quem foi Jean de La Fontaine? Foi um famoso fabulista e um dos escritores franceses mais lidos em todos os tempos. Nasceu em 8 de julho de 1621 em Château-Thierry, Champagne, filho mais velho de uma família rica, o que garantiu sua excelente educação em seminário. Porém, como percebeu que não tinha vocação para a vida eclesiástica, foi estudar Direito. Formado, chegou a praticar a advocacia, mas sem muito empenho ou talento.
    Por volta de 1650, aos 29 anos, ingressou na carreira literária, escrevendo quadras, traduções e adaptações. Depois, a prosa e verso. Mas, somente o trivial até aos 43 anos. Quando, então, conheceu Racine, Boileau e Molière e os quatro formaram um grupo literário que se tornou famoso na história da literatura nacional. A partir daí, o seu talento aflorou, assim como sua facilidade em fazer amigos importantes da aristocracia parisiense.
     Já homem feito, em 1668, aos 47 anos, publica os primeiros seis livros de fábulas dedicadas ao filho de seis anos  do Rei Luís IX e da rainha-consorte Maria Theresa de Espanha, que foram seguidos de outros tantos em 1671. Naquela mesma década, em 1678, foi publicada sua nova coleção de Fábulas, considerada “divina” por madame de Sévigné, uma das mais severas críticas literárias da época. Nessa edição, ele abre o prefácio da coletânea com estas palavras:
 
                            Sirvo-me dos animais
                            para instruir os homens...
                            procuro tornar o vício
                            ridículo por não poder
                            atacá-lo com o braço de Hércules...
                            Uma moral nua provoca tédio:
                            o conto faz passar o preceito com ele,
                            nessa espécie de fingimento
                            é preciso instruir e agradar.
     Em 1682, La Fontaine já era considerado um dos maiores homens das letras francesas. No ano seguinte, foi admitido na Academia Francesa de Letras, concorrendo com Nicolas Boileau. Em 1694 são editados os últimos volumes de suas Fábulas. Um ano depois, no dia 13 de abril de 1695, aos 73 anos, morre Jean de La Fontaine, considerado o PAI DA FÁBULA MODERNA.
     “A fábula é uma narrativa curta,  de fundo didático, que encerra alguma lição de moral e ensinamento útil, a qual nasceu com a própria civilização e foi transmitida através de séculos e gerações pela oralidade; a fábula usa animais falantes e elementos naturais para representar alegoricamente as virtudes, traços de caráter e vicissitudes do homem, próprios de sua natureza e independente de época, de cultura e classe social, daí ser encontrada em todas as culturas e períodos históricos”.
     Foi La Fontaine, indiscutivelmente, que popularizou a fábula no ocidente, a partir da segunda metade do século XVII. Porém, ele foi beber água na fonte dos fabulistas ancestrais: ESOPO (grego, séculos VII e VI a. C.) e FEDRO (romano, 15 a. C.-50 d. C.), somados aos seus próprios livros foram traduzidos e publicados em todo mundo.
     Para tornar o conjunto da obra ainda mais sensacional, no século XIX, o mestre gravurista, também francês, Gustave Doré (1833-1883) ilustrou as Fábulas de La Fontaine com magníficas imagens. Era o casamento perfeito que faltava àquela arte, onde foi unido o útil ao agradável, sobre a obra-prima universal.
     Nas escolas de ensino básico da França, o texto dessas fábulas, é passado para as crianças memorizarem e eventualmente recitarem. “Assim, tudo vira brincadeira porque os versos têm humor, o som das rimas é agradável, os personagens são atraentes, mas o mais importante são as lições de vida, de moral que encerram. A memorização e a repetição dos versos ao mesmo tempo divertem e educam – são lições que jamais serão esquecidas”.
     No Brasil, não há, pelo menos no campo do domínio público, algo semelhante ao que é praticado naquele país, nessa área do ensino. Só para mencionar um único autor: Millôr Fernandes, um fabulista brasileiro genial. Ele deixou uma vasta obra nesse ramo do conhecimento, para todas as idades, seja dentro ou fora da escola.
     “Na moderna pedagogia, a educação implica na participação ativa de adultos responsáveis diretamente no aprendizado das crianças e estas têm de ser inseridas num contexto coletivo – o aprendizado se torna fácil e prazeroso quando a criança cota com a cumplicidade de gente de sua idade e com o apoio de pais e mestres”.
     Li 67 fábulas do autor em questão, cada uma mais interessante que a outra, Assim, como atual (e real) é o sentido  moral de todas elas. Escolhi 4 delas (3 na íntegra e 1 adaptada), por achar que são oportunas e retratarem bem a realidade humana atual, principalmente a do Brasil.
     O PROCESSO DO LOBO CONTRA A RAPOSA. “O lobo alegou que o haviam roubado: uma raposa, sua vizinha, de muita má fama, foi chamada ao tribunal. O juiz era o senhor macaco, diante do qual seguiu o processo entre as partes, sem intervenção de advogados. O juiz não se lembrava de litígio mais complicado e longo: assim, dentro de sua Augusta toga, ele suava e transpirava. Depois que um e outro litigante discursou, contestou, replicou, gritou e alvoroçou, o magistrado, convencido de que ninguém tinha razão, lhes disse: ‘Conheço-os há muito tempo, amiguinhos e ambos irão pagar multa: você, lobo, porque se queixa ainda que não tenham lhe tomado nada; é você, raposa, porque tirou, conforme a acusa.
      O juiz estava convencido de que qualquer que fosse sua sentença, estaria condenando um vigarista”.
     O LOBO E A CEGONHA. “Os lobos são grandes glutões; um deles devorou uma refeição com tal voracidade que quase lhe custou a vida. Um osso lhe atravessou a garganta de tal maneira que sequer conseguia uivar para pedir socorro. Por sorte, ocorreu de passar por ali uma cegonha. Chamou-a fazendo sinais e ela o acudiu, e qual um hábil cirurgião, fez a extração do osso. Depois, pediu que lhe pagasse.
    “Pagar?”, exclamou o lobo, indignado. “Está louca, camarada? Já não lhe foi bastante deixar que você tirasse a cabeça de minhas mandíbulas? Ingrata e cuide-se para não cair outra vez em minhas garras”.
 
    AS BOLSAS. Um dia, Júpiter proclamou, do céu:
     - Que todas as criaturas vivas apareçam diante do meu trono, e se tiverem alguma reclamação sobre sua aparência, forma, tamanho ou textura que façam, sem medo. As mudanças que forem necessárias serão feitas.
     - Agora, que fale o macaco... Você vê estes quadrúpedes, seus irmãos... comparado a eles você está feliz com sua aparência?
     - E por que eu não estaria? – Perguntou o macaco. – Não tenho quatro como todos eles? A minha cara não é a melhor, certo? Porém, o urso tem uma cor que parece um borrão e, além disso, ele é todo disforme.
    O urso se aproximou, mas não para reclamar de si. Ao invés disso, disse que o elefante merecia críticas, que seria sábia diminuir-lhe as orelhas e esticar lhe a cauda.
    Por sua vez, o elefante disse que nada lhe parecia errado com sua aparência, mas que a baleia era um desperdício de carne e gordura.
    Assim, cada um criticou o próximo, até a diminuta  formiga criticou o mosquito e todos se declararam contentes consigo mesmos, voltaram para suas casas e prosseguiram com suas vidas.
    O mesmo acontece com os tolos humanos. Os outros olhamos com olhos de lince – nós mesmos, com os de toupeira. Notamos grandes defeitos no próximo, já os nossos tratamos com máxima benevolência.
   O Grande Criador nos fez como bolsas com dois compartimentos: no de trás, escondemos bem guardados os nossos defeitos; no da frente e diante dos olhos, as falhas dos nossos semelhantes.”
    O GRANDE CONGRESSO DOS RATOS. Possivelmente a mais “verdadeira” das Fábulas de La Fontaine. Manciful, um terrível gato está levando à extinção a família dos ratos. Revoltado, o líder dos perseguidos convoca uma assembleia e depois de “um longo colóquio”, os sobreviventes, decidiram que seria amarrado um “guizo no pescoço do gato”. Gato não, “mas o próprio diabo”. Porém, surge um impasse: quem iria fazer isso? Entre os descontentes, os revoltados, ninguém se atreveria a tamanha façanha.
     “Assim sempre acontece nos conselhos e reuniões! Se precisar discutir e deliberar, os conselheiros aparecem aos montes, assim como planos e projetos. Porém, se algo precisar ser feito, aí não dá para se contar com ninguém!”
     Caro leitor, qualquer semelhança com alguma sociedade, com algum grupo político, seja na América Latina ou fora dela, não é mera coincidência, apesar de quase 4 séculos após o autor ter concebido essa fábula. “É coisa de quem não tinha o que fazer?” dizem alguns. E você o que diz?

      Referência
 .                  1. Fábulas de La Fontaine, volumes 1, 2 e 3, Escala. São Paulo, 2009.




  
  

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